Lição de Hungarologia

por João Miguel Henriques

Encontro-me com o meu querido amigo G. pouco antes das nove e meia na Praça Széll Kálmán. Peço-lhe desculpa pelo atraso (a carteira esquecida em casa, o eléctrico que não chegava, as pequenas contrariedades inerentes ao primeiro nevão do ano). Ele por sua vez desculpa-se, não mais que retoricamente, por persistir em chamar aquele lugar de Praça Moscovo. Nunca me habituei ao novo nome, confessa. Ao reabilitado nome, melhor dizendo, agora reforçado por estátua a condizer. E começa-me a falar da praça, naquela sua voz grossa e penetrante de locutor radiofónico (emissão ao fim da noite, escutada ao volante, sem companhia, numa longa viagem para parte nenhuma). Lembro-me subitamente da primeira vez que o ouvi, ao telefone, antes sequer de lhe imaginar um rosto, um corpo que se abraçasse. Eu tinha acabado de aceitar o cargo de Leitor de Português na Universidade de Szeged e ele, também docente nessa instituição, ligava-me a apresentar-se, meio surpreendido pela minha contratação mas em tudo disponível para ajudar-me a organizar a vida. Voltemos à praça de nomes trocados, que entretanto, desde esse primeiro telefonema, já passaram quase dez anos. Informa-me G. que o relógio era antigamente analógico e situava-se uns metros ao lado do lugar onde hoje se encontra a sua nova versão digital. E conta-me também histórias do quiosque onde antes se matava a fome com os melhores pseudo-hambúrgueres da cidade. Ali se reunia a mais diversa fauna humana, uns a terminar a noite e outros a começar o dia, como nos mostra o clássico (ainda que um pouco sobrestimado) filme de Ferenc Török. E era também ali que, após a queda do muro, se acumulavam de manhã todos os desempregados de uma indústria em processo de desmantelamento, à procura de quem os apanhasse para um qualquer trabalho de construção, a troco de almoço e modesta jorna. Se aquela praça pudesse falar e contar todas as histórias, das quais ainda assim G. conhece uma boa parte… Anda, diz-me ele, atravessando a linha do 17 até junto das escadas que sobem para a Rua Vérmező. Mostra-me uma estátua minúscula de Mekk Elek, um bode faz-tudo, conhecida personagem da animação húngara, aí subtilmente homenageada pelo escultor Mihály Kolodko. O artista tem aliás pejado a cidade destas maravilhosas obras, à revelia das autoridades municipais e para encanto e surpresa dos transeuntes. Mas à estatuária de Budapeste haveremos de regressar noutra carta. Atravessamos a praça e entramos na Rua Retek para umas comprinhas na mercearia russa. Está generoso G., como é aliás seu hábito, e faz questão de me comprar alguns presentes e assim promover iguarias que me são desconhecidas: uma versão russa do afamado túró rudi, com um simpático pinóquio na embalagem, um estranho refrigerante de cor berrante, um preparado de tomate e beterraba como base para uma futura sopa borscht que minha mulher se encarregará de cozinhar. Conheces Tibor Simon? É a pergunta que se segue, a colocar à mais dura prova este humilde aluno de Hungarologia, de nível não mais que intermédio ainda, não obstante quase uma década por estas paragens. Foi um lendário jogador do Fradi, conta-me, um mítico número 2, espancado até à morte ali bem perto, na rua de trás, à porta de um bar. O caso fez correr muita tinta nesse já distante ano de 2002 e deixou marcas profundas no clube e nos adeptos. E eu que por ali vivi durante três anos e desconhecia por completo esta história. Sim, é que aquele foi também o meu bairro, do outro lado da Praça Széna, naquelas ruas que nos levam até às margens do Danúbio. E por falar nessa praça, cuja estação de elétrico sempre me pareceu despropositada por tão próxima da seguinte e terminal, pergunta-me finalmente G. se eu sei por que motivo tem a praça esse nome. Assumo mais uma vez a minha ignorância de discípulo envergonhado, perante o benévolo professor. É porque era ali que em tempos se comprava e vendia o feno, explica-me ele. E foi também ali que em 1945 o Exército Vermelho dizimou milhares de soldados alemães que desciam do Castelo de Buda em desespero, sem já nada a perder e ainda menos a ganhar, numa inglória tentativa de furar o cerco russo. Convido o professor para um café e pomo-nos depois a conversar sobre outras matérias, de uma Hungarologia mais pessoal. E quando mais tarde chego a casa, encontro para escutar com atenção, como recompensa pela assiduidade e o aproveitamento, aquela canção de Tamás Cseh sobre o sangue derramado na praça do feno: így megyek, én így megyek a Széna téren át.

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