O tradutor húngaro de Pessoa que descobriu o português na música de Gilberto Gil

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Entrevista exclusiva de Leonídio Paulo Ferreira a Pál Ferenc (Fonte: Diário de Notícias)

É com orgulho que Ferenc Pál reivindica ter coordenado “a mais completa edição de sempre de Fernando Pessoa na Hungria”. São, diz o académico, “quase 500 páginas, que pesam bastante, uns 820 gramas”. A conversa é feita por Skype, com o professor Pal em Budapeste, cidade onde desde fevereiro está à venda Bensőmben Sokan Élnek, ou Vivem em Nós Inúmeros, título de um poema de Ricardo Reis, um dos mais famosos heterónimos de Pessoa junto com Álvaro de Campos, Alberto Caeiro ou Bernardo Soares. Conversamos, claro, em português, língua que Ferenc Pal ouviu pela primeira vez no início dos anos 1970, pela voz do cantor Gilberto Gil, cuja música escutavam alguns amigos brasileiros, refugiados em Budapeste da ditadura militar no poder em Brasília.

O antigo diretor do Departamento de Português da Universidade Eötvös Loránd, de Budapeste, professor catedrático jubilado desde 2014, contou com duas dezenas de poetas para esta tradução, alguns deles “nomes maiores da lírica húngara”, como se pode ler no cartaz que anuncia a sua palestra em Lisboa sobre Fernando Pessoa, no dia 15 na Faculdade de Letras. É este o pretexto para a publicação desta conversa, que teve lugar em fevereiro, logo após a edição, mas que foi adiada devido a uma falsa polémica sobre Pessoa como racista, que há uns meses andou pelos jornais até morrer por não fazer sentido.

Voltamos aos anos 1970, quando a Hungria comunista era refúgio de brasileiros e também de alguns portugueses às avessas com os regimes de direita. Pal ouve Gilberto Gil e procura um manual para aprender português. Durante um ano e meio não tem sucesso, mas, relembra, “foi como se estivesse a tentar conquistar uma namorada. Foi difícil. E essa dificuldade aumentava a paixão. Cada vez mais estava atraído pela língua portuguesa”. E quando sabe da Revolução dos Cravos, do 25 de Abril de 1974, viaja até Portugal, onde antes não se podia entrar com passaporte dos países comunistas. “Passei duas semanas em Portugal. E conheci alguns escritores. Percebi já muito bem o português falado pelos lisboetas. Foi a primeira de muitas visitas”, conta Pal. E acrescenta um episódio curioso, como foi chamado para servir de intérprete durante uma visita do presidente Ramalho Eanes, pois “o general tinha um certo gaguejar, por causa de uma bomba que rebentou perto dele na Guerra de África, e o protocolo deu fitas magnéticas aos intérpretes habituais para estudarem Eanes, mas desistiram e fui eu a ser chamado”. Serviu ainda de intérprete oficial noutras visitas, uma delas de Mário Soares.

Hoje, um húngaro interessado em conhecer a obra de Pessoa, não tem problemas. Está tudo traduzido, incluindo A Mensagem, que Pal prefaciou. E elogia o atual leitor do Instituto Camões, João Henriques, pelo apoio que tem dado à edição de obras portuguesas.

Especialista em Pessoa, mas estudioso de toda a literatura portuguesa, Pal conta que no século XIX havia um grande fascínio do Império Austro-Húngaro por Camões, que até chegou a ser personagem de peças literárias, e depois de algumas tentativas fracassadas a primeira tradução de Os Lusíadas para húngaro foi publicada em 1875. “Eça de Queirós também tem seguidores desde cedo no país, com um jornal local, o Pesti Hirlap, a fazer como o Diário de Notícias em 1870 e a publicar em folhetins entre 19 de junho e 29 de julho de 1886 A Cintrai út TitkaO Mistério da Estrada de Sintra, escrito com Ramalho Ortigão. “A tradução foi mal feita e à pressa”, critica o professor Pal, cuja tese de doutoramento foi exatamente sobre Eça. Quando os direitos de autor do escritor português cessaram, também um entusiasta húngaro de Eça mandou traduzir O Crime do Padre Amaro, que acabaria por ser publicado só em 1961 e já com Ferenc Kordás, poeta conhecedor de português, a ajudar na tradução.

Dos autores contemporâneos portugueses, o académico húngaro traduziu muito José Saramago, tudo a partir de O Evangelho Segundo Jesus Cristo, mas o livro de que mais gosta é O Ano da Morte de Ricardo Reis, talvez também pela referência pessoana. “Fui amigo de Saramago e cheguei a entrevistá-lo em Lisboa para um jornal húngaro quando ainda não era famoso em Portugal, nem sequer se imaginava o Nobel. E gosto do que escreveu, mas para dizer a verdade acho que António Lobo Antunes é mais escritor, mesmo que na Hungria seja pouco conhecido e só tenha dois romances traduzidos.” Foi Pal que traduziu um deles, As Naus.

Com Gilberto Gil na origem da sua paixão pela língua portuguesa, e como responsável pelo Centro Científico Brasileiro, pergunto ao professor Pal também quais os escritores brasileiros que mais admira. Responde, para os clássicos, Mário de Andrade, sobretudo por Macunaíma, que traduziu para húngaro. Também aprecia Ignácio de Loyola Brandão e Milton Hatoum.

Despeço-me de Ferenc Pal sem falar do Nobel húngaro Imre Kertész (ou do sucesso que é a obra de Sándor Márai em Portugal) mas com a promessa deste de que me enviará por mail informação que permita referir sem erros os muitos títulos húngaros referidos na conversa. E conto-lhe que descobri a edição da antologia pessoana por mero acaso, graças a um post no Facebook de Joaquim Pimpão, do AICEP em Budapeste, e que cheguei ao seu contacto com a ajuda de Emese Rasztovich, da Embaixada da Hungria em Portugal, que conversa em português tão à vontade como se tivesse nascido na Lisboa de Fernando Pessoa.

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