József Attila (1905-1937) II.

por Pál Ferenc

O tradutor, Ernesto Rodrigues escreve sobre József Attila:

József Attila (1905-1937) nasce em bairro proletário de Budapeste e, com a mãe e duas irmãs – mal conhece o pai, que se expatria -,experimenta a miséria aguda, que julga vencer na solidariedade do Partido Comunista, clandestino, com o qual se há-de incompatibilizar. Se associarmos a expulsão da Universidade de Szeged, perdas no amor, humilhações e fome, enquanto a mãe definha à sua vista, como espantaria um destino assim trágico sob comboio, após outras tentativas de
suicídio, e versos que eram vaticínios?

Vagueia pela Europa, abrindo por Viena, junto da emigração intelectual que falhara nos 133 dias da República dos Conselhos (ou dos Sovietes): aí associa, às formas regulares que nunca abandonará, as virtudes do verso livre expressionista, já surrealista e anarquizante quando estudar na Sorbonne, onde, conviva de Tristan Tzara ou Éluard, publicando em L’Esprit Nouveau (Abril de 1927), bebe em Hegel, Marx e Freud.

Imagem de nação desvalida entre duas guerras perdidas, os bairros operários têm, enfim, voz, neste cantor de subúrbios. Mas esta poesia, se política – com apelo final, já em 1937, a Thomas Mann -, explicita-se menos que a de Pet?fi; joeirada, mais se denuncia uma solidão estreme, apesar de instantes luminosos.

SALMO SILENCIOSO DA NOITE
Csöndes estéli zsoltár

Oh, Senhor, não sei martelar em rimas Tua glória.
Com lábios simples digo meu salmo.
Mas, se não queres, não escutes as minhas palavras.
Sei que a erva é verde, mas não compreendo – verde para quê, para quem
é verde?
Sinto que amo, mas não sei que boca a minha queimará.
Oiço que sopra o vento, mas não sei – sopra para quê, quando eu estou
triste?
Mas, se não Te agradam, não atendas às minhas palavras.
Queria só, de modo simples e primitivo, dizer-Te agora
que também eu existo, e existo aqui, e Te admiro, mas não Te compreendo.
Porque Tu não precisas da nossa admiração, nem dos nossos salmos.
Porque ferem Teus ouvidos, talvez, as rumorosas e eternas súplicas.
Porque não sabemos mais do que implorar, e humilhar-nos, e pedir.
Um simples escravo Teu é o que sou, a quem podes oferecer, inclusive, o
Inferno.
O Teu domínio é infinito e és poderoso e forte, e eterno.
Oh, Senhor, oferece-me um pouco de mim mesmo.
Mas, se não queres, não escutes as minhas palavras.

ESPERO-TE
Várlak

Espero-te sempre. A relva está orvalhada,
esperam também as grandes árvores de orgulhosas copas.
Rígido estou e tremo também às vezes,
sozinho como a noite em calafrios.
O prado, se viesses, tornava-se corredor liso
e silêncio seria. Um grande silêncio.
Mas música ouviríamos, misteriosa,
cantariam nos lábios nossos corações
e lentos, corados, nos fundiríamos
em altar cheiroso ardendo
para o infinito.

PORQUE ME DISSESTE COISAS MÁS
Miért mondottál rosszat nékem

Porque me disseste coisas más?
Eu não te fiz mal, amigo;
se por algo te enfureceste,
do coração te peço desculpa
e gostava que agora comigo
viesses ver os lenhadores
e juntos nos deitássemos no bosque,
folhas ondulantes por cima de nós,
de fundo fresco marinho céu olhando,
onde ternas nuvens se cobrem de folhas.
Tomar-nos-ia pelo braço uma grande calma,
e seria para nós muitíssimo bom,
que triplo é o bem quando dois o recebem;
gostava, por isso, que tu comigo
estivesses, enquanto um sino à noite se ouve,
os cardos cortamos um do outro, e a casa
lassos voltamos, tal cavadores, operários
mudos, que à força pacífica das terras
sementes lançaram, que rendem cem vezes.

Traduções de Ernesto Rodrigues

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