Memória de William N. Loew – Terceira Parte

por João Miguel Henriques

Hoje sinto-me especulativo. Quero aproveitar esta disposição para rematar o apontamento. Vai já largo o texto, é preciso concluir e deixar William em paz, devolvê-lo à tranquilidade de um quase anonimato. Não conheço em rigor a mentalidade daquela época na Europa Central, logo não consigo imaginar com total segurança o que pode ter motivado a emigração forçada de um jovem como William, varão de uma família de considerável projeção local. Alvitro uma questão de honra, uma coisa gravíssima. William mantém em segredo uma relação sexual com uma senhora casada de Szeged. O caso é descoberto, o marido exige a reposição da honra e o pai rabino bane o filho para o outro lado do oceano por tempo indeterminado, preservando assim de alguma forma a integridade do nome familiar. Ou então, inusitadamente ébrio, numa noite estival de farra intensa, envolve-se em indesejada altercação, na qual acaba acidentalmente por matar um homem. É uma boa história, eu gosto da desgraça assim ocorrendo imprevisivelmente. Mas não creio que a família permitisse a fuga do filho aos rigores da lei, e a possibilidade do degredo enquanto pena prevista parece-me absolutamente anacrónica. Não, penso que não houve sangue. E a hipótese de enorme e irreparável desavença familiar não se adequa, como já foi aqui dito, ao carinho e respeito subsequentemente demonstrados pelo emigrado William. Uma das notas biográficas disponíveis contém uma curiosa frase, na qual se diz que William se alistou no exército em 1866, mas antes de poder iniciar a sua carreira militar teve lugar a Batalha de Custoza, tendo o jovem aspirante emigrado no ano seguinte. A relação causa-efeito aqui sugerida é tudo menos clara. Ainda dei por mim a pensar que talvez William tivesse desertado das fileiras em vésperas da importante batalha. A confirmar-se, isso seria sem dúvida ofensa suficiente para provocar expulsão do império, até mesmo pena de prisão ou sentença de morte, consequências possivelmente mitigadas pelo facto de se tratar do filho de uma das principais autoridades religiosas do território. Mas a informação sugere que ele nem sequer chegou a ser soldado, pelo que a hipótese se torna demasiado esdrúxula, mesmo para uma apetência como a minha.

Temos portanto William em Nova Iorque. Na verdade, temos William pela primeira vez na vida, anglicizado agora o Vilmos original. Löw passa também para Loew, de forma a evitar o exótico trema. A Grande Maçã é agora a sua nova casa e futuro local de trabalho e falecimento. Que sabemos da sua vida, para além da dedicação às letras magiares na qualidade de diligente tradutor? Torna-se advogado e abre um escritório para exercício da atividade. Surge em alguns registos como advogado de defesa nomeado pelo Estado, embora mais tarde, num dos seus prefácios, verbalize certa desilusão por falta de trabalho. Tem família e filhos, sendo um dos rebentos a notável advogada Rosalie Loew Whitney, sufragista de considerável proeminência. Participa ativamente na vida da comunidade húngara nos Estados Unidos, como o comprovam uma ou outra reportagem do New York Times, onde o seu nome surge referido como convidado ou discursante. Em certo evento descrito pela imprensa, imaginamo-lo um daqueles indivíduos chatos, com a mania dos versos, a impor ao programa, contra todas as vontades, a leitura de poemas húngaros no original e respetiva tradução por si mesmo cristalizada. Não sei que mais diga. Também o tema já está um pouco esgotado. Pronto, encontrei por acidente um poema manuscrito num livro antigo, grande coisa. Investiguei o que pude para desenterrar o autor do lodo do tempo e adicionei eu próprio umas pinceladas. As coisas a que uma pessoa se presta por amor à palavra (ou tédio em relação a tudo o mais na vida). A figura também não é assim tão interessante. Penso que vi nela alguns pontos em comum comigo mesmo, tradutor e poeta de circunstância, emigrado também, se bem que não para tão longe. Vá, podes ir, William. Depois chamo-te se um dia encontrar mais alguma coisa. Obrigado pelas traduções e fica descansado que a tua Szeged cá continua formosa e verdejante. O teu poema mantém-se atual e lá permanece guardado num bom recanto de biblioteca.

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