O Nascimento de um Romance Polémico

por Garry Craig Powell

Os autores costumam pedir desculpa antes de falar do seu próprio trabalho, como se fosse um lapso de bom gosto. “Lamento a minha autopromoção desvergonhada,” tipicamente dizem. Mas eu não vou pedir desculpa nenhuma. Não considero que seja autopromoção falar do meu novo romance, porque a minha intenção não é de me promover como pessoa, à maneira das celebridades. Não tenho expectativas de ficar rico ou famoso com o que publico, nem desejo isso. Sou uma pessoa privada, e já tenho os meios suficientes para viver.

No entanto, os livros precisam de promoção. Se ninguém fale deles, é como se não existessem. E penso que este romance meu merece ser conhecido. Se não achasse, porque teria passado os últimos anos em escrevê-lo? Não vou asseverar que seja uma obra prima imortal da literatura ocidental – não cabe a mim julgar. Cabe a vocês, meus caros leitores! E aos críticos profissionais, também, os auto-nomeados guardiões da cultura, alguns dos quais têm inteligência e sensibilidade, embora muitos não tenham: estes últimos não passam de ser papagaios, que repetem tudo que dizem as pessoas que estão na moda. Mas ninguém pode negar que o romance é diferente, e de fato único na cena atual de literatura anglo-saxónico. Quem mais está a escrever uma sátira sobre os auto-proclamados “progressistas” das universidades, da média e das artes? (Os “woke” em inglês.) Quem atreveria? Só um autor desconhecido, ou um bocado maluco. Em França, Michel Houllebecq tem a coragem de escrever fora das normas impostas pelos politicamente corretos. Em Portugal Vítor Vicente e Jõao Cerqueira fazem o mesmo. Mas nos paises que falam a minha língua, ninguém, que eu conheça.

De que se trata o romance, então? Eis o que diz a capa, em tradução:

A vida do galês Huw Lloyd Jones parece perfeita: ensina Escrita Criativa numa faculdade encantadora no Sul americano, e está feliz com Miranda, a sua bela esposa. Mas depois descobre que a sua chefe despótica, Frida Shamburger, o odeia, e o amor da Miranda é mais ténue do que supunha. Huw tem de lutar para salvar o emprego e o casamento. Mas pode um homem branco de meia-idade sobreviver na selva politicamente correto da academia? E com um psiquiatra manipulador e um guru do empoderamento feminino encorajando Miranda a ser mais independente, o amor do casal prevalecerá?

 Com o seu romance de estreia, Powell prova-se um sucessor digno dos mestres da sátira clássica britânica. Além de ser engraçado, também dá ao leitor atencioso muito para ponderar sobre os papéis da liberdade e do amor no mundo politicamente correto, onde a fala, o pensamento, e até as emoções estão sob vigilância constante, e a pena por transgressões pode ser a perda sumária da carreira, amigos, amor, ou mesmo uma sanção mais extrema ainda…

Por outras palavras, é um pólemico com piada – em inglês, ‘a piss-take’ – das universidades em geral, e dos ditos programas de ‘Escrita Criativa’ em particular, e do seu abandono recente de literatura e criatividade em favor de activismo politico. Está, ou aspira ser, na linha de autores como Evelyn Waugh, Aldous Huxley, e Kingsley e Martin Amis, todos autores de um sentido de humor ‘selvagem’. Em Portugal, Éca de Queirós é do mesmo estilo, e ele era fortemente influenciado pelos padrões britânicos, como indicou-me o meu amigo Vítor Vicente na sua visita ao Minho há um par de semanas.

Hoje me dia, quando muitas pessoas influentes como políticos e personalidades da média defendem e justificam a suppressão da liberdade de expressão, até nos paises que eram os primeiros defensores da tal liberdade, como a Inglaterra e os Estados Unidos, este romance é uma afirmação forte do direito à liberdade de pensamento e da expressão – incluindo o direito de ofender, porque sem isso, não há liberdade nenhuma. No Reino Unido será publicado por Flame Books nos fins de Março de 2022, em princípio. Em Portugal ainda não tem editora, embora já tenha sido traduzido, por João Cerqueira, um autor que defende os mesmos direitos no seu último romance, Perestroika, que eu traduzi. O título Our Parent Who Art in Heaven é uma piada que não dá traduzida, um gozo com a oração, o Pater Noster. (Our Father Who Art in Heaven: ‘parent’ implica um ser sem sexo ou género). Em português o título é capaz de ser Quem Veste as Calças. Que acham? Tem piada? Digam-me!

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