Juhász Ferenc (1928-2015) – Um dos poetas húngaros mais destacados da época contemporânea

por Pál Ferenc

A sua carreira literária começou em 1948, quando o número de Natal do Diárium publicou os seus dois primeiros poemas. O seu primeiro livro de poemas, o Potro com asas, foi publicado pela Sociedade Franklin em 1949 e por este livro foi-lhe outorgado o Prémio Baumgarten. Em 1950 recebeu o Prémio Attila József pelo seu livro A Família Sántha, e um ano mais tarde o Prémio Kossuth pelo seu poema narrativo Meu Pai. Posteriormente, tornou-se cada vez mais consciente dos verdadeiros problemas políticos e económicos do país, e a sua vida privada foi também ensombrada. A sua visão poética também mudou, como ilustra o volume de poemas Hino ao Voo. A revolução linguística na sua poesia veio com O País Pródigo. As suas imagens visionárias, o seu esboço meticuloso da expansão da natureza, tornou-se uma característica importante dos seus trabalhos posteriores.

DIA DE SUPERSTIÇÕES, QUINTA-FEIRA: QUANDO É O MAIS DIFÍCIL

Babonák napja, csütörtök: amikor a legnehezebb

Ao terceiro dia é o mais difícil, ao terceiro.

Divago, distraído, nesta ilha de pedra e electricidade:
o Octógono.
É quinta-feira à tarde.
Não me amaldiçoo.
Não me lamento.
Chuva a cântaros – azul, amarela, verde, vermelha.
A meus pés, ribeiros irisados de óleo
e bolhas de chuva acumuladas.
Quais olhos de rendilhadas bilhas de barro
de camaleões de pele ágil,
rolam os olhos de membranas aquosas
que pululam.
Sua pele de mica aveludada enruga, move-se,
muda cor atrás de cor.
Os lagartos de chuva de crista vermelha sobem uns pelos outros.
Esta praça é a ilha Galápagos
da florida solidão da pedra.

Estou só.

A praça gira, como roda gigante iluminada;
seus navios: táxis, autocarros, eléctricos;
janelas: as vitrinas;
putas: os gladíolos de sexo descoberto.

Chuva a cântaros – azul, amarela, verde, vermelha.

Gritam os ardinas.
Calam os vendedores de flores.

Por sobre árvores, tectos, chaminés, estruturas metálicas levantam
as luminosas flores animais do silêncio,
os seres-instantes da noite,
seus monstros de electricidade.

Meu coração vê seu destino, estendendo-se no céu:
como gigantesco encéfalo multicolor,
mapa luminoso vibra sobre mim:
Hungria.

Os pontos fosforescentes das aldeias e cidades:
células cerebrais, gânglios da medula;
os rios de electricidade: as artérias azuis –
fulguram suas circunvoluções.

Ai, homens!

Ao terceiro dia é o mais difícil, ao terceiro.

Não me amaldiçoo.
Não me lamento.

E aqui, e além, na chuva florescem
o tecto, a parede, o céu:
na teia luminosa, breve aranha de luz,
e, movendo-se em cintilações de luz,
a folha de mimosa dos anúncios
abre-se, roda, contrai-se,
qual cabeça de anémona dos mares profundos
quando ondula,
tacteia.

Socorre-me, humanidade!

E sob os fetos de cristal da chuva,
como fósseis de celofane,
capas de nylon, gabardinas de borracha
frufrulham, vibram, incendeiam-se.

Mulheres enfiadas em pele de lagarto,
homens enfiados em pele de serpente.

E têm fome.

E têm sede.
Amontoam
seus rostos azuis, verdes, amarelos, vermelhos.

Quem sabe que estou aqui de pé, tiritando?
Para quem comprarei flores agora?
Onde estão os bons amigos?
Quem me ouvirá, se gritar?

Olho a chuva,
à tua procura.
Chamo-te com palavras que azulam.

E com linhas de luz
vermelhas, amarelas, verdes,
uma gigantesca caneca de cerveja
desenha na chuva a noite.
Nasce, caindo na morte.
Em caneca de ouro espumeja cerveja de ouro,
caneca de ouro vomita feixes eléctricos.
Flui no empedrado viscoso
a espuma fosfórica, fósforo eléctrico.

Para onde vou?
O que canto?

“Livra-me, Senhor, do mal!”

Ao terceiro dia é o mais difícil, ao terceiro.

Devia fugir.
Aqui devia quedar-me.

Vagueio na espuma de cerveja eléctrica.
Gritaria, como criança que deseja qualquer coisa,
gritaria, mas todos se ririam.
E treparia sobre ti, Hungria com redes de veias eléctricas,
deitar-me-ia em teu cérebro de néon,
para que, através de costelas translúcidas,
vissem meu coração inchado.
Que é teu.

Mas não é permitido. Mas não se pode.

Ao terceiro dia é o mais difícil, ao terceiro.

Eu não grito,
não lanço maldições,
só estou parado na irisada selva da chuva,
inflamam-se na minha boca palavras da avó:
“Livra-me, Senhor, do Unicórnio, do Pássaro de quatro seios,
livra-me, Senhor, do Carneiro com escamas, da Flor que uiva,
livra-me, Senhor, da Rã que ladra, do Anjo com cascos,
livra-me, Senhor, livra-me do mal!”

Mas a quem balbucio, a quem falo?
A quem salvará da morte este canto?
Que eu, rindo-me, de deus reneguei,
com um ramo de espinhos bati-lhe na virilha, e fugi.
Subi minha chama grande como deus:
nela se abrasam insectos-universos em salivações membranosas,
em verdes crepitações de lágrimas, em verde borbulhar.

E agora entrelaçam minha cabeça
as vermelhas, azuis, verdes raízes eléctricas.
Para mim corre a barba lilás caindo de homem eléctrico,
qual feixe de tentáculos me estrangula e envolve.

Só tu me podes ajudar, bem sei.
Ao terceiro dia é o mais difícil, ao terceiro.

O que quero?
O que queria?

Arranhando-me, entrei no teu coração,
como, no fogo da mina no ventre da terra-
-mãe, o pequeno soldado de rosto hirsuto:
sobre ele, caveiras de luz,
folhas metálicas;
à volta, repuxos de rubi; moscas de sangue,
abismos de estalagmites de carne, lianas de palpitantes veias,
pálpebras de arco-íris, flores de globos oculares girando.

Como embrião,
acocoro-me, todo enroscado,
em tua selva sangrenta, palpitante:
balançam-me as costelas em terno movimento,
golpeado na crepitação de tua cascata de sangue, o vibrar oleoso, encrespado,
dos intestinos,
oiço como trabalham, fervem
o fígado, os rins, os pulmões, o fósforo,
meus olhos abertos vêem tua noite interior,
e sentem teu corpo albejando
meus olhos-antena-tentáculo.
És meu espaço cósmico, e mar profundo.

Estou só.

Estou comigo.

Chuva a cântaros – azul, amarela, verde, vermelha.
Giram, do fundo saindo, os animais de luz.
E a Hungria, medusa eléctrica,
o cérebro do mar, ondula sobre mim,
e nada a medusa do espaço cósmico: o globo terrestre
no golfo da Via Láctea.

Eu creio
que tirarás suave crisálida,
se construirá tua fé,
e abrirás tuas asas de áureo mosaico,
soltando-as do pegajoso, baboso e brando,
secará e solidificar-se-á sua estrutura de quitina,
secará, estirando-se, sua membrana,
para que saias, palpitante, do lodo de veias azuis,
e, silenciosamente, o útero do tempo fechará.
Porque sei que meu destino é teu destino.

Aqui estou, sozinho.
Cabeça molhada inclino.

Ao terceiro dia é o mais difícil, ao terceiro.
É noite de quinta-feira.
Não me amaldiçoo.
Não me lamento.

E dirijo-me para casa, molhado, prometido à vida,
na chuva azul, verde, vermelha, na era do socialismo.

Tradução de Ernesto Rodrigues

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