O vinho e o pão… ou seja o vinho, a gastronomia e a cultura. (Parte IV)

por Joaquim Pimpão

Em Portugal, do ponto de vista histórico, social e cultural, é impossível falar de vinho e gastronomia, sem falar de frades, abades e ordens religiosas. Não é por acaso que se diz “comi (e bebi) que nem um abade.”  Sabemos que tal não é verdade apenas para Portugal.

É o caso p.ex dos Monges da Ordem Cister, sediados em Alcobaça. Desde o ínício que se dedicaram à vitivinicultura e à enologia, tendo as suas ”santas” adegas, ganho rapidamente fama fora do convento e conhecidas como “autenticas catedrais de gastronomia”, fazendo assim, com a ajuda da “mão divina”, esquecer o rigor e a auteridade conventual.. Segundo documentos históricos, em 1774, o Mosteiro de Alcobaça, graças à sua cozinha e ao refeitório, foi considerado o “Templo da Gula mais brilhante da Europa”. De destacar que o Mosteiro de Alcobaça é desde 1989 Património Mundial da Humanidade.

Felizmente, para nós, pessoas do século XXI, não são só histórias do passado. Recentemente li um artigo (jornal britânico «The Independent» referindo-se a um estudo do Wine Institute), segundo o qual o Vaticano é o país do mundo onde se consome mais vinho. Em média, cada habitante do Estado do Vaticano bebe 74 litros de vinho por ano, o que corresponde a cerca de 105 garrafas. Este número é o dobro da quantidade que se consome em França e Itália e o triplo do consumido no Reino Unido.

A justificação do Vaticano é que para além do vinho que se bebe nas missas, também as características da população contribuem para estes números. Os seus habitantes são geralmente homens, mais velhos, bastante instruídos e habituados a fazer refeições em grupos grandes, o que proporciona maior consumo de vinho. De referir que o Vaticano, com apenas 44 quilómetros quadrados, tem cerca de 800 habitantes e um único supermercado, negócio certo…

Aliás, sábio e culto, um grande homem, o Bispo Brasileiro Dom Hélder Camara disse “agora que a velhice começa, preciso aprender com o vinho a melhorar envelhecendo e, sobretudo, a escapar do terrível perigo de, envelhecendo virar vinagre.“

Penso que estamos pois de acordo que beber vinho era, é e será um acto de cultura! Não será pois de admirar que alguns dos nossos maiores intelectuais, escritores e poetas, após momentos bem regados de cultura, com alguma frequencia, andassem pelas ruas de Lisboa  “com um grão na asa”, como possivelmente terá acontecido com Fernando Pessoa e todos os seus heterónimos. Penso que ter ou estar com “um grão na asa” é também um bom exemplo dos nossos “brandos costumes”, neste caso ao nível da linguagem…é muito mais simpático do que dizer: “o gajo está com os copos” ou “está cá com uma bebedeira  que mal se aguenta de pé”…

 

O VINHO RIMA COM BACALHAU

SOBRE OS VINHOS E A GASTRONOMIA PORTUGUESA. ALGUMA POESIA E OUTRAS HISTÓRIAS.

Com o vinho e o bacalhau histórias, lendas e poesia, literatura e gastronomia, estou a correr o risco que isto ainda acabe tudo numa grande caldeirada, mas como “quem não arrisca não petisca” e uma caldeirada no final da minha apresentação não viria nada mal… Este extenso artigo é composto de 12 pontos que no LusoMagyar News serão publicados separadamente.

    1. Vinho – histórias e lendas contadas e degustadas à mesa (Parte I)
    2. O Vinho “radica-se” em Portugal. Os primórdios (e evolução) do vinho em Portugal (Parte II)
    3. A comercialização (exportação) do vinho português (Parte III)
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