O Sport Lada vermelho dos nossos sonhos

por Pál Ferenc
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Pál Dániel Levente

Do livro  O Oitavo Distrito de Deus

O Sport Lada vermelho dos nossos sonhos

Álmaink piros sportladája

Uma noite destas, após o cinema, voltava para casa, na Rua Práter, com minha namorada, vínhamos de mãos dadas, respirando os perfumes, os aromas e a névoa de emoção que nos rodeava. Íamos para casa, conversando, quase sem trocar uma palavra. Ou seja, como se nos entendêssemos só de olhar e por meias palavras. Seguíamos, pois, quando ela descobriu uma carrinha Lada pintada com flores ao estilo Woodstock. A julgar pelos pneus furados, era como se estivesse ali parqueada até ao fim dos tempos. Estava cheio de porcaria, de todo o tipo de lixo, e com sacos de mudança entretanto abandonada. Terminara o tempo da juventude em flor, Woodstock há muito desaparecera, restava aqui uma lembrança retorcida.

Andámos à volta, olhámos bem, e lembrámo-nos da nossa infância, de uma infância em que tínhamos sonhos. Esses sonhos não eram os de agora, nem eram uns quaisquer, eram sonhos reais, belos, grandiosos, à espera de se tornarem realidade. E, quando pequena, a minha namorada tinha um Lada, e lembrava-se de nele passear, ora com o pai, ora com a mãe – por algum motivo, nunca juntos –, entre outros Ladas, Skodas, Polskis e Zastavas.

E lembrava-se de que costumava imaginar que, quando crescesse, substituiria o automóvel antigo da família, de cor creme, envelhecendo depressa, embora robusto, por um carro de verdade, não parecido com um pequeno-burguês, mas um Lada desportivo super-rápido e vermelho. Seria como se cheirasse fogo, como quando um fedelho vizinho, mecânico, arrancava, e, às vezes, também a levava, com todas as janelas abertas, e lembra-se que deitava a cabeça de fora e soltava o cabelo ao vento, que assobiava, e quase fazia chorar os olhos atrás dos óculos, o rádio tocava, e ela esquecia-se de todas as coisas más que a aguardavam em casa ou na escola. Era o que pensava, e projectou muitas vezes – veio, entretanto, a mudança de regime e novas marcas de carros apareceram no mercado, o que significava mais opções, e, simultaneamente, dava asas às esperanças e aos sonhos ingénuos  da infância –, na ideia de que, quando crescesse, se apaixonaria, compraria um Sport Lada vermelho-fogo e, juntos, ela aceleraria, janelas abertas. E as mãos tocavam-se na alavanca das mudanças, e a música ressoava, e seria felicidade a rodos.

E, assim lembrando, vieram-lhe lágrimas aos olhos, e disse que pensava nisso quando, à noite, não conseguia dormir, e tapava os ouvidos com um travesseiro, sufocando silenciosamente as lágrimas, porque a mãe e o pai gritavam, e batiam com as portas, quebrando o que calhava, e que com o Sport Lada vermelho e o seu amor nada seria assim, eles cavalgariam sem controlo, ventos brilhantes dançando lá fora, e limpas seriam as casas, as árvores e os homens, e livres… e imaginava que consumiriam tanto combustível quanto pudessem pagar, tanto quanto a liberdade lhes permitisse…

E acrescentou que imaginava que isso era tudo de que precisavam para se sentirem vivos, e, se se sentissem vivos, não teriam mais sonhos, e isso seria a felicidade, pois quanto haviam sonhado tornara-se realidade. E seria também felicidade ver o seu amor limpar o motor e lavar o pára-brisa nas manhãs de domingo, enquanto ela esfregava os tapetes do carro, brincando com a espuma do sabão, e, cantarolando, rabiscava notas musicais no pára-brisas.

Ali estávamos, parados, e as palavras fluíam da sua boca, até que, soluçando, descansou a cabeça no meu ombro. Acariciei-lhe o cabelo e segurei-a, firme, enquanto recuperava o fôlego. E continuámos a descer a Rua Práter, peguei-lhe na mão, beijei-a e sussurrei ao ouvido que, embora não tivéssemos, e, provavelmente, nunca viéssemos a ter, um Lada, acreditasse que, mesmo sem Lada, também havia felicidade.

Tradução de Ernesto Rodrigues

 

Pál Dániel Levente,  Ator, encenador, poeta e microcontista, era redator da revista Prae, que reúne jovens tendências. Desde 1999 publica traduções da literatura em inglês, português, francês e galego e  é autor de quatro livros de poesia e duas coleções de contos. Desde janeiro de 2016, ele trabalha para o Capital Circus de Budapeste como dramaturgo. Atualmente é responsável pela divulgação da literatura húngara no estrangeiro.

Enquanto escrevia O Oitavo Distrito de Deus (uma coleção de contos), ele se mudou para um dos distritos mais perigosos de Budapeste; este livro é sobre as experiências desses anos.

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