O Brasil e a Hungria ao transcorrer dos séculos: escambos materiais, espirituais e culturais (Quarta Parte)

por Pál Ferenc

Quarta parte – Migração e intermediadores após o Tratado de Trianon

Foi no período compreendido entre a Primeira e a Segunda Grandes Guerras que o Brasil tornou-se, a nosso ver, um país menos inusitado e longínquo no imaginário da população húngara. Isso se deve, em primeiro lugar, ao fato de a Hungria e o Brasil terem usufruído de contatos e escambos culturais regulares e espontâneos, por intermédio de emigrantes e de entidades que colaboravam no trabalho de acompanhamento desses intermediadores culturais. Para a formação do ambiente favorável a tais trocas e permutas, Lajos Boglár exerceu um papel importante no período em que dirigiu o Consulado Real da Hungria em São Paulo, entre 1928 e 1942. Seu livro, Magyar Világ Brazíliában (‘Vida húngara no Brasil’), resume os acontecimentos do período que vai do final do século XIX até 1942, e mostra aos húngaros esse Brasil que pode lhes parecer familiar, em vilarejos com nomes como Boldogasszonyfalva, Szentistvánkirályfalva ou Árpádfalva, fundados nos anos subseqüentes a 1930 (e posteriormente rebatizados com nomes locais), ou na intensa atividade dos emigrantes húngaros em solo brasileiro.

Esse livro de Lajos Boglár também nos ajuda a avaliar a imagem dos húngaros no Brasil. Informa-nos de que padres jesuítas, como Dávid Fáy, Szent-Mártonyi e Zakarjás (sic!), além de descrever com rigor científico as novas terras, participaram também no trabalho missionário realizado no território do Brasil. Depois do estabelecimento das relações diplomáticas, o imperador brasileiro convidou naturalistas, cientistas e militares húngaros. Estes últimos, na função de instrutores de unidades militares e de artilharia, desempenharam um papel importante no desenvolvimento do exército brasileiro. Entre outros, menciona-se o caso do engenheiro Majlaszky (conhecido no Brasil como Visconde de Sapucaí) que depois da Guerra pela Liberdade Húngara (1848-1849) emigrou como desterrado para o Brasil, onde mais tarde, nos anos de 1860, participa ativamente da construção da Estrada de Ferro Sorocobana. Em reconhecimento pela sua atividade, o Imperador outorgou-lhe o título de Visconde e uma estação ferroviária recebeu o seu nome. Dessa forma, segundo Boglár, orgulhavam-se de suas origens húngaras várias personalidades do período entre-guerras, como o general Vitor Rozsányi, secretário de estado da agricultura, ou Pedro Popini Mascarenhas, prefeito da cidade São José dos Campos[1].

A partir de 1920 o Brasil perde parcialmente a carga de exotismo que trazia nos relatos do século XIX e transforma-se, nos livros e artigos de jornais, num lugar de trabalho árduo e de vida cotidiana muito parecida com a vida que se levava na Hungria. Já quase não há lugar para as aventuras desmedidas em ambiente exótico: é de notar que naqueles anos – em que se deu um largo espaço às histórias de legionários e de cowboys nos livros e filmes publicados na Hungria – aparecem poucos livros que satisfizessem o gosto do público pelo desmedidamente exótico, e esses poucos são de autores estrangeiros[2].

Nesse espírito alheio ao exotismo, além dos numerosos artigos na imprensa, vieram à luz quase vinte obras de autores húngaros. Uma parte dessas obras pertence, em princípio, ao gênero da literatura de viagem, porém essas obras reúnem experiências realizadas durante uma permanência mais demorada e são marcadamente subjetivas no sentido de que os autores exploram e perquirem suas próprias peripécias humanas na vida cotidiana. Esse modo de reviver a realidade brasileira encontra-se em obras como A brazíliai aranyhegyek árnyékában (‘Sob a sombra das montanhas de ouro brasileira’. Békéscsaba, 1926), de Dezső Migend, Dél-Keresztje alatt (‘Sob o Cruzeiro do Sul’. Budapeste, 1934), de Béla Bangha, Felhőkarcolók, őserdők, hazátlanok (‘Arranha-céus, selvas, apátridas’. Budapeste, 1935) de Zoltán Nyisztor, ou Tizenöt év Brazíliában (‘Quinze anos no Brasil’. Arad, 1936), de Lajos Wild.

Pareceria até haver, entre os dois países daqueles anos, um acordo tácito para que não se permitissem mistificações. O governo húngaro no intuito de culturalmente vincular os emigrados a seu país de origem, neles mantendo vivo o sentimento nacional, organiza o programa de professorado denominado “Julián”, cujos colaboradores irão trabalhar como professores de emigrados e seus descendentes, em escolas no Brasil. Por curioso que pareça, o Brasil, nesse sentido, com seus mais de 100 mil imigrantes húngaros, é quase entrevisto como um território magiar além das fronteiras talhadas pelo Tratado de Trianon. Aumenta, portanto, o número das pessoas que vão e vêm entre a Hungria e o Brasil, e eles trazem muitas informações informais que deixam seu impacto na opinião pública húngara. Além da imagem do Brasil real, nesses anos parece formar-se a imagem de um outro Brasil: observada do ângulo de vista dos emigrados húngaros e limitada em certa medida ao âmbito pessoal dos imigrantes húngaros. Um outro livro de Dezső Migend, Magyarok Brazíliában (‘Húngaros no Brasil’. Békéscsaba, 1925), ao lado de A brazíliai magyarság évkönyve (‘O Almanaque dos Húngaros no Brasil’. São Paulo, 1934) e do livro São Paulo földrajza, különös tekintettel a magyarságra (‘A Geografia de São Paulo, com especial atenção aos húngaros’. São Paulo, 1934) são obras que servem aos interesses dos imigrantes húngaros que, apesar de se tornarem cidadãos brasileiros, pretendam conservar seu sentimento nacional original.

É interessante mencionar, como um importante momento desse período, a publicação do primeiro manual de português para húngaros. Trata-se do Magyar-portugál társalgó és nyelvtani alapelemek (‘Manual de conversação húngaro-português e fundamentos gramaticais’), de autoria de Albertné Varga e Albert Varga, publicado em São Paulo, em 1936.

É um fenômeno singular desse período que o Brasil e diferentes aspectos da vida brasileira sirvam de tema literário para certos escritores, tal como Zsigmond Remenyik (1900-1962), que recordou suas experiências na América do Sul dos anos de 1920 e reelaborou suas aventuras nos livros Vész és Kaland (‘Perigo e Aventura’, 1940) e Vándorlások könyve (‘Livro de peregrinações’, 1956).

Foi o Brasil que tornou escritor ao naturalista Gábor Molnár (1908-1980), que em 1930 viajou à selva amazônica, chefiando uma expedição organizada pelo Museu Nacional Húngaro. Seus dois colegas caíram doentes, porém ele prosseguiu seu trabalho; quando já lhe faltava dinheiro, subsistiu vendendo cobras venenosas e peles de animais, ou trabalhando nas plantações da Ford. Em 1932, perdeu a vista num acidente, regressou à Hungria e resolveu escrever suas experiências. Seu primeiro artigo sobre as aventuras vividas no Brasil foi publicado em 1933 no Pesti Hírlap e seu primeiro livro intitulado Kalandok a brazíliai őserdőben (‘Aventuras na selva brasileira’) saiu em 1940 (esse livro teve 4 reedições com uma tiragem de mais de 80 mil exemplares). Nos primeiros livros ele nada faz senão relatar o que tinha passado e visto naqueles dois anos em que vivera no Brasil, sempre num estilo vivo e vigoroso. Mas com o tempo essas experiências colhidas da realidade se relegam ao segundo plano. Nesse ambiente brasileiro de pequenas povoações à beira do rio e dentro da selva amazônica, o autor tece interessantes histórias nas quais o real o e fictício dão um interessante amálgama. Hoje considerado como um ficcionista para a juventude, Gábor Molnár apresenta a visão de um Brasil ao mesmo tempo vivido e sonhado, que em seus leitores adolescentes torna-se um terreno tão íntimo e intimista quanto a paisagem dos romances de James Fenimore Cooper ou de Karl May – e o autor do presente estudo pode dizê-lo por experiência própria, tendo sido ele também um fervoroso leitor dos romances de Gábor Molnár.

Outros três escritores desse período publicaram obras de ficção relacionadas a temas e ambientes brasileiros. Tibor Magyar, um escritor hoje já desconhecido, publicou em 1940, em Budapeste, seu romance A brazíliai fenevad (‘A fera brasileira’), enquanto as Missões Mundiais Franciscanas deram a lume em 1942, em Budapeste, um livro de contos de Mihály Witte reunidos com o título Villanó fények az őserdő mélyén (‘Luzes cintilantes no fundo da selva’). Por outro lado, em 1944 saiu em Budapeste, pela editora Nemzeti Figyelő, o romance Brazíliai nagybácsi (‘Tio brasileiro’), de um tal László György. Os três são mestres menores, contudo o fato de escolherem temas relacionados ao Brasil mostra a benevolente recepção desta temática por parte do público leitor húngaro.

Não podemos deixar de mencionar que o Brasil ocupava um lugar eminente nas folhas da revista literária Nyugat, que entre 1909 e 1941 foi o foro mais importante da divulgação das letras nacionais e estrangeiras e uma constante referência dos intelectuais húngaros.

A partir de 1939 a imagem do Brasil ressurge em outro contexto, pois aparece novamente uma grave ameaça que, como o perigo turco dos tempos de Miklós Zrínyi, obriga muitas pessoas a abandonarem a pátria. Não é por acaso que entre 1941 e 1947 o livro de Stefan Zweig, intitulado Brazília a jövő országa (‘O Brasil, país do futuro’), foi editado quatro vezes. O Brasil, tal como a América Latina, aparece como uma “terra prometida” para os que sofrem das perseguições daqueles anos. Assim, publicam-se livros que versam sobre as possibilidades de sobreviver na América do Sul e tratam da vida dos húngaros que aí já estão – como o livro de Antal Vér e Elemér Miklós, intitulado Magyarok Dél-Amerikában (‘Húngaros na América do Sul’. Budapeste, 1942), ou o de Tivadar Ács, Magyarok Latin-Amerikában (‘Húngaros na América Latina’. Budapeste,  1944). Também aparecem livros que propagam, narram ou analisam a nova emigração, como o de Imre Békessy, Az új népvándorlás. Délamerika (‘A nova migração de Povos. América Latina’. Budapeste, 1939), o de Endre Sós, intitulado Emberdömping. Az eviáni konferencia és a zsidó kivándorlás világproblémája (‘Massa de gente. A conferência de Evião e o problema mundial da emigração judia’. Budapeste, 1939), assim como o de Tivadar Ács, Akik elvándoroltak (‘Os que emigraram’. Budapeste, 1940).

A emigração tornou-se, também na Hungria, uma necessidade e uma realidade não apenas nos anos da Segunda Grande Guerra, mas também no período de pós-guerra: no lustro que vai de 1945 a 1950, o Brasil continuou a ser um dos destinos privilegiados. Mas os novos emigrantes já não partiam para o Brasil “ao Deus dará”, sabiam o que os esperava e queriam preparar-se para uma integração rápida no novo ambiente social. Correspondendo a essa demanda, saíram vários manuais importantes nesses anos, como o Brazil-portugál-magyar nyelvkönyv és szótár (‘Manual e dicionário brasileiro-português-húngaro’. Békefiné, 1947), de autoria de Magda Kacsóh; o Brazíliai portugál nyelvkönyv. Magántanulók és tanfolyamok számára (‘O manual da língua portuguesa do Brasil. Para aprender sozinho e em grupo’), de Ferenc Kordás; e, no mesmo ano, o Magyar-portugál szótár. Nyelvtan, beszélgetések (‘Dicionário húngaro-português. Gramática e conversações’. Budapest, 1948), de Gábor Molnár, com um apêndice intitulado “a vida brasileira de hoje”. Em São Paulo publicou-se o Gyakorlati portugál nyelvkönyv (‘Manual prático de português’. A 3.a edição data de 1951) de Frigyes Patka.

[1] Boglár 1996: 17-18.

[2] Queremos mencionar apenas dois desses livros: Hans Heuer. Brazíliai kaland (‘Aventura no Brasil’). Budapeste, Tolnai, 1937. Franz Aicchorn Anders. A zöld pokolban (‘No inferno verde’). Budapest, Stádium, 1940.

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