O Brasil e a Hungria ao transcorrer dos séculos: escambos materiais, espirituais e culturais (Sétima Parte)

por Pál Ferenc

Melinda Kiss e Marcelo Marinho

O Brasil no romance húngaro Chuva em Mato Grosso: imagens ou estereótipos?

Segunda parte

Horizonte de espera e estereótipos

Pelo que se viu até o momento, se o leitor tomar Lajos Füry como um escritor documentalista, terminará assimilando uma impressão do Brasil que é eivada de estereótipos, ao mesmo tempo em que também é próxima da veracidade, fato que pode intervir de forma acentuada no processo constante de construção e reconstrução da imagem deste país. Tal é o que ocorre com o samba, apresentado no romance como um elemento onipresente da cultura brasileira, ao detrimento das múltiplas matrizes musicais que caraterizam as diferentes regiões do país. O autor faz do samba um elemento marcadamente pertencente à cultura musical da região rural circunjacente a Campo Grande, pois os trabalhadores da fazenda tocam, ouvem e dançam esse gênero de música (p. 70), aspeto completamente errôneo em um livro que se apresenta (pretensamente) etnográfico. O mesmo ocorre com a bossa nova: a crer no autor, o leitor húngaro deverá pensar que a bossa nova é uma dança, além do mais praticada com entusiasmo nessas veredas do grande sertão (p. 111).

Outro assunto obrigatório em um livro que trata de apresentar uma certa imagem do Brasil aos leitores húngaros é o popularíssimo futebol. Lajos Füry explora e confirma a impressão dos europeus de que o futebol centraliza e coloniza o pensamento do povo brasileiro. Assim, o protagonista, imbuído dessa ideia de que o futebol é um elemento essencial da cultura desse povo macunaímico, planeja construir um campo de futebol na fazenda e criar um time de trabalhadores (p. 109), dando um aspeto organizado, por esse viés, a uma manifestação cultural que é antes de tudo espontânea e urbana. Sua iniciativa tem enorme sucesso, é evidente, pois o futebol está no sangue de todos os rapazes brasileiros desde seu nascimento (p. 126), prática instintiva que solicita apenas de um pouco de organização – que não se encontra nesse mesmo sangue, sugere o romancista. Infere-se, daquelas páginas, que todos no Brasil são exímios equilibristas e malabares com um balão entre os pés. Esse tipo de generalização oculta a realidade que o romance declarava pretender revelar.

Também é exemplo de tal processo de desinformação a passagem em que o autor assegura (por mais ficcional que seja sua obra) que os habitantes da fazenda preferem consultar um curandeiro a apelar para um médico (p. 81), sugerindo-se, assim, que os brasileiros conferem mais crédito a feitiçarias do que à ciência. Se, por um lado, a medicina caseira, a mezinha e as garrafadas são parte da cultura brasileira, por outro lado é preciso acrescentar que tal fato se deve a motivos antes econômicos que supersticiosos. Simplesmente, as camadas de mais baixa renda não têm recursos suficientes para enfrentar dispendiosas consultas médicas quando supõem pouca gravidade para seus males, e as longas distâncias para se chegar às propriedades rurais também dificultam a consulta a profissionais qualificados. As enfermidades mais simples são tratadas da forma mais simples, e o grande número de plantas medicinais existentes nesse país termina por favorecer a adoção de práticas que um estrangeiro pode considerar precárias e retrógradas.

Por outro lado, o livro informa ainda que nos anos sessenta todos tinham uma espingarda, considerada como meio de defesa indispensável nessa inóspita região brasileira. Há, porém, o exemplo de uma velha viúva que disparava sua arma sobre os namorados de sua filha, matando-os ao saírem da casa, sem que lhe sobreviesse punição alguma (p. 12). Tal informação sugere ao leitor que a gente brasileira, em posse de armas, mata quando quiser e a quem desejar, por motivos fúteis ou sem a menor razão, apenas por simples prazer ou pura maldade. É bem verdade que uma tal ideia viria reconfortar a impressão que um leitor húngaro desavisado poderia ter a partir de eventos amplamente divulgados pela imprensa internacional, como as chacinas da Candelária, de Carandiru e de Eldorado dos Carajás, acontecimentos apenas esporádicos, ainda que trágicos – mas em nada parecidos com os extermínios em massa ocorridos durante a Segunda Grande Guerra. Naturalmente, como essa mesma imprensa evitou divulgar a punição judicial em que incorreram os autores das chacinas, o desavisado leitor do romance poderá imaginar que o autor baseia-se em fatos verídicos para traçar uma ácida crítica à cultura brasileira.

O eminente diretor da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos prossegue em seu caminho de extrapolações generalizantes e informações enganosas quando utiliza a palavra “sertanejo” para designar banditos que vivem agrupados na mata, e esporadicamente saqueiam a fazenda em busca de provisões e de diversão fácil com as mulheres dos trabalhadores – os quais, por temor, nem mesmo protestam, como se a prática fosse natural nessas glebas do sertão (p. 178-183). O leitor desatento pensará que a palavra “sertanejo” é um sinônimo de “bandido” – ora, como todos os habitantes do sertão são “sertanejos”, eis aí um epíteto que não se tornaria nada lisonjeiro para boa parte da população brasileira, ao olhar esgarçado do leitor húngaro mais incauto. Todas essas informações terminam por reconfortar o horizonte de espera de um leitorado simplista que buscasse apenas exotismo e estereótipos nas páginas literárias.

Entre os personagens do romance, tanto homens como mulheres são intensamente criticados, por vezes condenados sem apelo. Se os homens ofendidos mostram-se covardes em relação aos bandoleiros que violam as mulheres de sua família, esses personagens femininos inventados por Lajos Füry são tão vis quanto os masculinos, pois nem mesmo se incomodam com a violência sofrida, nem mesmo se revoltam ou se irritam, tomam o fato como um episódio banal da cultura em que vivem.

Nesse contexto em que se apresenta uma incerta imagem da cultura brasileira, vale observar o personagem de Yara, uma jovem que se oferece ao húngaro solteirão, tomado por ela como um altivo cavalheiro em comparação com os homens da fazenda (p. 75). Para um diálogo que transcorre entre o capataz e a empregada da fazenda, o autor empresta a Yara a expressão “eu posso ser fiel como um cão” (p. 75), a qual, na cultura húngara, sugere que a lealdade implica uma relação de sujeição incondicional. Ao fazer uso da expressão, a própria Yara se degrada e exprime a sua posição subalterna em relação ao capataz húngaro. A expressão de sua inferioridade aparece até mesmo por intermédio da caraterização de seus cabelos e de seu corpo, quando se lê: “os seus cabelos chegam até em baixo das ancas. Eles são como crinas” (p. 79). Yara é aqui comparada a um tosco animal de montaria, a uma égua ou potranca qualquer que deve se assujeitar às rédeas de um ser que lhe seja superior. Em tais circunstâncias, também o personagem de Yara alinha-se entre aquelas outras mulheres que representam uma cultura frouxa, servil e inferior; e, espelhada no indivíduo, mostra-se a comunidade a que ele pertence.

Yara, como metade das mulheres da fazenda, é de origem indígena. Os trabalhadores costumam buscar mulheres indígenas na floresta, roubam-nas de sua comunidade e de suas famílias para delas fazerem suas concubinas, como sustenta o pretenso etnógrafo ficcionista Lajos Füry. Tais índias, após a primeira refeição e a primeira noite de sono, acalmam-se e, resignadas, sujeitam-se a seu novo homem. Elas não fogem, nem choram, nem se lamentam. Elas acostumam-se rapidamente às novas condições de vida, tornam-se boas esposas e nunca mais querem voltar à floresta (p. 135). O romance apresenta a imagem de mulheres amorfas, sem demandas pessoais, sem vontade própria ou moralidade alguma, às quais não importa com quem dormem ou a quem servem. Elas são dóceis e subservientes, assujeitam-se muito facilmente ao domínio alheio, a exemplo da própria Yara em relação ao capataz húngaro. Assim, o comportamento de Yara explica-se por meio de certas informações sobre a cultura em que vivem as mulheres da fazenda. Por intermédio de tantos estereótipos e de tantas outras imagens depreciativas, e com o auxílio de exemplos pretensamente tomados à cultura daquele rincão sertanejo do país tropical, o autor satisfaz certos horizontes de espera e assegura um baratíssimo sentimento de superioridade àquele preconceituoso leitor estrangeiro que esteja eventualmente em busca de autoafirmação em suas relações com o Outro, com a cultura do Outro.

Nesse romance escrito com um olho atento sobre o público leitor, não será por acaso que o proprietário da fazenda escolhe um imigrante húngaro (como também o é o próprio autor em terras norte-americanas) para nomeá-lo gerente e conceder-lhe um ordenado superior até mesmo ao do governador do Estado (p. 105), como se esse salário (que seria completamente absurdo e inimaginável, no plano real) pudesse representar um valor humano superior ao de qualquer cidadão brasileiro. A mesma impressão é que se depreende no episódio em que o proprietário surpreende-se com o rogo insistente do seu intendente húngaro, que deseja construir um ambulatório, uma escola e uma casa de cultura, assim como criar um time de futebol, para que aquela gente possa escapar à sua condição de selvagens, uma vez que, além das bebidas de forte teor alcólico e das brigas fúteis e violentas, diversão alguma lhes resta (p. 108-109). Entre tantas outras ideias contestáveis e eivadas de preconceitos, o romance apresenta assim a noção de que os brasileiros necessitam da tutela condescendente e desinteressada de estrangeiros para que sua cultura e suas condições de vida possam aceder a um estatuto superior, menos selvagem e mais humano.

 Recobrindo os estereótipos

Aos olhos do leitorado húngaro, o romance de Lajos Füry apresenta um modelo de cultura engessado nos mais preconceituosos clichês e estereótipos. O autor põe em confronto o modelo cultural brasileiro (tal como ele poderá ser passivamente assimilado pelo leitor incauto) e o modelo europeu, civilizado e desenvolvido. Os aspetos do Brasil que Lajos apresenta positivamente são exatamente aqueles que mais se assemelham ao padrão europeu e norte-americano, de uma sociedade capitalista, branca e livre das influências afro-ameríndias.

Assim, o autor serve-se da literatura para desenvolver, sob pretexto poético, toda uma série de argumentos a favor da supremacia do modelo norte-americano, modelo triunfante e inquestionado ao longo de mais de uma década, desde a famosa Queda do Muro de Berlim até o tristemente célebre 11 de setembro. O país apresentado no romance é totalmente fictício, serve apenas para localizar espacialmente esquemas e mecanismos ideológicos previamente concebidos. Ao detrimento do povo brasileiro e do conhecimento sobre o Brasil por parte dos húngaros, resulta desse embate ideológico extraliterário uma imagem literária disforme e preconceituosa do extenso e multifacetado país sul-americano.

 

Bibliografia:

 

FürY, Lajos 1995. Eső a Mato Grossón (’Chuva no Mato Grosso’). Budapeste, Magyar Világ.

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