Melancolias durante uma epidemia (Balázs F. Attila)

por Pál Ferenc

Como em todos os confins e recantos do mundo, esta reclusão devido à pandemia, teve além de consequências difíceis e tristes, também na Hungria, momentos de esperança e de inspiração artística. Assim na quarentena nasceram obras literárias durante estes últimos meses, quase um ano. Nos próximos dias vamos oferecer uma amostra destas obras aos nossos leitores: publicaremos versos de vários poetas húngaros.

Balázs F. Attila

Nascido na Transilvânia, em 15 de janeiro de 1954. Ele se formou em biblioteconomia e tradução literária em Bucareste. Mudou-se para a Eslováquia em 1990. Em 1994 fundou a Editora AB-ART, da qual tem sido o diretor desde então. É membro da União de Escritores Húngaros, da Academia Européia de Artes e Ciências, da União de Escritores Romenos, do Clube Húngaro PEN, da União de Escritores Eslovacos. Recebeu vários prêmios internacionais em reconhecimento às suas diversas atividades literárias: Prêmio Opera Omnia Arghezi (2014), Prêmio Dardanica, Brussels-Prishtina, Grande Prêmio Lucian Blaga (2011), Prêmio de Poesia EASAL, Paris, 2020, Prêmio Madách (Eslováquia, 1992), Prêmio da Associação Mundial de Escritores de Língua Inglesa, Índia, 2019, Prêmio Lukijan Mušicki, Belgrado, 2019. Como poeta convidado, é um participante regular dos festivais literários internacionais ao redor do mundo.

MELANCOLIAS DURANTE UMA EPIDEMIA

Fado
Fátum

A estrada esgota-se debaixo dos teus pés
para que nem se note que
podes abrir as tuas asas?

Anjo Negro
Fekete angyal

Qualquer pessoa que tenha sido apanhada num turbilhão
sabe que o progresso
é, ao mesmo tempo, um retorno constante
até ao mesmo ponto
situação
condição

estás tonto da velocidade
cansas-te
cresces entorpecido
e se olhares à tua volta
encontrar-te-ás sempre
na mesma situação

é um círculo vicioso
apenas o coração
tenta bater com um ritmo diferente

só o fumo sobe erraticamente
só o vento descarado sopra areia
aos teus olhos

Nem sequer a raiz que se agarra
para a fenda dos penhascos
percebe a dança louca da morte
e as sombras
aceitam a luz

partida

estradas

a esgotar

ramificando-se

podes encontrar tudo
no ecrã do computador portátil
a única coisa que não vais encontrar
são as ilusões que abandonaste
no caminho

Resignado, estendes uma mão
para o anjo negro

quem tira a tua impressão digital
no meio do deserto

Quarantena
Karantén

O tempo está balançando
sobre o ponteiro deformado

O homem com as chaves fecha a grelha
corta tiras da luz

A beleza derrama através das fendas
e a imagem na retina é composta

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