Orbán e a vacinação goulash: pragmatismo ou despudor?

por LMn

Sem surpresas, a Hungria de Orbán delineou mais uma vez uma estratégia diferente do resto dos países da União Europeia. E parece estar a resultar.

Por Joel Lopes Egas

Professor de Português em Budapeste, Hungria

É uma manhã gélida de abril em Budapeste e já se vislumbra uma longa fila de pessoas às portas do velho hospital Heim Pál. Esta fila é um mar eclético de gente inquieta com os seus cigarros e telemóveis, impacientes para receber a vacina contra a Covid: brancos, ciganos, velhos, jovens e maioritariamente mulheres. Também nesta fila estou eu: português, 28 anos, residente e trabalhador na Hungria. Eu vou receber a Pfizer, disseram-me por sms. Os outros não sei: tanto podem receber a russa (Sputnik V), a chinesa (Sinopharm), ou as ocidentais AstraZeneca, Pfizer ou Moderna.

Sem surpresas, a Hungria de Orbán delineou mais uma vez uma estratégia diferente do resto dos países da União Europeia. E parece estar a resultar. À data deste artigo, o país dos magiares é o país da UE com a maior taxa de população vacinada (35% já tomaram a primeira dose), bem à frente de Portugal (onde apenas 17% já tomaram a primeira dose) com sensivelmente o mesmo tamanho e a mesma população. E tudo se deve ao pluralismo de vacinas, ou como uma avó húngara lhe chamou: a vacinação goulash (uma sopa típica da Hungria). Enquanto a Hungria usa cinco tipos de vacina e prepara-se para usar a sexta, o resto dos países da UE usam três.

“Qualquer tipo de vacinação é melhor que nada”, foi uma frase de Cecilia Muller, membro do governo da Hungria, e que sumariza bastante bem a longa carreira de Orbán e dos seus governos, onde os meios sempre justificaram os fins. Alguns acusam-no de despudor, outros de pragmatismo. Facto é, que o primeiro-ministro húngaro nunca quis saber das aprovações da EMA, sendo o primeiro país da UE a aprovar, à revelia da EMA, e comprar a vacina chinesa (5 milhões de doses) e russa (2 milhões de doses) e prepara-se para aprovar a Covishield (versão indiana da AstraZeneca), dando a entender que o resto dos países europeus estão a fazer “joguinhos” políticos com os rivais do Ocidente à custa de vidas humanas. A Hungria nunca interrompeu a vacinação da AstraZeneca, com a mensagem subliminar de que os países que o fizeram são de um paternalismo excessivo, tendo em conta a percentagem de menos de 1% em que se registaram vítimas mortais. E tudo isto, contrariamente ao que muitas vezes se pensa, sem obrigar ninguém a tomar a vacina.

Também o método de convocatória para a vacinação é diverso daquele que se utiliza em Portugal. Na Hungria, para se ser vacinado é necessário efectuar o registo numa plataforma online do governo (vackinainfo) colocar alguns detalhes pessoais e esperar por um sms, email ou chamada telefónica com a data, lugar e tipo de vacina a receber.

Outro aspeto que também difere de outros países europeus, é que o governo deixou de usar o R(t) – índice de transmissibilidade – como principal pedra angular para aplicar ou não medidas de restrição. O desconfinamento na Hungria, agora, tem por base o número de vacinações, uma medida de “marketing” para convencer a população a ser vacinada. Por exemplo, após ter atingido a etapa de mais de dois milhões de vacinados, abriu-se o comércio; nesta semana prevê-se atingir mais de 3,5 milhões vacinados e, por conseguinte, abrirão as esplanadas dos restaurantes.

Os principais jornais da Hungria fazem ecoar a satisfação dos cidadãos húngaros com a atuação do governo. Contudo, num país onde a liberdade de imprensa é bastante frágil, é preciso analisar estes dados com cautela. Ainda assim, a minha impressão é que existe uma efetiva aprovação geral em relação ao modus operandi do governo, muito embora haja também desconfiança em relação às vacinas não ocidentais, devido, em parte, ao passado histórico da Hungria com o comunismo e a Rússia.

À data deste artigo, enquanto a Hungria cavalga a galope para quase metade da população vacinada, o resto da Europa vai a um ritmo mais lento, encalhada em regulamentos excessivos, em quebras de oferta, em suspensões que obrigam constantemente a travar e a refazer a contabilidade para o tão ansiado regresso à normalidade. Com algum ceticismo em relação à vacina russa e ainda sem certezas absolutas sobre a eficácia da vacina chinesa, o facto é que, a este ritmo, a Hungria vai ser seguramente o primeiro país da UE a atingir a vacinação de toda a população adulta, dando fôlego a Orbán para as eleições húngaras de 2022.

Será que esta vacinação plural vai resultar? Será que a estratégia arriscada de Orbán permitirá a penetração ainda maior da China e da Rússia nas políticas da UE, fazendo da Hungria um cavalo de Troia? Será que a união da UE vai ficar ainda mais afetada? Em suma: será que os meios de Orbán justificarão os fins de Orbán?

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