Não há mar em Budapeste? Inaceitável.

por Joel Lopes Egas

“Ó mar salgado quanto do teu sal / são lágrimas de Portugal” escreveu, Pessoa, no livro Mensagem. Ora, eu suspeito que o rio Danúbio começa a ficar um pouco salgado, devido às lágrimas copiosas de uma pequena parte da nossa muito honrosa comunidade portuguesa. Bem sabemos, que as lamúrias e o constante queixume existencial são traços irrevogáveis da nossa identidade, mas há uma pequena percentagem de portugueses que o faz de forma pedante e sem criatividade. Indignam-se porque há mais bolos flódni que pastéis de nata; vinhos de Éger em vez de vinhos do Alentejo; ah! E quase me esquecia – “como se atrevem estes húngaros, a não venderem bacalhau demolhado e batata frita palha no CBA e SPAR”. E claro, “eu não gosto dos húngaros, eles são fechados e frios ao contrário de nós, portugueses”, diz o Jacinto Manuel da esquina, ele que é a personificação do amor e abertura a povos e culturas diferentes.

Confesso que nutro também particular predileção por aqueles portugueses, que não vivendo em Portugal há mais de uma década, criam na sua mente uma imagem fantasiosa e distorcida da realidade do país. Julgam que Portugal é um paraíso na terra. Não é. Esquecem-se de maneira freudiana que esse paraíso na terra os obrigou a emigrar para sítios mais distantes. Esse paraíso chamado Portugal é ironicamente um dos países com o maior número de emigrantes per capita, atualmente com um custo de vida desolador, face aos rendimentos médios.

Longe de mim dizer que a Hungria é um país perfeito, mas porquê, portugueses, esta relutância em alguns de nós, de conhecer um pouco mais do país e da cultura dos magiares (que nos acolheu) e de querer deixar uma marca positiva neste país, elevando o bom nome da nossa comunidade portuguesa, como fizeram na sua altura Sampaio Garrido e Branquinho da Teixeira. Para quem não sabe, estes dois diplomatas ajudaram inúmeros judeus húngaros a fugirem das garras do genocídio, na Segunda Guerra Mundial. Numa visita à esbelta Sinagoga da Dohány utca, corei de orgulho quando vi os nomes destes bons compatriotas no memorial ao holocausto. Podemos contribuir. Podemos ajudar. E devemos conhecer. Em vez de ler só Eça, experimentem também Szerb Antal ou József Attila; em vez dos pauliteiros de Miranda e o Fado, experimentem também as csárdás e as opperetes; experimentem a catedral de Szeged, as universidades de Debrecen, as termas de Miskolc ou o castelo de Veszprém. Provem lángos, hálászle, gulyás, csigánypecsenye e pálinka; e porque não aprender também umas palavras deste idioma tão ímpar.

Tal como os húngaros não são todos iguais, os portugueses também não. Felizmente, a maior parte desta nossa comunidade participa e contribui todos os dias para uma imagem exímia de Portugal e, consequentemente, da Hungria. Pessoas como o Joaquim Pimpão, o Arnaldo Rivotti ou o Jorge Roza de Oliveira que proactivamente esculpem estas pontes entre a lusofonia e a Hungria. Temos também gestores, advogados, professores, empresários, cozinheiros, contabilistas, telefonistas, analistas, treinadores e jogadores de futebol que nos inflamam o orgulho. Temos húngaros que amam Portugal e portugueses que amam a Hungria. Sem medo. Sem preconceito. São eles a verdadeira e estranha essência de se ser português.

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