O Minifúndio – a Solução para Quem Não Pertence ao Rebanho

por Garry Craig Powell

No chamado ‘Great Reset’ de Davos, os bilionários como Bill Gates proclamaram que no futuro próximo não teremos nada (quer dizer, que nós, a gente não bilionária, não teremos nada: eles, os ricos, continuaram a ter), e no entanto, seremos felizes. You will have nothing but you will be happy. Viveremos todos em mega-cidades, porque é mais eficiente, em blocos de apartamentos, e tudo que quisermos chegará às nossas portas por drone, portanto nem sequer teremos de sair dos nossos lares minúsculos para comprar as coisas que nos fazem felizes. Podemos passar a vida toda a jogar e a ver filmes, enfim, pegados aos nossos ecrans e a comer pizza. Esta visão utópica é, de facto, perfeita para Gates, Zuckerberg, Musk e os seus amigos, porque assim eles e os governos que lhes são obedientes (quero dizer, quase todos, sejam da direita ou da esquerda) poderão controlar-nos mais facilmente ainda. Tudo que fazemos será registado nos nossos telemóveis. Claro que já é!

E a pandemia acelera o processo. As pessoas têm medo, e de boa vontade estão dispostas a trocar a liberdade para a segurança – ou melhor, o que os governos e os donos das indústrias de saúde e farmacêuticos nos asseguram é a segurança. Já não podemos viajar nem entrar em muitos recintos sem o certificado de vacinação. É o princípio de um sistema de crédito social, tal como se usa na China, onde tudo que uma pessoa faz está registado digitalmente, e onde as pessoas recebem recompensas para comportamentos e opiniões aprovados pelo governo, mas também recebem castigos se não seguirem a maneira de viver que o Partido Comunista manda. Nesta época do capitalismo tardio, já não faz muito sentido falar em partidos da esquerda ou de direita. O Partido Comunista abraça abertamente o capitalismo controlado pelo estado. E nos países do ocidente, mesmo aqueles que estão famosos pela democracia, tais como Austrália e Canada, estamos a ver medidas totalitárias, como os campos de isolamento para as pessoas não-vacinadas no primeiro país.

Por isso achei muito interessante, quando visitei os meus filhos (na foto comigo, no Palácio de Buçaco), no dia de Natal, que ambos querem viver numa quinta, e cultivar o que comem. James, o mais velho (à direita) é tradutor, e William (no meio) trabalha em finanças. Tradicionalmente, ambos estariam na cidade, mas os dois já optaram por viver no campo, e ainda querem estar mais próximos à terra e à natureza. Depois da fuga dos anos recentes dos jovens do campo para as cidades, será muito surpreendente, ao menos para mim, se a geração mais nova voltasse. Mas também será profundamente encorajador. Ninguém gosta de viver nas cidades grandes, a não ser os ricos, e eles só suportam porque moram nas zonas bonitas, seguras, e não precisam de usar transportes públicos, e além disso podem sair sempre que quiserem, porque também têm casas do campo. Os demais vivem apressados, estressados, ansiosos, e sempre cansados. Em princípio têm uma vida cultural vibrante ao seu dispor, mas geralmente não têm nem o dinheiro nem o tempo livre, nem a energia para aproveitar essa cultura. E ultimamente, com as restrições da pandemia, nem tivemos muitas oportunidades culturais tampouco. Portanto um regresso ao campo faz sentido.

Podem pensar que sou sentimental, e que estou a idealizar a vida do agricultor. Acho que não. Moro numa aldeia no Vale do Lima, e conheço essa vida. É dura. Requere muito trabalho, muito conhecimento, e muita sensibilidade. E para quem estiver obrigado a trabalhar num emprego além de trabalhar os terrenos que tem, pode ser brutal. No entanto, as pessoas que cultivam a própria comida estão mais independentes, mais ligadas à realidade da natureza, e sem dúvida mais fortes e mais saudáveis. Vejam só as minhotas com oitenta e até noventa anos e mais que ainda trabalham nos campos. Não é melhor viver assim, do que passar o dia a ver televisão (e ainda por cima, televisão de uma estupidez quase inconcebível) num lar, onde são tratados, muito vezes, como crianças ou parvos?

Por isso, espero que os meus filhos tenham êxito e que realizem o seu sonho. Acho que eu não tenho vocação para a agricultura – ainda parece-me que estou aqui na terra para semear palavras e pensamentos – mas confesso que gostaria de viver num sítio longínquo, muito longe da multidão e do baralho incessante das suas máquinas, e viver não como um consumidor e um cidadão, mas como um homem, um homem que não pertence ao rebanho.

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