Lembrança de Manuel Bandeira num outono de Lisboa
“Meus pedestres semelhantes”,
escreveste; mas eu, baleeiro da fome
sob a unção do frio,
tão aéreo cicerone me fizeram
estes claros dias de outubro.
Um tostão de azul (coisa pouca
apenas p´ra com sul rimar)
nos tetos frios do outono
ao mais triste de mim
leva a trémula consolação da cor.
Nos pátios caligráficos, ruivos amores
reinvento (hermeneuta sou dos segredos
que soterra o tempo) e virentes acenos
à pura noiva imaginada.
Real, porém, a mulher longeva
vendendo hortaliças
na viela fagulhante de turistas.
(Eu também já estive pelas suíças,
mas a apanhar morangos e castiças).
E vendo assim Lisboa (so beautiful)
assalta-me a lembrança de um outro azul
— sob suas fímbrias plantei
renques de acácias e tabuletas alusivas;
sob seus desdoirados ramos
desamores lamentei,
que não sou amigo do rei,
nem cheganças com deuses hei.
Mas se é de sua lei
que, embora triste, seja altivo amigo
da grei, tal sina não maldigo;
talvez mesmo comigo diga:
grato estou a estes claros dias
em que das lágrimas fiz maravilhas.
José Luiz Tavares (Chão Bom, Ilha de Santiago, 10 de junho de 1967)
José Luiz Tavares passou a sua infância no Município do Tarrafal, Ilha de Santiago, tendo ido viver para a cidade da Praia, de forma a frequentar o ensino secundário (ensino médio). No Liceu Domingos Ramos, co-fundou e dirigiu em 1987 a publicação juvenil Aurora. Colabora depois com a revista Fragmentos fundada em 1987 pelo Movimento Pró-cultura, do qual se torna membro. Alí publica o pela primeira vez um conto, “Quotidiano cinzento” além de vários poemas. Publicou também em 1988 alguns poemas na antologia Mirabilis – de veias ao sol editada por José Luis Hoppfer Cordeiro Almada.
Em 1988 ingressou no curso de Literaturas Modernas e Filosofia da Universidade Nova de Lisboa, com uma bolsa da Fundação Calouste Gulbenkian. Viveu em Lisboa, entre familiares e conterrâneos, na Pedreira dos Húngaros. Foi colaborador regular do suplemento DN Jovem com a publicação de poemas e curtas ficções, próximas do poema em prosa
A sua obra é marcada por uma reflexão metapoética, com uma influência formal de carácter barroco na complexidade das estruturas utilizadas e erudição do vocabulário. Escrevendo maioritariamente em português, publicou também em crioulo cabo-verdiano, tendo vindo a efetuar várias traduções de poesia do português para a língua cabo-verdiana, não só da sua própria obra, mas também da de poetas como Fernando Pessoa e Luís Vaz de Camões. (Wikipédia)
Primeira obra de José Luiz Tavares em cabo-verdiano chega no verão e “textamento” poético em 2022 (Lusa)
A primeira obra escrita direta e integralmente em língua cabo-verdiana pelo poeta José Luiz Tavares será editada no verão, anunciou o escritor, que está a preparar para 2022 o lançamento do seu “textamento” poético.
“Estou a finalizar uma grande obra escrita direta e integralmente em língua cabo-verdiana, a primeira que assim escrevo, e que deverá ser editada ainda este verão”, disse José Luiz Tavares, numa entrevista por escrito à agência Lusa.
A obra contará também “com recriações visuais” do artista plástico cabo-verdiano Tchalê Figueira.
“Espero, [que] venha a ser uma bomba política e cultural, e mais não posso avançar”, adiantou.
O escritor e poeta cabo-verdiano falava à Lusa a propósito do lançamento da “Odi Marítimu”, do heterónimo de Fernando Pessoa, Álvaro de Campos, que traduziu para língua cabo-verdiana e cujo lançamento está marcado para terça-feira, em Lisboa.
Para 2022, ano em que fará 55 anos, anunciou o lançamento do seu “textamento” poético, “um terno, quezilento e sulfuroso texto, escrito, em português, durante o primeiro confinamento” e traduzido para a língua cabo-verdiana.
Além destas obras, José Luiz Tavares tem também “entre mãos” a tradução e organização “de uma grande antologia” dos poemas de Álvaro de Campos, onde a “Ode Marítima” terá uma nova versão, e que deverá sair no outono.
“Assim que a antologia estiver fechada devo avançar para a tradução do ‘Discurso Sobre o Filho da Puta’, tão instrutivo e tão atual, do meu velho professor e vivo mestre, Alberto Pimenta, e lá mais para a frente pegar no ‘Livro do Desassossego’, de Bernardo Soares, e ainda retomar a adaptação da ‘Odisseia’ para cabo-verdiano, que está estagnada há meia dúzia de anos no Canto X”, revelou.
O poeta diz ter um “projeto particular” de tradução para língua cabo-verdiana para os próximos dez anos que espera cumprir, apesar da falta de tempo e alguma dificuldade de meios.
“Existem programas de financiamento, mas falta-me um editor que queira concorrer a esses programas. O meu editor atual não tem capacidade para tudo, já faz muito, até mais do que as próprias autoridades competentes do meu país. O que eu consigo fazer é roubado ao tempo de criação da obra própria, nos intervalos das labutas para que não faltem o pão e o leite”, disse.
O escritor, que considera o cabo-verdiano como a verdadeira língua oficial de Cabo Verde, defende a sua “oficialização plena e em paridade com a língua portuguesa oficializada” e critica a “atuação negligentemente criminosa” das autoridades do país, passadas e atuais, nesta matéria.
“Gostaria que […]o governo do meu país tivesse um programa de enquadramento para a tradução de grandes clássicos doutras línguas, mas esta deve ser uma ilusão da minha cabeça”, disse.
“De um governo que eliminou criminosamente os bem-sucedidos programas experimentais de ensino bilingue que decorriam em diferentes regiões do país, e com perspetivas de serem alargados, e que quando comunica em cabo-verdiano por escrito fá-lo numa garatuja clandestina, violando as suas próprias leis e resoluções soberanas, nada de positivo, no que concerne à língua cabo-verdiana, se deve esperar”, criticou.
José Luiz Tavares nasceu a 10 de junho de 1967, no Tarrafal, ilha de Santiago, em Cabo Verde, e estudou literatura e filosofia em Portugal, onde vive.
Publicou o seu primeiro livro “Paraíso Apagado por um Trovão”, em 2003, tendo sido distinguido desde então com vários prémios literários, incluindo o Prémio Mário António de Poesia 2004, atribuído pela Fundação Calouste Gulbenkian, e o Prémio Imprensa Nacional Casa da Moeda (INCM)/Vasco Graça Moura (2018) pelo seu trabalho “Instruções para Uso Posterior ao Naufrágio”.
Publicou, entre outros, os livros “Agreste Matéria Mundo” (2004), “Lisbon Blues seguido de Desarmonia” (2008), “Cabotagem&Ressaca” (2008), “Cidade do Mais antigo Nome” (2009), “Coração de lava” (2014), “Contrabando de Cinzas” (2016), “Polaróides de Distintos Naufrágios” (2017) e “Rua Antes do Céu” (2017).