Minutos de poesia – Kukorelly Endre (1951)

por Pál Ferenc

A maioria das suas obras são autobiográficas, mas ao mesmo tempo são universais porque são humanas. Faz muitas vezes o leitor rir e pensar ao iluminar o ridículo e a falta de sentido das situações quotidianas, rotineiras e simples da vida. Os temas biográficos que se repetem em várias das suas obras incluem: a infância: o quotidiano e a vida familiar. É também protagonista da história da sua infância: a sua vida quotidiana e familiar no terceiro andar de um bloco de apartamentos num distrito de Budapeste; treino de futebol; férias na casa de fim-de-semana da família; idade adulta: serviço militar; universidade; o seu (primeiro) emprego; experiências hospitalares; as experiências (diárias) de um homem do centro de Pest; viagens e férias no estrangeiro; mulheres e amor.

As suas frases são caracterizadas por um papel importante para os elementos da linguagem falada. A sua estrutura de frases e textos (como o seu tema) caracteriza-se pela normalidade, espontaneidade, sem adornos, concisão e fragmentação. O tom dos seus trabalhos é muitas vezes irónico, por vezes desiludido. O seu humor não se baseia apenas no assunto e na situação, mas também na forma como joga com as palavras. O processo de escrita, o pensamento do autor, associações e memórias são revelados à medida que ele se corrige dentro do texto.

ALGUMAS FORMAS DE MOVIMENTO

Néhány mozgásforma

A literatura pede trombas nada pequenas
Parece pois que tenho trombas para isso
ou pelo menos dou esse ar frequentemente
mesmo se entretanto me apago a cada passo
Que vão fazer então eles comigo
Porque me atiram para dentro e fora das portas
E para onde corremos em torno de mim
– e eis afinal para onde é que eu corro
quando só deambulava passeio fora
Ou porque estou sempre a fazer requerimentos
porque minto sempre que faço requerimentos
só minto meus caríssimos irmãos
além de que escrevo mal e porcamente
embora no fundo de forma agradável
Alveja-me sempre o guarda fronteiriço
Porque me alveja o guarda fronteiriço
Mas também a cobradora se aborrece
comigo e é severa a revisora
e não sei porque é que se agita lenta
ao lado do muro esta massa de gente
Compro a um deles uma caixa de música
a outro uma espingarda eléctrica
Mas não posso comprar isto e aquilo a todos
apesar de só neles depositar esperanças
aqui onde assim deambulo passeio fora
e sem que já me caia o cabelo desde
que é oleado

AUTOCARRO

Buszvezetés

A intenção do motorista quando guia o autocarro
Esta preocupação da gente em subir para o autocarro
O condutor que tenta dobrar um autocarro
Ofega a porta de trás do autocarro
Enquanto o autocarro passa a custo a ponte Margarida
O passageiro espreita para os seios
Entra pelo tecto um pouco de azul
Iluminam a paisagem por causa de um chefe de Estado
Imagino as intenções do revisor
Um bilhete de autocarro é um e cinquenta
É o próprio a obliterar
Sobe e dirige-se para o obliterador
Um motorista não espeita para os seios
Estimamos gostamos do motorista
Enquanto espantado olha o motorista
Desvia a condução

 

Traduções de Ernesto Rodrigues

 

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