Natural Feelings: “Deus dá o pão mas não amassa a farinha!”

por Dina Cardoso

Vale de Ílhavo tem centenas de anos de história na vertente do cultivo de cereal, da moagem do produto e claro das muitas padeiras da freguesia. Em entrevista à nova geração proprietária das Moagens Carlos Valente, conhecemos o passado e o futuro deste processo artesanal.

“Temos documentos que datam de 1810, e, desde essa altura, que se faz farinha e existe a Moagens Carlos Valente. Somos a quinta geração da família a estar à frente da moagem e a moer farinha de forma artesanal, em mó de pedra, aqui em Vale de Ílhavo”, facilmente Helena Resende, neta de Carlos Valente atesta a historicidade da empresa da qual é proprietária, em conjunto, com as irmãs, Ana Maria, Maria Isabel e o marido Mário Nunes, desde 14 de setembro de 2015.

Devido à idade do avô, a moagem esteve encerrada quatro anos, e o casal formado em gestão hoteleira encontrou-se numa encruzilhada, até que, “na época da crise tivemos de tomar uma decisão, ou emigrávamos e perdíamos qualidade de vida, ou pegávamos na nossa veia empreendedora e reinaugurávamos esta empresa histórica de Ílhavo”, refere Mário Nunes.

Nos primeiros momentos, foi com a ajuda do avô Carlos Valente, que apesar da idade, ajudou os jovens, passando-lhes toda a informação e técnica necessária ao funcionamento das máquinas e das mós de pedra. “Desde pequena, sempre vim para a moagem ajudar. No entanto, todo o processo, passo a passo, só conheci totalmente quando decidimos pegar no negócio. O meu avô, já com alguma dificuldade, conseguiu ensinar-nos a pôr as máquinas e as engrenagens a funcionar, como devemos picar as mós e a parte sensorial de sentir a farinha. Começar do zero foi difícil, mas tivemos um ótimo mestre”, admite Helena Resende. O avô Carlos faleceu 15 dias antes da nova geração abrir plenamente a moagem, “embora não lhe tivéssemos dado o prazer de ver a empresa a funcionar, ele soube que demos seguimento e ficou certamente feliz”, refere o casal.

Como antigamente

Por ter estado encerrada durante vários anos, nos primeiros tempos, Helena, Ana e Mário lutaram para chegar novamente aos comerciantes. “Tivemos de reconquistar a carteira de clientes e primeiramente seguimos o modelo de negócio antigo, em que abastecemos as padarias e pastelarias da região de Aveiro”, explica o agora moleiro Mário.

Todas as farinhas que saem da empresa são “artesanais, como eram feitas antigamente. O cereal moído em mó de pedra não aquece, não perdendo as propriedades organoléticas do cereal, mantendo o sabor tradicional com que se faz o pão rústico. Temos toda a essência de preservar e incentivar a economia e produção local. O nosso objetivo é incentivar os pequenos agricultores locais a preservar as sementes antigas, dos seus avós, que são cultivadas de forma orgânica. Tentamos comprar o cereal nas áreas mais próximas, e posteriormente, no resto do país. Infelizmente, deixou de se produzir em Portugal tanto cereal como antigamente e, quando falta, compramos na Europa. Garantimos sempre que não sejam geneticamente modificados, com recurso a análises e fichas técnicas”, explica o proprietário.

“Kilinhos” e novos mercados

Apesar de manterem como core business, o fornecimento de farinhas para padarias e pastelarias, desde a reabertura da empresa, em 2015, que o objetivo passava por criar uma marca própria de farinhas. “Sabíamos que o modelo de negócio antigo ia funcionar, em termos comerciais, mas começámos desde o início a trabalhar na nossa imagem e compreendemos que o mercado tinha uma lacuna neste tipo de produto. Criámos os “Kilinhos”, um novo produto direcionado a clientes que valorizam as farinhas artesanais. Estão presentes em lojas gourmet, mercearias de bairro, e em prateleiras selecionadas e podem ser usados para fazer pão, bolos ou massas”, referem.

“Deus dá o pão mas não amassa a farinha!”

Das farinhas que comercializam, têm as mais tradicionais, de milho branco e milho amarelo, de centeio peneirada e integral, de trigo peneirada, com sêmea e integral. Introduziram a farinha de aveia integral e peneirada e a cevada integral, e recentemente, desenvolveram e comercializam dois tipos de farinha que caraterizam Aveiro. A primeira com salicórnia, uma farinha de trigo onde adicionam uma planta que cresce à beira da ria e assim a farinha não requer adição de sal e a segunda, também com o mesmo objetivo, uma farinha com toque de mar, à qual adicionam a alga alface-do-mar. “Fizemos parcerias com empresas de Aveiro e estamos a desenvolver uma marca com adição de algas, com diferentes características nutricionais”.

Os produtos da Moagem Carlos Valente estão também disponíveis para compra direta no website e redes sociais da marca. O futuro deste casal e da Moagem Carlos Valente, passa por impulsionar a marca e trabalhar constantemente na valorização do produto artesanal, assim como investir na criação de experiências para o público.

 

Fonte:  https://naturalfeelings.pt/

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