Navegação no Lago Tanganyika

por Luís Serpa

Dois ou três meses depois de chegar a Bujumbura consegui ter os domingos livres, ou pelo menos parte deles. Fiz-me sócio do Cercle Nautique de Bujumbura e passei assim a poder usufruir das instalações do clube.

Para além da beleza da paisagem, a principal particularidade da navegação no Lago Tanganyika consiste na abundância de hipopótamos e crocodilos. Estes, aliás, cresceram naquele ano um metro em média e passaram assim a ser os maiores do mundo (antes eram os segundos, sendo os do Nilo os maiores. Pelo menos assim dizia a voz corrente, que como se sabe é dada a enganos).

Os crocodilos são animais repelentes. Por vezes ia vê-los, refastelados no rio Ruizizi; durante três meses dezenas e dezenas de milhares de corpos humanos, alguns provavelmente ainda meio vivos, tinham passado por ali. Por vezes, no princípio, ainda via um ou dois, mas depois acabaram de vez.

Quando olhava para aqueles animais, com uma membrana nos olhos que torna o olhar completamente inexpressivo, imóveis – mas capazes de movimentos de uma rapidez fulgurante, isso sabia-o desde Quelimane; até saltos dão – pensava que pouco tempo antes eles tinham tido mais comida do que aquela que conseguiam comer e ficava nauseado.

Porém, muito mais perigosos que os crocodilos são os hipopótamos. São, de resto os animais que mais mortes provocam em África. Correm a uma velocidade inesperada: muitas vezes estão debaixo de água, perto da superfície mas já invisíveis e os barcos a motor passam-lhes por cima. Por isso detestam os barcos, todos, atacam-nos ferozmente, sejam a motor, à vela, a remos – até uma prancha de windsurf eu vi com marcas de uma dentada. Falei com o homem que lá ia: safou-se porque estava perto da terra e veio a nado. A prancha apareceu depois, sozinha. Disse-me que tinha sido o maior susto da sua vida, o que no Burundi daquela altura quer dizer muito. Um dia, no Clube, vi um hipopótamo dar uma dentada na árvore de um motor fora de borda – a trabalhar. Isto é, o motor estava a trabalhar e o bicho deu-lhe uma dentada que o cortou em dois. Deve ter perdido a língua, os dentes, com os quais os nativos fazem objectos muito bonitos se bem que um pouco imperfeitos, e deve ter ganho ainda mais raiva aos motores e aos barcos em geral.

Por isso, no Cercle Nautique de Bujumbura havia um “polícia sinaleiro” para hipopótamos. Parece esquisito, eu sei, mas são animais que vivem em clãs, de quinze a vinte indivíduos. Se se souber quantos animais compõem o clã basta contá-los e apurar se estão todos lá ou se anda algum a passear. A saída para o lago parecia uma largada das vinte e quatro horas de Le Mans, mas de barco: estávamos todos de olhos postos no “sinaleiro”. Assim que ele nos dava ordem empurrávamos os barcos para a água e tentávamos sair dali o mais depressa possível. Raros eram os barcos no Cercle Nautique de Bujumbura que não tinham marcas de dentadas.

Como os hipopótamos não conseguem andar a mais de oito metros de profundidade as instruções eram para irmos para o largo o mais depressa possível. A primeira embarcação na qual naveguei era uma vedeta da Embaixada dos Estados Unidos, que no-la emprestava para “surveys“. As nossas surveys ocorriam sistematicamente ao domingo e consistiam em ir fazer piqueniques a uma ilha próxima (não era uma ilha, era uma península, mas todos lhe chamavam “a ilha”, não sei porquê). Só quatro meses depois da minha chegada comecei a ter sábados livres, sábados inteiros, mas aí já a Embaixada resolvera deixar de emprestar o barco.

Esses passeios eram organizados pelo presidente do Clube, um belga um pouco calado que eu admirava pela calma e pela disponibilidade, raras naquela gente. Nunca tomava banho ali, porque não gostava da cor da água; mas um dia, depois de comer, aproximei-me da borda para ir lavar as mãos e ouvi um grito: “Sai daí, já”. Era ele, com uma violência muito pouco habitual. Depois explicaram-me que tinha perdido um filho naquele exacto lugar, comido por um crocodilo: o miúdo brincava com a irmã às cavalitas, esta ainda viu o bicho chegar e gritou. Mas não foi a tempo. O pai teve que a puxar porque ela ficou ali parada, em choque, a ver o irmão desaparecer. Nunca consegui perceber porque é que continuava a organizar os passeios. Estava sozinho: a mulher divorciara-se e regressara à Bélgica com a filha.

Um dia, nessa península – mas não durante um desses passeios – tive que correr a empurrar o barco para fugir de um hipopótamo. Felizmente consegui pôr o motor a trabalhar. Correm francamente depressa, a 30 ou 40 km por hora. Ia buscar um colega que tinha vindo de carro à praia porque trazia a comida e as bebidas. Quando o hipopótamo viu que não me apanhava, começou a correr atrás do outro, era muito cómico porque ele não queria largar os Colmans, um em cada mão e corria a quanta velocidade podia. Eu ria-me como ele se tinha rido de mim quando estava a empurrar o barco, de mim que tinha levantado o motor para poder ir buscá-lo mais perto da praia, apesar dos crocodilos. Mas lá consegui encontrar um canal e com o hélice a bater em tudo quanto era sítio consegui apanhá-lo e fugimos a tempo.

O Lago Tanganyka é o sítio mais bonito onde já naveguei. No lado zairense (agora congolês) as montanhas caem a pique de altitudes de dois mil e quinhentos ou três mil metros. Na época da chuva as nuvens atravessam aqueles inúmeros vales e desfiladeiros e deixam farrapos de nuvens, como se Deus tivesse querido sanar aquelas feridas todas, lá tivesse passado um bocado de algodão e as montanhas lhes ficassem com os restos. Claro que Ele não andava por ali, devia estar ocupado noutro sítio. Mas era o que parecia.

Uma vez fomos em exploração ao Congo porque queríamos encontrar espaço para mais campos, não sabendo se iam chegar mais refugiados. O Burundi estava à beira de explosão. Combinámos com os nossos colegas do outro lado um encontro em Kazyma, que é uma aldeia perdida no meio da selva, parecia um cenário para o Apocalypse Now. Para lá chegarmos passámos pela Península de Burton e fiquei para sempre agarrado àquela visão, àquela terra sem uma árvore, a pique sobre o lago de um azul como nem em muitos mares se vê. De vez em quando um carreiro partia da beira do lago e ziguezagueava por ali acima. Invariavelmente havia por perto um riacho e uma palhota. Eu pensava que estava a ver exactamente a mesma coisa que o Livingstone (ou neste caso o Burton, que deu o nome ao sítio) tinha visto: aquela palhota já ali estava há cem anos, de certeza, e pertencia ao pai ou ao avô da família que agora a ocupava. Não havia um centímetro quadrado de alcatrão, nem de cimento, nem de nada que não tivesse sido trazido a pé de não muito longe.

O lado sul da Península muda radicalmente: é a floresta equatorial em toda a sua pujança. Se tivesse mudado de planeta a diferença não seria maior. Mais tarde, quando ia fazer as distribuições para o Sul, via a Península de Burton, imponente, de uma aridez que me fazia perguntar se quem lá morava já tinha alguma vez tocado qualquer coisa verde ou se só conhecia a cor por vê-la do outro lado do lago. Pensei muitas vezes que se morresse no Burundi era lá que queria que as minhas cinzas fossem espalhadas. O sítio era belo e eu ainda não sabia que tenho raízes.

Fragmento do livro Avenida da Liberdade nº1 de Luís Serpa

 

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