O Que É a Civilização Europeia?

por Garry Craig Powell

A minha foto é duma casa numa aldeia inglesa, perto de Stamford, onde mora a minha mãe. Quem conhece a história de arquitectura reconhecerá que tem mais ou menos trezentos anos – que data da epoca de Bach e Handel e Vivaldi, o barroco, ou seja do início do século dezoito, a época conhecida em filosofia pelo termo ‘A Ilustração’. Escolhi esta casa, apesar de não ser especialmente grandiosa ou imponente, ou mesma bela, porque é uma casa elegante, simétrica, que relembra os padrões clássicos, sem ser pretensiosa, e que acima de tudo evoca o espírito racional e intelectualmente livre daqueles tempos felizes. (Ao menos no sentido do clima filosófico e artístico.)

A casa, que pertencia a um capitão da Armada britânica, e não a nenhum lorde, é o epitome da ordem e da confiança do meu país natal nesse tempo, um tempo em que viviam filósofos como Berkeley e Locke, e escritores satíricos como Swift e Defoe. De facto não é dificil imaginar tais figuras naquela casa, numa festa, a discutir os benefícios democráticos da Revolução Gloriosa de 1688, que limitou a poder da monarquia, embora imperfeitamente, ou os descobrimentos científicos de Isaac Newton, que vivia ainda, ou as obras de Voltaire e Diderot, e tudo enquanto uma menina tocava Handel ou Henry Purcell no cravo. Uma visão nostálgica e sentimental? Penso que não. Estou muito consciente que os meus antepassados, que eram camponeses, não viviam em tais casas, e não liam, porque nem sabiam ler, e não sabiam nada das ideias revolucionárias do tempo. No entanto, respiravam o mesmo ar de liberdade. Quem lê os romances do século dezoito, como Fanny Hill, Humphry Clinker e Tom Jones, sabe que a apesar das injustiças e da desigualdade da sociedade inglesa, havia também uma liberdade extraordinária, e uma fluidez social – muitos dos nomes ilustres são de pessoas que começaram a vida numa classe humilde – e acima de tudo um optimismo, um sentido da alegria de viver, do prazer sensual, e da piada. O século dezoito é o século do riso – o famoso sorriso de Voltaire, por exemplo. E o nosso? O riso e a piada parecem proibidos, ou ao menos censurados. Já não temos direito a rir, segundo os guardiões da cultura, esses neo-puritânicos que querem controlar tudo que fazemos e dizemos e mesmo pensamos.

É por isso que eu tenho saudades do barroco, e da herança de liberdade do indivíduo, que é, para mim, tal como para Milan Kundera, a essência da civilização europeia. Hoje, na aldeia minhota onde moro, fui o convidado duma polaca que vive aqui também, e do pai dela, um filósofo polaco que especializa-se na filosofia da India. Falàvamos da nova censura, do espírito da intolerância intellectual que està a apoderar-se da média de das universidades, e eu confessei que sentia-me pessimista com respeito ao futuro. A resposta do filósofo surpreendeu-me. Ele contestou que era optimista, que tinha toda a confiança em Europa, e nas muitas pessoas inteligentes e cultas que ainda viviam cá. Rejeitariam os dogmas dos neo-Marxistas, assegurou-me; seria impossível impor o autoritarianismo neste continente, onde a liberdade tem raizes tão profundas. As pessoas sempre encontrariam maneiras de viver como seres livres. Foi uma perspectiva interessante, especialmente vindo dum homem que vivia sob o comunismo durante décadas – e claro que estou consciente que os polacos, como os húngaros e os checos, conseguiam manter o desejo e a chama da liberdade acesos mesmo sob a ditadura. Parecia-me que ouvia a voz de Voltaire, ou do nosso John Locke. E deu-me esperança. A Europa sobreviverá, e até continuará a florescer, ao menos enquanto acreditamos nela, enquanto não nos calamos, e enquanto ousamos fazer piadas, e enquanto podemos rir.

 

Créditos da imagem: Garry Craig Powell

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