Memória de William N. Loew – Primeira Parte

por João Miguel Henriques

Na primavera de 2012 (escrevo assim, com todo o descaramento, como se de um remoto tempo se tratasse), dei por mim a explorar com empenho as estantes de literatura húngara da admirável Biblioteca da Universidade de Szeged. Quem por lá hoje passar, por uma daquelas casualidades de que se tece boa parte da existência, encontrará seguramente ainda o mesmo imponente edifício envidraçado, de linhas sóbrias e espaços funcionais, inundado de luz e do perfume a tomos esquecidos. Não deixará também seguramente de reparar no pequeno jardim da Praça Ády, para onde estão voltadas as mesas de estudo mais concorridas, com o seu memorial à Revolução de 1956 e a sua Árvore da Ciência, plantada por nove prémios nobel em tributo à vida e obra de Albert Szentgyörgyi. Foi aí, nesse espaço ajardinado que não chega a merecer o título de parque, que tantas vezes passeei certo extraordinário animal, de cujo inesperado afastamento jamais me recompus por completo. Mas isso são contas de outro rosário, para usar aqui a expressão popular, sedimentos de um rio bem mais escuro e cruel que o dos livros e leituras. Percorria, contava eu, essas estantes de desconhecidos volumes (pouco me tinha ainda dedicado à literatura do meu bisonho país de acolhimento), por simpática incumbência do meu amigo e escritor Jordi Gimeno (chefe de cozinha também, para além de pai extremoso e medíocre intérprete musical em sórdidas noites de karaoke). Os leitorados de catalão, espanhol e português da Universidade Szeged, com o catalaníssimo Jordi à cabeça da organização, preparavam-se para levar alguns dos seus estudantes e um punhado de convidados para um fim-de-semana de tradução na belíssima Casa do Tradutor, na localidade de Balatonfüred, estância termal e terapêutica nas margens do afamado lago húngaro. A mim cabia-me a seleção dos textos a traduzir nesses dias de labor conjunto, estando já estabelecido que haveriam de ser vertidos para os ditos idiomas peninsulares poetas húngaros do século XX, de preferência já falecidos. O sucesso e aceitação dos textos que acabei por escolher podem ser justamente avaliados pelo rimado cântico de bancada – “João, cabrão, muda a seleção”-, repetidamente entoado pela ala catalã nessa jornada de mais traição que tradução, principalmente devido a dois longuíssimos poemas de István Bella, causa de profunda frustração nos jovens tradutores que a eles estoicamente se entregaram. Voltando a Szeged, nessa minha visita à soalheira biblioteca, decidira começar por consultar antologias de poesia húngara em tradução inglesa (por essa altura eu estava longe de dominar o denso idioma magiar e nem sequer descobrira ainda no bonito verbo hiányozni um apto correspondente para a saudade portuguesa).

Ora, um dos volumes desde logo consultado, sem que se soubesse de antemão a natureza do seu conteúdo, apresentava o título Magyar Poetry, sendo a seleção e tradução dos poemas nele contidos da responsabilidade de um certo William N. Loew, também ele supostamente poeta, ainda que de modesta projeção, como mais tarde pude determinar. Na página de rosto da dita antologia, surgiam desde logo uns pujantes versos de Petöfi, que eu já antes ouvira declamados no original. Para além do evidente mérito do trabalho, nada haveria de especialmente interessante no volume, não fora encontrar-se numa das páginas iniciais em branco daquele exemplar em particular um poema do próprio “autor-tradutor” da edição, uma comovente estância em rimas emparelhadas, no qual Loew parece convocar a memória para cantar o viço e a virtude da sua terra natal, nem mais nem menos que Szeged, em cuja biblioteca universitária terá portanto ficado esquecido ou intencionalmente deixado um exemplar com os versos manuscritos, a acompanhar a obra traduzida dos poetas húngaros mais canonizados.

 Since childhood’s days I know you well.
Can those who did in Szeged dwell,
Have seen the “Délibáb” on high, –
Light fairy of the alföld sky; –
Enjoyed to list to népdal air,
Saw sweet menyecske, debonnair,
Inflamed were by the czigány’s play,
Nourished on famous halászlé
Gulyás and world-famed paprikás,
Enjoyed in Tisza’s mud to splash,
Ran nagyméta in Uj-szeged
Lighthearted as a tan-cheeked lad,
And who Löw’s scholar once had been
Jealously kept his memory green
Oh! Can it be, I ask, that we
Shall ever cease dear friends to be?

Tal como o poema aqui transcrito, cujo fundo supera largamente a forma, William N. Loew é uma curiosidade. É uma micro-história de traços vagos no contexto maior de uma história qualquer, seja o panorama da literatura húngara traduzida para inglês ou a história da comunidade húngara judaica nos Estados Unidos. Mas essas histórias maiores não me interessam. Não tenho vagar nem me sinto habilitado. Interessa-me o William, advogado e homem de letras em Nova Iorque. E interessa-me o jovem Vilmos, o filho do rabino de Szeged e o único de cinco irmãos varões a emigrar para a terra das oportunidades. Interessa-me muito a reconstrução possível da sua vida, porque uma qualquer casualidade me lançou certo dia para as mãos um poema manuscrito de sua autoria. E também porque a escassez de dados concretos acerca do seu percurso se presta muito a isto mesmo, que é eu estar aqui a escrever sobre alguém que faleceu há quase cem anos, todo orgulhoso de uma descoberta bibliográfica cujo interesse só eu verdadeiramente reconheço.

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