Kassák Lajos (1887 – 1967): poeta, escritor, pintor, editor

por Pál Ferenc

Kassák Lajos (1887 – 1967): poeta, escritor, pintor, editor. Foi a figura destacada das escassas vanguardas húngaras. Não teve formação média e superior e tendo começado a trabalhar como operário em diferentes lugares foi um autodidata que além de optar por uma posição política de esquerda, conheceu as mais modernas tendências literárias e artísticas durante as suas viagens na Europa Ocidental. O seu primeiro poema aparece no final de 1908. Em 1909 partiu para Paris a pé. Seu primeiro volume de contos, Életsiratás (‘Choro de Vida’) foi publicado em 1912. Ele lançou a primeira revista da vanguarda húngara sob o título Tett (‘Acto’). Em 1916 foi o editor da revista Ma (‘Hoje’). Depois da queda da República dos Concelhos, em 1919,  fugiu para Viena, onde continuou a publicação da Ma. Voltando â Hungria em 1926, editou a revista Dokumentum (‘Documento’). Em 1928 iniciou outra revista, intitulada Munka (‘Obra’). Depois da segunda Guerra Mundial, na Hungria desempenhou um papel importante na reorganização da cultura, mas a partir de 1949 as suas obras não podiam ser publicadas e em 1953 foi expulso do partido. A partir de 1956 ele retornou à vida literária. No renascimento das vanguardas na década de 1960 a sua atividade poético-artística foi apreciada e se sucederam as suas exposições no estrangeiro.

Kassák deixou uma grande obra. Ele trabalhava em muitos géneros: foi escritor e poeta, crítico, editor, pintor e tipógrafo  e ocasionalmente falava também sobre música, teatro, arquitetura, cinema, publicidade, fotografia. As suas revistas são foros da vanguarda húngara cujo quase único representante multifacético foi Kassák Lajos.

A MINHA POESIA
Költészetem

I.
Deveria salvar o que se pode salvar
e eu sento-me somente
grave
como um bloco de pedra
como aquele pássaro gigante
que na idade ingrata feri e mudo sangrou na sombra dos salgueiros.
Em silêncio no fundo silêncio da parte ignorada do mundo
escrevo meus poemas que estão à uma para cá e para lá da literatura
das leis costumadas
do êxtase de imbecis.
Basta de beleza a granel
dos efeitos herdados.
A minha poesia não nasce da florescência incoerente dos sonhos
mas da ordem rigorosa da geometria
tira a pele do fruto
traça seu plano
dispõe no espaço os objectos
limpa as ruínas do passado
e promete um futuro mais belo.
Eis a essência da minha poesia
o conteúdo das minhas palavras
o sentido que diriam insensato das minhas confissões
chuva de fogo
e tilintar de estalactites
que segundo a lei dos contrários
vivem lado a lado simultaneamente
e do mundo povoam
conhecidos desconhecidos
domínios.

II.
Não só o coração conta agora
nem somente a língua.
Água azul de meus olhos
branco duro de meus dentes
clássica estrutura de meu corpo
intangível matéria de meu espírito
milhões de cabelos da minha cabeça
dez dedos das minhas mãos
como de uma orquestra
dez músicos possuídos
tocam em uníssono
dando novas de mim
ao mundo.
Canto
na luz
e na sombra
por todos os que nasceram infelizes
ou cedo encontraram a infelicidade
pelos surdos
pelos cegos
pelos sem fé
pelas vítimas ingénuas
pelos que do cimo das montanhas saltam para a morte
e também pelos que não ousam sair das grutas.
Assim canto
para que outrem
ecoe no fundo do seu destino
e seja capaz de partir
para a margem
onde o útero do nosso tempo está em parto
onde germina a semente lançada à terra
onde a porta do celeiro não suporta cadeado
onde o pastor não abandona seu gado
onde o homem reconhece o próximo
nas mãos toma
a matéria
as ferramentas
e cria
do sentido da sua vida
vermelhos de sangue
negros de dor
signos.
1963

RETRATO DE OPERÁRIO
Munkásportré

Esta cabeça Deus não a formou à sua imagem
esta cabeça atormentam-na recordações de ontem e dúvidas de hoje
nesta cabeça germinam sementes da revolução
esta cabeça há muito que tem à espreita o carrasco
estas mãos da criação ideias guiam
estas mãos cuja esquerda abençoam e cuja direita amaldiçoam
estas mãos abatem-se e edificam ao mesmo tempo
estas mãos trazem marcas de algemas
estas mãos não se unem em oração
estas mãos têm aversão ao sangue
estes pés não escorregam em casca de laranja
estes pés enlaçam Ocidente e Oriente
estes pés esmagam as sete cabeças do dragão
estes pés desembocam em paisagens que a cabeça sonha
este coração sofre com as armas dos tiranos
este coração renasce das suas próprias cinzas
este coração é gémeo do meu coração
este homem é como sou eu
em uníssono sob o céu
em uníssono cantamos
canção
sobre as sementeiras
sobre a ceifa.

Tradução de Ernesto Rodrigues

 

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