Magyarország: Uma História de Amor Inacabada

por LMn

Por Jorge Beleza

Sou o Jorge Beleza (o meu apelido de eleição, pois às tantas na minha vida dei-me conta de que o meu humilde papel neste mundo é tentar encontrar beleza em tudo o que me rodeia). Tenho 50 anos e trabalho como revisor de texto e tradutor, e como fotógrafo, escritor e músico nas horas vagas.

Ali por volta de Abril-Maio de 2018 e porque sempre quis ter uma experiência internacional, andava à procura de trabalho lá fora. Um dia aparece-me um trabalho em Budapeste que me parece interessante, porém, apesar de sempre ter sido curioso pelos «países de leste», pergunto-me: “Budapeste? Hungria?”. Lá fui consultar o Doutor Google, e aparecem-me coisas escabrosas como «regime extrema-direita ditatorial»; «carruagens de metro pegam fogo»… “Que horror, nem pensar, já bem me basta Portugal!”, concluí. Uns dias mais tarde, porém, estando a responder a um anúncio para tradutor em Berlim, o LinkedIn aparece-me com a sugestão de um trabalho em Budapeste cuja descrição era, pensei, a minha cara: tradutor de relatórios de efeitos adversos de medicamentos (antes não mencionei, mas nos últimos dez anos tenho-me dedicado quase exclusivamente à área farmacêutica).

Bom, esquecendo tudo o que de negativo tinha lido a respeito de Magyarország, respondi ao anúncio e, passado não muito tempo, percebi que a empresa estava mesmo muito interessada em mim, pois estavam com sérias dificuldades em arranjar um português – só mesmo alguém com uma grande pancada como eu vai para Magyarország traduzir relatórios de efeitos adversos de medicamentos. Fazendo contas à vida em Magyarország, houve uma pessoa que foi decisiva para o meu “sim” final: o João Henriques do Instituto Camões em Budapeste, a quem cheguei por via de uma amiga da minha filha mais velha, Camila, que tinha sido leitora no Instituto. Ao João Henriques devo portanto esta história de amor. Fico sempre grato também a Ernesto Rodrigues, a quem cheguei também por via da Camila (engraçado como tantas vezes são os nossos próprios filhos quem nos indica o caminho), por uma apresentação superlativa de Budapeste.

Já em Magyarország, onde cheguei no saudoso dia 12 de Junho de 2018, devo à muito simpática e sempre prestável família Gomes, e em particular à Maria Gomes, o ter-me feito sentir ainda mais em casa. Digo «mais em casa» porque, apesar das dificuldades de adaptação ao trabalho – nunca tinha trabalhado com indianos e não fazia ideia que as nossas perspectivas sobre o que é um trabalho bem feito são tão abismalmente diferentes, quase inconciliáveis -, desde o primeiro momento senti-me verdadeiramente – quase estranhamente – em casa, e arrebatadoramente apaixonado por ela. Um amor à primeira vista.

Estudei História da Arte e sempre fui muito sensível à estética, pelo que aquilo que desde logo me esmagou foi a arquitectura, a volumetria que imprime respeito dos edifícios com as suas infindáveis variações sobre o tema coluna/entablamento, os portões com um ar seríssimo e grave ou mais florido, as cores desmaiadas… Tudo isto envolto pela luz dourada de Budapeste – todos os pores-do-sol são deslumbrantes. Andando pelas ruas a tirar 1001 fotografias com o meu velhinho iPhone – fotografias a que atribuí desde o início a hashtag #SortidoHúngaro -, não era raro verter uma lágrima quando via as homenagens às pessoas que tinham vivido em tal ou tal prédio com as suas amorosas coroazinhas de flores; “Este povo deve amar verdadeiramente os seus”, pensava.

Quanto à barreira linguística, foi algo de prazenteiro para mim desde o início, pois, apesar de na maior parte das vezes não entender uma única palavra numa frase ou mesmo em várias frases escritas, agradava-me sobremaneira a grafia e o som – certa vez comentei com os meus colegas de trabalho que por vezes me soava a japonês, o que eles acharam um tanto estranho (mas riram-se). Depois a descoberta da comida, essa comfort foodcom a omnipresente e conspícua paprika, uma comida que me sabia bem até na canícula. E os banhos, banhos (em especial os Király) que frequentava religiosamente ao Sábado, e onde vivi transcendentes experiências de fora-deste-corpo.

E foi assim, apaixonado, que passei um ano sozinho em Magyarország, preparando o projecto familiar (a minha mulher, Maria João, e a minha filha mais nova, Maria Carolina, viriam juntar-se a mim). Como se viu e como costumo dizer, não fui eu que escolhi Magyarország, mas Magyarország que me escolheu a mim, e posso dizer que foi sozinho em Magyarország que renasci, que cresci, que me tornei Homem.

Certa vez lia, num desses fóruns de expats que desde logo comecei a evitar por veicularem informação maioritária e desnecessariamente negativa, um homem a lamentar: “Ah, nós, mais velhos e sem a família por perto, sentimo-nos sozinhos e é muito difícil fazermos amigos”. Alguém respondeu algo que eu nunca esqueci: “Ai estás sozinho? Não consegues fazer amigos? Olha, aí tens uma excelente oportunidade de te conheceres melhor a ti mesmo!”. Bem sei que nem todos têm esta vocação solitária, mas posso dizer que foi isto mesmo que comigo aconteceu.

Um ano passado, chegou o resto da família (a Camila ficou em Portugal porque estava a fazer o seu mestrado e a trabalhar na Faculdade de Letras). Foi com enorme prazer que lhes apresentei tudo o que eu amava em Budapeste — um tudo que é quase tudo, pois até dos blocos residenciais dos tempos comunistas eu gosto (deve ser por sempre ter vivido em subúrbios). Porém, relativamente a trabalho e a escola, as coisas não correram bem.

Ao contrário de mim, que nunca tido problemas de maior com os húngaros e que fiz amigos húngaros para a vida, a Maria João e a Maria Carolina não tiveram a mesma sorte. Foi especialmente triste o que se passou com a menina de 13 anos, que foi vítima de xenofobia quer por parte de professores, quer de colegas. Tivemos de mudá-la de escola, mas na segunda o tratamento não foi muito diferente. Tudo, essencialmente, porque ela não sabia falar húngaro. Só que a Maria Carolina até sabia húngaro, pois tinha aulas semanais em casa com a querida professora Andorka Eszter, muitíssimo bem recomendada pelo João Henriques. O problema é que a maioria dos professores a reprimia de uma maneira que fez com que a menina ficasse com medo de falar. Esta situação foi de tal ordem que entrou em depressão e já não conseguíamos que fosse à escola. Ora o stress apoderou-se de mim de tal maneira que, uma vez que não tínhamos dinheiro para pôr a Maria Carolina numa escola internacional, decidi, já fora de mim, que regressaríamos a Portugal, e assim fizemos, no dia 1 de Março de 2020.

No dia 2 de Março, comecei a trabalhar na agência de publicidade especializada em comunicação farmacêutica onde tinha estado antes de partir para Magyarország.

O título destas longas palavras diz «uma história de amor inacabada», porém: se a nova dinâmica familiar o permitir e se conseguir arranjar trabalho, quero voltar a Magyarország sozinho (a Maria Carolina está de acordo), para me conhecer ainda melhor.

 

Sacavém, 5 de outubro de 2020

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