Lígia Fernandes em Residência Artística em Budapeste – Sábado, 31 de Julho, 17h00-20h00

por LMn

A Câmara Municipal de Lisboa seleciona anualmente dois artistas para duas residências artísticas em Budapeste, ao abrigo do acordo de geminação celebrado entre as duas cidades que define a realização deste programa de intercâmbio artístico.

Lígia Fernandes e Manuel Fonseca venceram a edição de 2020 da Residência Artística em Artes Plásticas e Visuais Lisboa/Budapeste.

O júri considerou que as propostas são as que melhor se enquadram na lógica de criação artística contemporânea do programa, destacando o mérito do trabalho desenvolvido ao longo da carreira artística dos candidatos, bem como o potencial de desenvolvimento e aprofundamento em Budapeste.

Os artistas vão estar em residência nos meses de junho e julho de 2021.

Lígia Fernandes

Lígia Fernandes (Setúbal, 1985) é licenciada em Desenho pela Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa, onde atualmente frequenta o Mestrado em Pintura (com intercâmbios no Montenegro, Letónia e Estónia).

Desenvolve, desde 2017, projetos de desenho e pintura que exploram culturas, etnografias e identidades. O seu universo é um espaço onde cabem a partilha, o diálogo e a reflexão, e é muitas vezes o resultado de uma pesquisa específica ao lugar que parte do arquivo ou da colaboração. As obras procuram relacionar-se com a ideia de casa: o lugar e a sua memória coletiva. Desenvolveu projetos de retrato ao vivo em comunidades no âmbito de residências artísticas (Largo Residências, RÉSVÉS, Festival da Água e do Tempo), educação e mentoria artísticas (Festival PaRTES) e práticas artísticas de desenho e pintura em torno de imagens de recolhas familiares e etnográficas. Das bolsas e distinções destacam-se os prémios SGPCM-FBAUL e CGD-FBAUL.

Há, em todo o seu trabalho, a noção constante de ser portuguesa.

 

Frederico Raposo: Porque decidiste enveredar para o mundo das artes?

Lígia Fernandes: Entendo que faças esta pergunta porque me conheces, e sabes que há cerca de 6 anos atrás ainda vivia aqui em Budapeste, trabalhava para uma multinacional na área de gestão de projecto. Entretanto houve um conjunto de acontecimento que levaram a que se proporcionasse o momento que levou à minha ingressão na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa em 2015: outras coisas que tínhamos de resolver em Portugal, o apoio do meu namorado na altura, e, principalmente, o facto de ter, ao logo dos dois anos em que estive aqui em Budapeste, ter estudado desenho na Art School in Budapest da Barbara Guttmann e ter praticado nas sessões de desenho de modelo na casa do Peter Fekete. Ter tido acesso a aulas de desenho, a uma comunidade de artistas e a mentores que incentivaram o meu trabalho, que me fizeram sentir ouvida e valorizada, deu-me confiança para “arriscar” investir na minha educação. Outra questão tem a ver com a segurança – e isso também recebi de Budapeste: sendo o mercado de trabalho bastante acessível na cidade pensei que, se as coisas corressem mal, poderia sempre regressar e não teria muito problema em voltar a arranjar emprego aqui. Pensei: “na pior das hipóteses passo 3 anos da minha vida a desenhar”. Mas, entretanto, já passaram 6, e continuam.

Talvez uma das questões que tenha não seja: “porque é que decidi ir para as artes?”, mas antes: “porque é que demorei tanto tempo a ir para as artes?” Todos sabemos que a prática das artes é sempre um pouco desvalorizada e acabamos por incentivar as pessoas à nossa volta a seguir caminhos mais “seguros”. Temos, que estar um pouco mais atentos. Por outro lado, a minha vida sempre foi artística, sempre necessitei dessa dimensão: fiz teatro, música (ainda faço parte de um coro), dança, desenho. A única diferença foi passar de um “hobbie” para algo que faço a tempo inteiro. E muitas vezes o que faço agora não é desenhar: é investigar, dar aulas, gerir projetos, escrever…. Tudo está relacionado.

 

FR: Que desafios encontraste nessa mudança?

LF: O maior desafio tem a ver com a subsistência. A não ser que tenhas um “pai rico” então a primeira pergunta que vais pensar é “como vou sobreviver agora?”. E vais tentar experimentar várias formas de subsistir. No fundo, tornas-te um empresário. Mas ser artista é uma contradição que tem a ver com a própria natureza da arte – que deve ser uma criação livre, uma invenção, uma relação com o mundo – e isso não tem nada a ver com o mercado. Então é muito difícil encontrar um equilíbrio, encontrares aquele limbo onde consegues continuar a substituir e, em simultâneo, seres generoso com a sociedade através do teu trabalho. Isso é muito difícil e depende sempre de cada um, temos de ser nós a encontrar esse caminho – mas é possível. Depois, tens que aprender muita coisa, sobre história, sobre técnica, sobre o mundo em que vives – desenvolver a tua forma de pensar – isso dá algum trabalho, mas é muito interessante. E finalmente tens a parte de criar, essa não é um desafio, é como respirar.

 

FR: Como vês que as pessoas encaram a pintura em Portugal e na Hungria, que diferenças há? Onde se nota mais o apoio das instituições?

LF: Isto é uma questão difícil de responder porque não conheço suficientemente bem a cena artística na Hungria, as pessoas com quem me relacionava mais eram pessoas com mais idade que eu e muitas tinham vivido fora da Hungria. As pessoas na Hungria que tenho vindo a  conhecer aqui são muito cultas, leem muita história, conhecem muitos artistas, mas têm referências diferentes dos portugueses.  Em Portugal as pessoas são muito curiosas e gostam de participar, então é muito gratificante organizar projetos colaborativos porque há sempre muita gente e gente muito diversa, ou ir por exemplo, para uma aldeia e recolher as histórias daquele lugar juntamente com as pessoas. Aqui foi um pouco mais difícil recolher histórias para o meu projecto, mas também foi possível. Acho que de uma forma geral, o que muda por vezes é um certo sentido de agência, ou seja, das pessoas se sentirem com capacidade de agir sobre algo, de se sentirem não só espectadores, mas também criadores e donos da sua própria cultura – o que me parece um pouco menor na Hungria. Mas em Budapeste já começamos a ver também as gerações mais novas a se organizar, a abrir diferentes espaços e a coordenar iniciativas, como por exemplo a “OFF-Biennale 2021” (também no Ludvig Museum, a exposição “Slow” está muito interessante). Gosto de insistir neste ponto porque não é preciso sermos “artistas” para participarmos na cultura de um lugar, todos fazemos parte dela, incluindo os Portugueses que vivem na Hungria.

Em relação ao apoio das instituições, penso que é precário em ambos os lugares. Em Portugal muitas vezes os apoios vão para artistas mais estabelecidos, então é preciso encontrar outros caminhos, através da colaboração com colegas, organização de eventos, ou mesmo apoios para estudantes. Eu sempre assumi que não ia ter apoios e isso foi-me trazendo alguma liberdade, pois não dependo deles. Mas isso não significa que estes não sejam necessários, é muito importante termos uma estrutura para a arte porque se trata de um bem comum das sociedades, traz-nos identidade, cultura, educação, beleza, saúde, sentido crítico…

É importante referir que estou aqui por causa de um apoio da Hungria e de Portugal. A Residência artística Lisboa-Budapeste é realizada em colaboração com a LAAR – Lisboa Acolhe Artistas em Residência, da Câmara Municipal de Lisboa, e pela Budapest Galéria. Todos os anos, dois artistas de Lisboa vêm fazer residência artística em Budapeste e dois artistas de Budapeste vão para Lisboa.

 

FR: Quais as tuas influências?

LF: Tenho muitas influências e isso é uma das perguntas mais difíceis de responder. No campo da pintura e desenho artistas como o David Hockney, o Gaugin, entre centenas, são tantos, sinto-me sempre injusta a responder a esta questão. No campo da arte pessoas como o Pablo Helguera foram uma grande influência porque mostraram que a arte vai além da pintura e pode ser também educação e participação. E tenho sempre que mencionar o trabalho do Tiago Pereira como uma enorme influência para entender esta questão de identidade, principalmente para quem é português: o que significa isso de “ser português?”. Finalmente, tenho os meus colegas e professores que são uma influência enorme. Se tiverem alguma curiosidade, todas as semanas entrevisto um artista no meu canal de instagram. Podem consultar todas as conversas no IGTV de @ligiampfernandes.

Mas a minha maior influência não são propriamente os artistas, são os lugares e as pessoas que neles habitam, é sempre sobre isso que incide o meu trabalho.

 

FR: O que te inspira na Hungria?

LF: A Hungria foi, de certa forma, o local onde voltei a desenhar, e estou muito grata por isso. Então o que me inspirou primeiro foram as pessoas com quem tive o prazer de partilhar o amor pelo desenho, os meus professores e colegas. Depois todo o país é lindíssimo, não só a cidade de Budapeste mas toda a paisagem rural, os rios, os lagos, a natureza, o mudar das estações. O que gosto mais são as aldeias e as zonas rurais, acho que se Budapeste tornou um pouco gentrificada pelo turismo e o negócio das multinacionais, ficou uma cidade muito jovem, vibrante e transitória, o que também é interessante. Gosto muito das zonas rurais, de música tradicional e da dança. Foi aqui que aprendi a gostar desse aspeto mais ligado ao folclore e à história do lugar. Aprendemos muito sobre o nosso país num outro lugar. As pessoas perguntavam-me como era Portugal, como eram os portugueses, e eu via-me obrigada pensar sobre estas coisas que para mim eram dados adquiridos, a desconstruir muitas ideias sobre a nossa identidade. Então também descobri muito sobre Portugal e sobre mim mesma aqui na Hungria. Também, quando, volto a Portugal, trago um pouco da Hungria comigo.

O trabalho que realizo agora em Budapeste é sobre o passado da Hungria através das histórias de família contadas por mulheres. Estou a recolher fotografias antigas e a entrevistar algumas mulheres da geração das nossas avós.  Vou também voltar a trabalhar com a artista Barbara Guttman – apesar de não nos vermos há mais de seis anos, continuamos a descobrir muitos paralelismos no nosso trabalho. Espero encontrar-vos na exposição para continuarmos esta conversa!

Exposição: Budapest Artist Residency | Open Studio

Klauszál Ter 2, Budapeste. Campainha 17

Sábado, 31 de Julho, 17h00-20h00

https://www.facebook.com/events/111853184416940

 

Crédito da Imagens em destaque: Nicole Sanchéz

 

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