Memória de William N. Loew – Segunda Parte

por João Miguel Henriques

Já estou mesmo a ver o que vai acontecer. Se eu me puser aqui a construir uma biografia à minha maneira, sem respeito por fontes ou factos, algum leitor mais escrupuloso e atento há-de inevitavelmente descobrir-me a careca (confesso, tenho um fraco por idiomatismos) e criticar-me o desplante. Dir-se-á, não sem ponta de justiça, que empolei vida e obra de William N. Loew para do mesmo modo engrandecer a relevância do meu achado bibliográfico. Não irei, por conseguinte, fazer vista grossa dos dados disponíveis, ainda que não possa resistir a preencher lacunas e deslindar dúvidas com o que me ditam as afeições do intelecto.

Tanto quanto pôde ser determinado, William N. Loew nunca publicou poesia em nome próprio, embora seja legítimo concluir, com base em palavras escritas por seu punho, que tivesse certas ambições literárias (1). Isso e o poema descoberto admitem a hipótese de que escrevesse com maior ou menor regularidade para a gaveta. Imagino-o a mostrar os seus versos a um qualquer amigo com sensibilidade literária ou a oferecer uma estância por ocasião do aniversário de um familiar. O único título por si publicado na qualidade de autor é nem mais nem menos que uma biografia do seu pai Leopold Loew (Lipóti Löw, na versão húngara), rabino de Szeged e figura de relevo na história dos judeus na Europa (2). Não pretendo desvirtuar esta memória do filho com o peso que a figura do pai teve para os judeus da Europa Central. Uma pesquisa das mais superficiais dará de Leopold todos os contornos de uma vida e obra de envergadura significativa. Por comparação até com os seus cinco irmãos varões (não contamos aqui com os meio-irmãos, fruto do segundo casamento do pai), William parece ser a figura mais indeterminada, tanto mais se do todo subtrairmos as ocorrências em que o seu nome surge meramente na qualidade de tradutor para inglês de autores húngaros, labor em que se mostrou aliás incansável. Por conseguinte, de William Noah Loew temos informações soltas no tempo e no espaço, não sendo porém impossível uni-las num todo coerente.

Nasceu na Hungria oitocentista, onde recebeu o nome de Vilmos, o equivalente húngaro do posterior William. As duas brevíssimas notas biográficas disponíveis fornecem 1847 como ano de nascimento, ainda que ambas o façam acompanhar de um ponto de interrogação. Discordam porém no local, uma delas referindo a dilecta Szeged, a cuja destruição em 1879 William teve a fortuna de já não assistir, e a outra fazendo-o nascer na histórica cidade de Pápa, no condado de Veszprém. Não deixa de fazer mais sentido esta segunda hipótese, uma vez que foi nessa cidade que o seu pai exerceu as funções de rabino entre 1846 e 1850, antes da mudança da família para Szeged. Mas eu cá prefiro a segunda hipótese. Não quero muito saber desses primeiros anos de choros e incontinências. Nunca estive em Pápa. Em tempos conheci um casal que por lá vivera uns tempos e não recordo que falassem do lugar com grande entusiasmo. Além disso, descubro agora, por observações do próprio William na mencionada biografia do seu pai, que os anos nessa cidade foram penosos para a família Löw (assim originalmente grafado em húngaro), uma vez que o rabino Leopold se viu aí constantemente alvo de intrigas e ataques por parte da ala mais ortodoxa do seu rebanho. Coloquemos portanto William desde sempre em Szeged, onde teria seguramente encontrado berço mais tranquilo. Pouco sabemos da sua juventude nesta cidade, embora o poema encontrado e a estima com que a ela se refere no já citado prefácio nos façam crer ter sido de boa memória (3). Como Cristo, se bem que de forma não tão misteriosa e flagrante, dele pouco ou nada sabemos nos anos seguintes, até 1867, ano da sua partida para a América e do importante Compromisso Austro-Húngaro, o qual veio em parte satisfazer os desejos de autonomia do governo magiar, após a malograda revolução de 1848. Estaremos aqui perante uma coincidência de datas ou terá havido alguma relação entre a mudança política no país e a forma como William, na flor dos seus vinte anos de idade, abandonou a pátria amada rumo ao desconhecido? Nos prefácios por si assinados, William permanece calado sobre o assunto, preferindo apenas celebrar a sua memória da Hungria, os melhores cultores do singular idioma e a família de que há tantos anos se apartara. Ficamos por vezes com a sensação de estar a redimir-se de algo, como se lhe pesasse ainda o episódio da partida. De um dos seus bisnetos norte-americanos temos o único comentário acerca da sua emigração, creditando-a a uma decisão familiar. Citamos: “My father’s grandfather came here from Hungary in 1866, when he was nineteen. His family sent him off with a one-way ticket! We suspect he must have been a bit of a rebel, one of thirteen kids, seeking independence and secular identity, battling the obstacles in his path. The family had a proud history in Hungary, with rabbis and doctors and industrialists, including one of the most famous rabbis in Slavic History, Jehude Loew of Prague, who died in 1609”. Penso que o bisneto se equivoca no ano da partida, mas em compensação abre-me portas para toda uma série de conjeturas. E sem isso, sejamos sinceros, escasso interesse teria a vida do nosso William.

(1) No prefácio de 1908 a uma nova edição, revista e aumentada, das suas traduções de poesia húngara, Loew afirma: “I need not repeat here what I said in the preface to the last volume, which was published about ten years ago, that my work in this field is by no means to be ascribed to any ambition on my part to be recognized as a God-born son of song”. Talvez o espírito da época exigisse semelhante ressalva, embora não deixe de ser curioso que um tradutor se veja impelido a negar veia lírica própria. Por conseguinte, pode a afirmação pretender precisamente lembrar o leitor que também o tradutor é poeta, embora não seja sua intenção evidenciá-lo no volume em causa. De William N. Loew conhecemos apenas dois poemas impressos, ambos inesperadamente incluídos em jeito de introdução a dois volumes da sua responsabilidade.

(2) Leopold Loew: a biography. With a translation of some of the tributes paid to his memory on the occasion of the centenary of his birth, celebrated at Szeged, Hungary, June 4, 1911 (New York, Privately Printed, 1912). O volume é introduzido por um poema de William intitulado “In Memoriam”. Dedicado ao pai, a composição mantém o tom laudatório e a rima emparelhada do manuscrito encontrado na Biblioteca da Universidade de Szeged.

(3) Nesse texto, Loew fala do seu admirável labor de tradução como “token of my undying love for my native land, which a residence of more than forty years in the United States has not diminished”.

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