O Estado das coisas e os Amanhãs que Cantam

por Luís Serpa

Para a Rosa

Este texto começou por ser um pedido de desculpa ao Arnaldo Rivotti e aos leitores do Luso Magyar News pela minha prolongada e não anunciada ausência. Como sempre, evoluiu, tornou-se um rio com afluentes, desaguou noutra coisa. Mas a raiz manteve-se: é um pedido de desculpa.

Temos andado relapsos, a escrita e eu. Cada vez admiro mais aqueles escritores que escrevem quaisquer que sejam as circunstâncias, estejam a morrer de fome, de frio, atacados pela doença ou pelas infelicidades pessoais. Eu preciso de muito menos do que isso para ficar completamente paralisado, sinapses congeladas, neurónios a ferros.

Não é que as ideias tenham deixado de afluir, que a vontade de escrever me tenha abandonado. Não, nada disso. É muito mais simples: a comunicação entre o meu cérebro – ou aquilo que em mim faz de cérebro – e os meus dedos está interrompida. A ponte que os uniu ruiu, caiu, desmantelou-se, foi-se a martelo.

E tanto que há sobre o que falar: acabar a história da Casa, que me povoa muito mais do que eu a povoo; as eleições, pelas quais finalmente me interesso – estou num dilema e não sou homem de dilemas, gosto de caminhos direitos (sim, apesar de todas as bifurcações da minha vida); o maldito vírus, que não há maneira de deixar a cabeça de quem nos governa; o frio, o café onde venho escrever, os livros que tenho ainda por arrumar, a minha bicicleta… Enfim, exagero. Estou a esticar a corda para ver se no fim o balde traz alguma coisa de jeito. Não traz. Para além da Casa nada me entusiasma e esta não chega para pôr os dedos a funcionar coisa que se veja.

Lembro-me de uma passagem do Zen e da Arte da Manutenção de Motocicletas, livro de vida, livro semente, basilar, no qual a personagem, professor universitário, sugere a um aluno que não sabe o que há-de escrever que descreva a parede, tijolo a tijolo. Devia seguir-lhe o conselho, talvez: a parede tem centenas de tijolos à vista, irregulares, unidos por grossas camadas de cimento. Contudo, este tijolo tem um nome: tijolo-cego, ou burro, ou coisa que o valha e chegado aqui tenho de parar. Isto não é uma autobiografia.

Armando voltou a chamar-se António, nome com que nasceu, por imposição de Vanda (?), a senhora que o acolhia quotidianamente na tasca da aldeia para onde se mudou para morrer. Fiz-lhe a vontade e morri-o. A história passou para a tal senhora, que começou logo por me fazer exigências: não gosta do nome de Armando, gosta mais de António que é, diz ela, «nome de santo e de vagabundo». António é um e outro, verdade seja dita: passou a vida a tentar ser um gajo decente e aparentemente conseguiu-o. Claro que entre «decente» e «santo» há uma longa estrada, mas nada que a literatura não consiga percorrer. Faz o que quer, a literatura, leva-nos por caminhos de cabras, por carreiros, atalhos, auto-estradas, sobe escadas e desce a abismos. António não é santo nenhum, excepto aos olhos de Vanda (?). Talvez esta confunda paciência e santidade; ou sabedoria e santidade; ou, mais prosaica e provavelmente, desinteresse e santidade. O conto já tem destinatária – a alegria. Devo ser o triste menos triste do mundo, de tal maneira a alegria me atrai.

Entretanto o país arrasta-se, falido e enregelado, «infectado» e desesperado, para eleições cuja única dúvida é: o Costa vai-se mesmo embora? Jura! De vez? Promete! Não sei o que virá a seguir. Os «insiders» dizem que Costa vai ser substituído pela Mendes, que não sei o que vale. Pouco, provavelmente. Parece que também oficia na TV, o grande ascensor político deste país, função esta que rivaliza – e quantas vezes acumula – com a Câmara Municipal de Lisboa. Como não vejo televisão e de Lisboa só vejo o lixo e a sujidade nas ruas não estou muito a par. Vou votar dia 30 indeciso entre o voto contra a Covid ou o voto no longo prazo. A IL, embrenhada em politiquices? Pois. Não se pode estar no caldeirão e fora dele e a verdade é que do caldo é o único ingrediente que se aproveita. Mas é preciso sinalizar ao governo que o vírus não é desculpa para tudo, não é? Não sei. Isto não é fórmula: não sei mesmo e acho que não saberei até ter o papel à frente e a caneta na mão. Vou votar ao fim do dia, disso estou mais ou menos seguro: o governo quer reservar esse período aos «positivos» e podem acusar-me de tudo menos de ser negativo. [Nota: afinal já não quer. É só «recomendação». Ainda bem.]

Entretanto os «projectos» lá vão andando, a pé coxinho como tudo em Portugal. Pelo menos para quem não é da família. Moura, Mértola, a tradução do Avenida (essa não tem nada a ver com a família, verdade seja dita. Tem a ver com a chuva. Está a ficar fantástica, muito para cima do que eu esperava). «Projectos» leva aspas, claro: é palavra que já não posso ver à frente. Faço minha a expressão de absoluto desprezo e descrédito da advogada a quem o mencionei, há uns largos anos. Nunca me esquecerei do tom com que ela repetiu «Projecto? Projecto?» como se fosse acha ardente tirada da lareira, ou máscara suja apanhada na rua. O projecto «casa» (habitação, não o texto) também vai avançando no habitual pára-arranca. Como a tradução, depende da chuva e de momento esta anda escassa. Tudo comigo nasce a ferros, talvez para me lembrar de que também eu saí assim, já lá vão sessenta e quatro anos. O problema é que daquela vez foi um médico e agora sou eu quem manipula o instrumento e cada vez necessito de mais força, mais energia, mais vida, mais tudo e cada vez mais tudo isso me foge. Estou todo podre por dentro, essa é que é essa. E se até há pouco tempo a podridão era só da cabeça para baixo, agora está em todo o lado. Alzheimer da alma. Vá lá que ao menos tenho esta vista linda, estas cores às quais o fim da tarde dá a vida que me tira a mim. Vai tirando, pouco a pouco. Não sei é se é a luz. Talvez seja o tempo. E talvez não seja só a mim.

A ver vamos, como diz o ceguinho (à mulher, que é surda).

E depois, que dizer deste clima de suspeita, de destruição do tecido social, de ataque à liberdade, fraudulento, absurdo, absolutamente deletério no qual mergulhámos – ou antes, nos mergulharam – há dois anos e do qual não se vê o fim? Ver vê-se, mas tão longe. A cabeça da maioria das pessoas continua cheia de merda, não há outro termo; vazia de razão. Sinto-me como o único gajo são do manicómio, mesmo sabendo que somos muitos – e somos cada vez mais. Talvez daqui venha alguma esperança, talvez daqui venha o rio que vai alagar o resto todo. Não seria senão justiça, já que foi ele quem inundou isto tudo com o cheiro pútrido da loucura. Está na hora de recolher ao esgoto de onde nunca devia ter saído. A facilidade com que as pessoas trocaram a liberdade pela segurança é assustadora (e ainda mais se nos lembrarmos de que «segurança» é um exagero grosseiro). A facilidade com que se deixam enganar também: estamos muito mais à mercê do que sempre pensei.

É isto: tempos sombrios por dentro e por fora, como se persianas filtrassem a luz que chega, já de si pouca. Resta-me um consolo: as persianas abrir-se-ão e a claridade aumentará. Para alguma coisa serve ser optimista, não? E ter uma flor na lapela da vida.

 

Luís Serpa,

Lisboa, 22-01-2022

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