Orbán, o ilusionista: 5 contradições da sua governação

por Joel Lopes Egas

“Qualquer imigrante que venha de fora da União Europeia está, basicamente, a imigrar de forma ilegal” gritava Orbán a plenos pulmões no parlamento húngaro, em 2016. Esta é a primeira contradição – bizarra, certamente, vinda de um dos políticos mais anti-imigração da era moderna. A verdade é que enquanto esta frase ecoava pelas câmaras do parlamento, vigorava na Hungria um programa de golden visa inaugurado pelo mesmíssimo Orbán, que consistia na concessão de residência permanente a pessoas de Estados terceiros, mediante o investimento de 300 mil euros em títulos de tesouro do Governo. Por outras palavras, todos os imigrantes de fora da EU são ilegais, criminosos, malfeitores – a menos que invistam algum dinheiro nos cofres do Estado húngaro.

George Soros – a caricata e eterna segunda contradição de Orbán. Quem vive na Hungria há algum tempo e acompanha algumas das entrevistas de Orbán, sobretudo na Kossuth Radio, sabe que George Soros, bilionário húngaro e americano, é o bode expiatório ex libris de Orbán. Soros é o culpado da “erupção de refugiados; da crise económica; do flagelo do islamismo e a morte dos valores tradicionais cristãos” e de uma boa parte dos problemas que assolam Orbán e o fidesz. O leitor que ouça estas frases pensará que nunca houve qualquer boa relação entre Orbán e Soros. Para surpresa do leitor, apesar de todas as teses conspiracionistas de Orbán sobre Soros, a verdade é que este último lhe pagou uma bolsa dispendiosa para estudar em Oxford; bolsa essa que Orbán aceitou de bom grado. O discurso anti-Soros chegou mais tarde de forma estranha e imprevisível. Alguns analistas sugerem que a diabolização de Soros foi uma via para seduzir as classes mais alienadas.

O anti-comunismo de Orbán é a terceira contradição. Quando era jovem, nos tempos antes da queda da URSS, Orbán vociferava contra a URSS e o comunismo, como sendo um elemento contrário à democracia, ressuscitando acontecimentos mortíferos como foram aqueles que decorreram da revolução de 1956, que provocaram milhares de mortos e refugiados húngaros (atente-se aqui a ironia do destino) contra a Hungria comunista e a URSS. No entanto, este anti-comunismo convive bem com a compra de vacinas chinesas ao Partido Comunista Chinês, a universidade chinesa ou, mais recentemente, a não condenação da Hungria em relação aos atropelos democráticos da China em Hong Kong. Este último episódio é particularmente grave, tendo em conta que – grosso modo – a China está a fazer com Hong Kong, aquilo que a URSS fez com a Hungria.

Anti-Rússia. Esta não é só uma contradição de Orbán, mas do povo húngaro também. A Hungria sempre foi historicamente anti-Rússia, mesmo quando era Estado Satélite da URSS. Ainda há tempos me contava um amigo meu que, recém-chegado a Budapeste, em 1979, tentou em vão falar em russo com os húngaros dessa época, que o olhavam com desprezo, apenas por ter ousado em falar a dita língua eslava. Orbán, apesar dos vitupérios lançados contra o Estado da Rússia no passado, engendrou com este país bastantes acordos comerciais e orgulha-se de uma amizade pessoal com Putin. Por último, conseguiu fazer com que o povo húngaro aderisse massivamente à famosa vacina Sputnik. É um feito particularmente notável num país com uma visão traumática da Rússia.

Gyurcsány e a Corrupção. Por fim, a ascenção meteórica de Orbán teve como mote a luta contra a corrupção, o elitismo e o excesso de impostos do Mszp (partido de Gyurcsány). Volvidos mais de 10 anos de Orbán como Primeiro-Ministro, facto é que, de acordo com o índice de percepção de corrupção em 2020, a Hungria aparece como o segundo país mais corrupto da UE, somente atrás da Roménia. Em relação à política fiscal, não se pode dizer que a Hungria tenha melhorado. É o país da UE com a taxa de IVA mais alta (27% é a norma) e uma política fiscal de flat tax rate de quase 34% para todos os rendimentos, o que se traduz numa política de muito pouca justiça social, de acordo com vários estudos. No entanto existem diversos incentivos fiscais às empresas, causando alguma estupefação – dado que a maioria do eleitorado do Fidesz encontra-se na classe baixa e trabalhadora.

Apesar (ou devido) a estas e outras contradições, pode-se dizer que Orbán é simplesmente um génio político. É notável a maneira como contorna, mente, exagera e ludibria o eleitorado húngaro para atingir o poder pessoal e o do seu partido. Com as eleições em 2022 e a intimidação da nova coligação dos partidos da oposição, certo é que Orbán é um velho sobrevivente neste jogo político, quiçá viciado.

Budapeste, 12 de maio de 2021

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