Mirandês em situação “muito crítica” devido ao abandono das entidades públicas

por LMn | Lusa
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A língua mirandesa está numa situação” muito crítica” devido ao abandono desta forma de falar por parte de entidades públicas e privadas, conclui um estudo elaborado pela Universidade de Vigo (UVigo), em Espanha.

Iniciado em 2020, o estudo estimou em cerca de 3.500 o número de pessoas que conhecem a língua, com cerca de 1.500 a usá-la regularmente, identificando uma rotura com este idioma, sobretudo nas gerações mais novas, através de uma “forte portugalização linguística”, assente em particular na profusão dos meios de comunicação nas últimas décadas, e na identificação do mirandês com ruralidade e pobreza locais.

“A língua mirandesa está numa situação muito crítica, dado o abandono das intuições públicas e privadas. A utilização do mirandês teve uma quebra de 50% no que se refere ao número de falantes. A este ritmo, este idioma desaparece em menos de 20 anos”, disse à agência Lusa o investigador Xosé-Henrique Costas, professor catedrático da UVigo, que coordenou o estudo “Presente e Futuro da Língua Mirandesa”.

Este estudo tem por base 350 inquéritos feitos à população do concelho de Miranda do Douro, no distrito de Bragança, em março de 2020, por uma equipa de alunos da UVigo, designada por “Brigada da la Léngua” (Brigada da Língua).

Esta é também, e de acordo com o docente universitário, a primeira vez que uma universidade espanhola edita um trabalho de investigação escrito em mirandês, com versão em português destinada ao público e a investigadores que tenham dificuldades de compreensão da segunda língua oficial em Portugal.

Os responsáveis pelo estudo, apontam para a ratificação da Carta Europeia das Línguas Minoritárias e para a necessidade de uma nova Lei do Mirandês, atualizada de acordo com ações e medidas planificadas e orçamentadas em educação, justiça, administração local e regional, serviços públicos, meios de comunicação, atividades e equipamentos sociais, economia e intercâmbios transfronteiriços, como ponto de partida para que “a língua mirandesa ganhasse de novo vitalidade”, garante filólogo, especialista nas línguas portuguesa e galega.

Para os responsáveis pelo estudo “Usos, Atitudes i Cumpetencias Lhenguíticas de la Populacon Mirandesa”, as autoridades portuguesas “têm a obrigação de proteger e salvaguardar o mirandês para toda a humanidade, como protege e investe no lince ibérico ou nas florestas autóctones”.

“Este estudo pretende ser um retrato atual da vitalidade da língua mirandesa, dos seus usos, atitudes linguísticas e conhecimento dos habitantes da Terra de Miranda”, vincou o investigador.

As conclusões do estudo a que a Lusa teve acesso apontam que a rotura com este idioma transmontano se dá “sobretudo nos nascidos entre 1960-1980”, quando “se operou uma forte portugalização linguística”, através “da imprensa, rádio, TV, escola e administração pública”.

“Isso contribuiu para o seu desprestígio [da língua Mirandesa], e para a identificação do mirandês com a ruralidade, a pobreza e a ignorância. Houve nesta época uma terrível rutura da transmissão entre gerações”, frisou Xosé-Henrique Costas, à Lusa.

De acordo com o professor catedrático da UVigo, os falantes de mirandês andam por volta dos 3.500, embora apenas 1.500 o possam falar regularmente, no dia-a-dia.

“Mas o uso entre menores de 18 anos é só de 2%”, indicou o especialista, acrescentando que a língua “só é utilizada em ambientes familiares e vizinhos nas freguesias do Norte do concelho de Miranda do Douro”.

Para os investigadores da UVigo, as medidas concretas tomadas até agora a favor do mirandês, como o ensino opcional ou o uso bilingue da Câmara local e de outros serviços públicos e privados, “foram um placebo para manter viva esta secular forma de falar”.

“Um doente de cancro não pode ser tratado com aspirinas e orações uma vez ao ano. Há que diagnosticar bem, operar, medicar e avaliar no tempo a evolução da doença até ao coração. E tudo contra o relógio”, disse o investigador estabelecendo a gravidade da “doença” que afeta o mirandês.

Outra das conclusões aponta que a introdução optativa do estudo da língua mirandesa nas escolas do concelho, limitada a uma hora por semana, não tem livros de texto, materiais pedagógicos, nem vagas próprias de professorado especializado.

“Não se consegue deter a hemorragia nem recuperar novos falantes”, disse Costas num diagnóstico da situação atual, admitindo, porém, que é possível e urge “criar boas atitudes face à língua”, com menos preconceitos negativos” e estabelecer bons conhecimentos “como compreender, ler e escrever” o mirandês.

Mantendo-se a situação, “a este ritmo é possível que o mirandês morra antes [dos próximos] 30 anos”, conservando-se apenas como “um latim litúrgico para celebrações”, sem ser “língua para viver a diário”, indica o estudo que ainda não tem data para a sua apresentação oficial.

No trabalho de campo, o estudo do Departamento de Filologia da UVigo verificou que a população mais nova pede “condições para se sociabilizar em língua mirandesa”.

“Salvar o mirandês é uma questão de vontade política e de economia linguística”, concluiu a investigação.

Este trabalho contou com a colaboração da Associação de Língua e Cultura Mirandesa e do município de Miranda do Douro.

A língua mirandesa é uma língua oficial de Portugal desde 29 de janeiro de 1999, data em que foi publicada em Diário da República a lei que reconheceu oficialmente os direitos linguísticos da comunidade mirandesa.

FYP // MAG

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