Moçambique filma um dos últimos redutos de tubarões e raias no planeta

por LMn | Lusa

O sol acabou de nascer e vários golfinhos acompanham o barco: fazem escolta à expedição que cedo se faz ao mar na Ponta do Ouro, Moçambique, com três investigadores marinhos, carregados de equipamento.

Mas esta expedição nem é dedicada a golfinhos, que saltam e mergulham como um bónus antes do filme principal, aquele que hoje vai ser gravado debaixo do mar.

Há um mundo escondido sob as ondas ao qual a humanidade está interligada.

Que tubarões e raias habitam neste mundo subaquático? – é a pergunta a que Jorge, Stela e Delson querem responder com várias câmaras, para avaliar a saúde de um dos últimos redutos do planeta onde aquelas espécies ameaçadas ainda conseguem prosperar e que por isso importa preservar.

De pé, no meio do barco e de braços abertos, eles pegam nas estruturas metálicas, esqueletos retangulares com duas câmaras de vídeo (uma em cada ponta) que são lançadas à água com uma corda até 20 metros de profundidade, a alguns quilómetros da costa.

Sinalizadas com uma boia, vão filmar 60 minutos da vida no fundo do sudoeste do oceano Índico, uma zona da Terra onde há 225 espécies de tubarões e raias, sendo que pelo menos 36% está ameaçada por pesca excessiva, desenvolvimento costeiro, perda de habitat e mudanças climáticas.

A equipa lança quatro estruturas em quatro pontos diferentes (oito câmaras em ação) delimitando a primeira área de filmagens do dia, cada estrutura com um ‘isco’, uma bolsa com pedaços de carapau fresco numa haste para atrair a vizinhança para a frente das câmaras.

É por isso que esta técnica é designada no ramo pela sigla inglesa BRUV: ‘baited remote underwater video’, ou seja, vídeo subaquático à distância com isco.

Jorge Sitoe, 35 anos, e Delson Vutane, 27, são assistentes de um programa da Wildlife Conservation Society (WCS), parceira do Governo de Moçambique em várias iniciativas, entre as quais esta ação de monitorização de tubarões e raias desde 2018.

É preciso identificar que tipo de tubarão ou raia está presente (ou ausente) e acompanhar a sua população, saber se prosperam ou se estão em declínio e porquê – por exemplo, avaliando se é preciso prevenir poluição ou controlar pescas, seus utensílios e sazonalidade para nunca acontecer em época de reprodução.

Há o caso dos tubarões-martelo que têm um crescimento lento, maturidade tardia e baixa capacidade reprodutiva: as fêmeas grávidas e elementos juvenis são frequentemente capturados em Moçambique, tanto como alvo do comércio internacional de barbatanas ou como dano colateral na pesca de atum ou outras espécies.

É um problema, porque todos os tubarões são uma espécie-chave que mantém os ‘stocks’ de peixe, explica Stela Fernando, 38 anos, investigadora do Instituto Oceanográfico Moçambicano.

São “predadores de topo”, aos quais só escapam os elementos mais saudáveis, tornando assim mais forte a “diversidade e abundância de espécies num ecossistema” e que a humanidade usa como alimento ou como recurso turístico, por exemplo.

Se a população de alguma espécie muda, há desequilíbrios no ecossistema e esses recursos ficam em risco, como parece já estar a acontecer na costa norte do país e noutros mais acima (como Tanzânia e Quénia).

“Queremos proteger a biodiversidade, porque tem um papel não só para os ecossistemas, mas também para nós, como seres humanos: é um ganho para todos”, descreve Stela.

Em Moçambique, há tubarões e raias capturados para exportação, outros são atração de mergulhadores oriundos de diferentes partes do mundo e outros ainda estão protegidos, dada a raridade a nível planetário.

Mas para essa gestão acontecer, é preciso saber onde a fazer e identificá-los.

Jorge recorda que “antigamente havia apenas uma espécie protegida” no país, o tubarão-branco, mas agora “há 14 espécies de tubarões e raias protegidas em Moçambique, um número considerável”, considera.

Diz ser fruto do “trabalho contínuo” que surge “por causa destas pesquisas com o Governo”, investigações no mar que servem para “dar suporte às melhores decisões de gestão de biodiversidade”.

O trabalho destas equipas continua em terra, por exemplo, ao acompanhar a chegada de pescadores, divulgando novas leis e ajudando-os a identificar o que trazem nas redes, protegendo as espécies que devem voltar à água para manter o equilíbrio do mundo subaquático – sem o qual nem os próprios pescadores terão futuro.

Ao fim de uma hora, Jorge e Delson dão ao braço: puxam as cordas e as câmaras são içadas, o material verificado e a bolsa do isco reabastecida.

“Uma vez, uma garoupa muito grande levou o isco todo”, lembra Jorge.

“Sim, uma garoupa, não foi um tubarão”, que até pode ter fama de ser violento, mas a verdade é que não há registo de incidentes desde 2016 em Moçambique, refere, fazendo jus à frase num dos ‘posters’ conjuntos do Governo e WCS: “Os tubarões precisam da nossa ajuda”.

Ao lado, Stela regista os números dos cartões de memória que correspondem a cada local, antes de os fechar numa caixa impermeável.

O barco avança para outra paragem onde serão filmados mais 60 minutos de vida subaquática, sendo que a equipa vai fazer percorrer 12 quilómetros de costa, num total de seis paragens.

E no fim do dia há muitas imagens para ver, perceber onde estão os recantos, que espécies estão ausentes ou presentes, que quantidades de cada espécie e qual o tamanho de cada animal.

Jorge dá uma vista de olhos preliminar, depois as imagens são enviadas para a África do Sul para análise com uma aplicação informática que sincroniza os filmes das diferentes câmaras e ajuda a identificar os animais.

Mais para o fim do dia, a equipa moçambicana prepara-se para regressar a terra, num país que tem o oceano Índico como principal companheiro – são 2.700 quilómetros de costa -, capaz de seduzir jovens como Delson para um futuro profissional.

“Tudo começa na escola”, realça, num caminho que como o dele inclui “universidades que também há em Moçambique”, complementando uma paixão.

Trabalho de pesquisa como o que está a desenvolver no mar requer “paciência e muito controle” para haver a certeza de que “não se está a danificar nada lá em baixo”, pois já basta o impacto do homem cá por cima.

“Inspirar a mudança” é palavra de ordem para a WCS, diz Hugo Costa, diretor do programa marinho em Moçambique: o aumento da lista de espécies protegidas já é uma face visível e mais resultados virão, através de planos e estratégias a orientar ações no terreno.

Por exemplo, em breve arranca formação das autoridades para identificarem partes de tubarão e raia (como barbatanas, altamente cobiçadas nos mercados asiáticos) e assim poderem detetar redes de tráfico ilegal e intervir.

“Conciliar o desenvolvimento económico com a biodiversidade” é o princípio que orienta os memorandos da WCS com o Governo moçambicano.

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