Na Serra Sagrada do Minho

por Garry Craig Powell

Moramos a uns 25 quilómetros do Parque Nacional de Peneda-Gerês. No entanto, não é dessas serras que falo hoje. Muito mais perto fica a Serra d’Arga, uma serra quase desconhecida, mesmo no Minho – de facto, os amigos Minhotos do meu filho James, que são de Braga, ou nunca estiveram na serra, ou nem sequer ouviram falar. Para nós, isso tem vantagens: quer dizer que quando fazemos a viagen de meia hora (15 ou 16 quilómetros muito serpentinos) até a Arga de Cima, podemos ter a confiança que estaremos sozinhos, ou quase, na serra. Ontém subimos lá, e além de três ciclistas, alguns motociclistas, e um casal que ia caminhar nos trilhos, não vimos visitantes. O que vimos foram pastores, e muitas ovelhas, muitas galinhas – que têm a liberdade de vaguear onde querem, e um pónei Shetland, que tentou morder a mão da minha mulher (são fofos, sim senhor, mas aqueles póneis não têm boas maneiras), e uma vaca enorme com cornos como um toiro, que levantou-se do chão, onde descansava, para nos fitar com um olhar suspeitoso, que assustou a minha mulher até o ponto de ela não querer passar pela bovina. Mas eu mostrei-lhe um muro de pedra baixo que podiamos saltar, se a vaca decidisse dar-nos uma cornada, e assim proseguimos o nosso caminho, sem problema. Era uma manhã de nevoeiro, e a serra parecia estar em Escócia ou Irlanda, ou melhor ainda na terra mítica do nosso Rei Artur, Avalon.

Depois de passar a semana no vale do rio Lima, estar na serra é sempre um alívio. Parece que é só na montanha que sinto-me verdadeiramente livre, um homem natural. Não sei porque sinto tanto afinidade pela serra, mas desde a primeira vez que subi a montanha Snowdon, no País de Gales, quando tinha sete anos, com a minha familia (subimos de comboio de vapor, e descimos a pé) sempre que estive no alto de uma serra, senti uma alegria, uma exhilaração, uma expansão do espirito. Será que os meus ancestres eram homens da serra, pastores talvez? Que eu saiba, não. Parece que eram quase todos camponeses, sim, mas do vale de Aylesbury, perto do rio Tamisa em Inglaterra, uma terra bucólica mas plana. No entanto, como o Zarathustra, gostaria de viver na montanha, afastado da mesquinhez dos homens do rebanho. Os meus vizinhos seriam o lobo, que vive lá ainda, e a raposa, o falcão, o mocho, e a águia. No mundo dos vales, das cidades, toda a gente tem medo, e segue os lideres, que também têm medo. A maior parte das pessoas nem quer a liberdade, porque pesa muito. Querem fazer o mesmo que os outros. Querem a segurança acima de tudo. São ovelhas e galinhas. Mas eu não quero ser citadino, e nunca serei. Sou homem da serra, da serra desconhecida e sagrada, e o meu irmão é o lobo solitário. Quem tem medo dele e de mim? As ovelhas e as galinhas.

© Copyright Garry Craig Powell, 2021

Crédito da imagem: Dayana Galindo

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