O vinho na Cuba tem mais encanto!

por Virgilio Loureiro

Entre o São Martinho e o Carnaval a airosa vila alentejana de Cuba, cheia de história e carisma, tem (muito) mais encanto, pois é tempo de festejar e apreciar o vinho de talha. Nessa época as talhas das tabernas da terra estão cheias de vinho e quando se pede um copinho vemo-lo sair diretamente da talha. Só quando visitei as várias tabernas que ainda perduram me pude aperceber do que é partilhar esse espaço de convivialidade em vias de extinção e apreciar, em toda a plenitude, o verdadeiro vinho de talha alentejano.

As tabernas não são iguais às outras, pois também são adegas, com as talhas alinhadas atrás do balcão e prontas a receber as uvas em setembro. Nesse mês a azáfama é grande. O proprietário afadiga-se na preparação das talhas ou potes, na escolha do lote das uvas, no “ripanço” dos cachos para remover os engaços e moer os bagos, em mexer a balsa quando o mosto começa a ferver, muitas vezes com a ajuda dos clientes. É tempo de alegria e exaltação em que todos capricham em fazer o melhor vinho das redondezas, pois os clientes, com olfato e palato apurados, sabem reconhecer a qualidade e elegem, com a autoridade que se lhes reconhece, o melhor vinho de cada colheita. Escusado será dizer que o feliz contemplado não pára de servir copinhos de vinho com o orgulho estampado no rosto, pois produzir o melhor vinho de talha dá direito a grande reconhecimento social. Importará afirmar, no entanto, que é uma competição saudável, sem stress, em que todos participam alegremente.

O vinho de talha é uma herança romana com cerca de dois mil anos, de grandes tradições no Baixo Alentejo e particularmente na região da Cuba e Vidigueira, onde ainda se podem admirar os imponentes vestígios da villa de São Cucufate, reconhecida como a maior da Península Ibérica. Os romanos legaram-nos a técnica de cultivo da vinha, onde as videiras são podadas em taça ou em cabeça de salgueiro, junto ao solo, para resistirem melhor à canícula do verão. Também nos ensinaram a fazer as talhas, estando o processo e a técnica de fabrico consolidados há vinte séculos. O revestimento das talhas com pez louro, com cera de abelhas ou com uma mistura dos dois, é uma tradição milenar mediterrânica que os alentejanos continuam a fazer para impermeabilizar as talhas. O fabrico do vinho já não é exatamente igual ao dos romanos, mas é muito parecido, dando-se preferência à produção de branco, como na época imperial. Se todo o ritual do fabrico do vinho de talha é um regresso ao passado, que dizer do ritual do seu consumo, onde se continua a repetir o simposion grego e toda a tradição mediterrânica do consumo de vinho em companhia.

Nada melhor que visitar as tabernas de Cuba – a capital da taberna em Portugal – para entender a alma do vinho de talha e descobrir as suas origens mediterrânicas. O sábado de manhã é ideal para viver a experiência. A primeira vez que eu e uns amigos vivemos tal experiência ficámos convertidos, definitivamente, ao vinho de talha bebido ao lado dos compadres alentejanos.

Quando pomos o pé na soleira da porta da “Casa Canavial”, outrora conhecida por “Taberna do Revinhoso”, sentimos os olhos de todos os convivas em cima de nós, tanto dos sentados cá fora como dos que bebericam o seu branquinho ao balcão. Fazem-nos sentir que somos de fora, mas quando dizemos ao que vamos põem-nos à vontade. Oferecem-nos logo um branco de talha, com a sua inconfundível cor dourada, num copinho de vidro grosso. Quando perguntamos se há algum petisco para fazer boca o camarada do lado diz-me: aqui, somos nós que trazemos de casa! Se quiser pode servir-se de uma fatia de pero ou de marmelo, que vai muito bem com o branquinho. E ia mesmo! Quando pergunto se servem refeições o anfitrião e três dos convivas olham instintivamente para a lareira ao canto da sala, onde fumega um cântaro de barro com tampa. Dizem-me que ao sábado é costume fazer um almoço especial, mas previamente combinado. E nesse dia havia favas, que o anfitrião fez questão de nos mostrar com o foco de uma lanterna e os olhos brilhando de orgulho. Ficou a promessa de voltarmos noutro dia para partilhar o almoço de sábado. Era tempo de rumar à taberna do Manuel Rui, logo ali a cem metros, mais conhecida por Taberna do Febras.

Não havia clientes cá fora, mas quando entrámos estava à pinha. A azáfama era grande, o balcão estava pejado de copos, jarros e petiscos e o Manuel Rui não tinha mãos a medir. Depois de nos ajeitarmos lá vieram mais uns copinhos de branco e, para fazer boca, umas deliciosas costelas de porco fritas e um pão estaladiço ainda com o calor do forno. Passados minutos entra um senhor apoiado num andarilho, de cara bem-disposta e cumprimentado por todos. Disseram-nos que era Mestre Joaquim, a melhor voz de cante do Alentejo, não obstante os seus noventa e quatro anos. A hora não era a mais indicada para começar o cante, mas Mestre Joaquim, a pedido de um conviva, brindou-nos com a sua voz cristalina e melodiosa. A animação era mais que muita, as conversas calorosas, os copinhos num contínuo vaivém e numa salinha ao lado fazia-se honras a uma sertã cheia de ovos mexidos com silarcas.

Ao refletir nos momentos que estava a viver dei-me conta que podia estar na Ática Clássica, ainda que sem misturar água no vinho de talha, como é o hábito entre os “bárbaros” da Ibéria! As estórias, o canto polifónico, a alegria transbordante, os jogos tradicionais e uma sã convivência continuam, na Cuba alentejana do século XXI, como se fosse a Atenas, que Platão nos descreveu há vinte cinco séculos atrás.

Era tempo de rumar à Taberna do Lucas e depois à do Arrufa e à do Chico Fitas!

Crédito das imagens: José Maria Chaveiro

 

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