Olhemos o futuro com confiança!

por Henrique Delmar

Mais ou menos daqui a cento e dez – cento e quinze anos, num belo dia de verão, todos os sinos do país, sem exceção, irão rebater ao mesmo tempo. Muitos nem sequer se darão conta, mas o repicar dos sinos será prenúncio de grandes mudanças!

Até lá, o antigo Palácio Real em Visegrád será reconstruído com um esplendor nunca antes visto, com salões faustosos e jardins suspensos. Evocada pelo soar dos sinos a cerimónia de inauguração, vai fazer comover até às lágrimas os olhos dos miseráveis. Finalmente, chegará a altura, o grande e há muito esperado momento, em que a miséria milenar vai acabar.

Visegrád já não será a capital deste pequeno país, mas da República Húngara do Danúbio, com quatro ou cinco mares a lavar as suas margens. A república será chamada ‘Danúbio’ para não confundir com a outra, a República Húngara da Baixa Renânia. Esta última será habitada, não por húngaros, mas por habitantes da Baixa Renânia desgastados e de vestes surradas, que tomarão o nome húngaro apenas por cabala.

É impossível descrever como será bom ser húngaro! Basta dizer que a palavra “húngaro” tornar-se-á – dentro de mais ou menos, cento e quinze anos – um verbo, que nessa altura será adotado por todas as línguas vivas, e com uma denotação lisonjeira.

“Magyarni” em francês, por exemplo, significa: chupar-me a mim próprio. Em espanhol: encontrar dinheiro na rua e curvar-se para o apanhar; em língua catalã: “Curvo-me com facilidade desde que recuperei do meu doloroso membro inferior”. E se alguém em Londres disser: Vou à Hungria, significa: “Àquela mulher divina que lá vês, vou ter com ela, falar com ela, acarinhá-la, levá-la para casa e …” (Há aqui um palavrão).

Outro exemplo: “Eu húngaro, tu húngaras, ele, ela húngara” (declinação magiar para verbos terminados em “ik”) em sete línguas civilizadas (norueguês, grego, búlgaro, basco, etc.) significará “Como (comes, come) um assado de pato estaladiço com salada de pepino, enquanto Yehudi Menuhin toca os acordes de “Só uma menina” ao meu ouvido”.

Mais ainda:  “Mãe, posso ir Magyarni? – Magyarhatsz!” – em letão significa que um rapazinho está a pedir à sua mãe para o deixar ir ao cinema, e a mãe sem hesitação, deixa-o ir, mesmo que o filme seja apenas para maiores de dezoito anos.

Mas esqueçam os países estrangeiros! Muitas coisas serão chamadas de outra maneira. Por exemplo, “baunilha”, uma palavra estrangeira, será substituída por “guerra”, uma vez que perdeu o seu antigo significado. Assim, na confeitaria de Visegrád, por cima do balcão de gelados, poder-se-á ler:

Morango

Ponche

Guerra

Chocolate

É assim que vamos viver. Até lá, só teremos de aguentar estes poucos anos.

 

Tela em destaque: Visegrád – Gödi Vass István

Autor: István Örkény

In: Egyperces novellák – Örkény István

Tradução: Arnaldo Rivotti

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