O Curioso caso da Laranja Húngara e como ajudar uma laranjeira a produzir laranjas doces – Parte I

por Arnaldo Rivotti
Arnaldo rivotti

Quem não se lembra da sátira cinematográfica de Péter Bacsó “A Tanú” (A Testemunha), realizada em 1969, que retratava abertamente o culto da personalidade da era Rákosi? Vi este filme até estragar a Cassete VHS.

O protagonista do filme era o Camarada József Pelikán, um guarda do Danúbio que criava os seus filhos sozinho. Pouco havendo para comer, por isso Dezső, o porco da família, é secretamente abatido, o que era considerado homicídio ilegal. Pelikán é apanhado, preso e levado perante um certo camarada, cuja graça era Virág (Flor), que lhe diz que são necessários comunistas velhos e fiáveis como ele, pelo que o nomeia para várias posições de confiança. Em rápida sucessão, o camarada Pelikán torna-se assim Diretor da Piscina de Budapeste, Chefe do Parque de Diversões e Chefe do Instituto de Estudos da Laranja, mas as suas missões terminam sempre com a sua ida para a prisão por alguma indiscrição. O camarada Virág pede-lhe finalmente para ser testemunha-chave num julgamento de uma conspiração.

Pelikán reorganiza o Parque de Diversões. Acabou com o Comboio Fantasma, substituído pelo Cavalo do Espírito Socialista, com esqueletos dançantes e proletários a quebrar as suas algemas e retratos de líderes estatais e partidários em vez de monstros.

O camarada Bástya (Torre) é o primeiro a montar o comboio fantasma reideologizado, mas desmaia ao grito que acompanha a sua própria imagem. Pelikán é novamente enviado para a prisão, onde é novamente trazido para fora pelo camarada Virág.

O camarada “Bástya” morde a “laranja húngara”.

A sua nova função é dirigir o Instituto para o Estudo das Laranjas. O camarada Torre visita o Instituto, mas antes da celebração organizada para a ocasião, os filhos de Pelikán comem a fruta, a única laranja madura. É então que o camarada Virág tira um limão do bolso e coloca-o na mão do camarada Pelikán para que seja servido ao camarada Bástya. “O que é isto?”! – pergunta o camarada Bástya, mordendo o limão com uma expressão furiosa. Na exortação o camarada Pelikán repete: “A nova laranja húngara”. Um pouco mais amarelo, um pouco azedo, mas é nosso”, e o camarada Bástya olha à volta com um sorriso forçado. Depois, como recompensa, vão ver a “Rainha das Csárdas” juntos à noite, com Róbert Rátonyi.

E o camarada Virág finalmente pede algo: diz a Pelikán, a quem oferece um mignom, que será a principal testemunha no julgamento do Ministro Zoltán Dániel, acusado de espionagem. “Dániel confessou tudo”, diz Virág. “Tudo?” pergunta Pelikán assustado e intrigado. “Tudo”, repete com veemência Virág. Pelikán fica completamente confuso, perdendo o seu sentido da realidade, e repete mecanicamente o slogan do advogado: “O que é suspeito é o que não é suspeito”. No final, a palavra do partido triunfa.

As personagens principais podem ser todas identificadas, e mesmo as cenas mais absurdas têm elementos reais. A Testemunha continua a ser o filme de culto húngaro número um até aos dias de hoje, com quase todas as outras frases a tornarem-se um slogan. As suas cenas baseadas em contrastes, as frases pronunciadas no filme assumiram de imediato uma vida própria. O seu sucesso deve-se também ao seu elenco de prestígio e amadores de renome.  Foi proibido imediatamente após o seu lançamento em 1969. Dez anos depois, em plena era “Kádár” foi finalmente exibido, tendo participado em Cannes (1981), onde ganhou o Prémio do Júri Ecuménico, no âmbito do Festival dos Filmes Proibidos.

Imagem em destaque: https://www.reddit.com/r/ImagesOfHungary

Fontes consultadas: https://www.filmhet.hu/movie/40987

 

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