John Bolton entrevistado pela rádio húngara Klub Rádio

por LMn

John Bolton, ex-conselheiro de Trump: o presidente não queria entender os perigos da epidemia do coronavírus

Klub Rádio / Entrevista (excertos) de Judit Csernyánszky

Donald Trump não tinha estratégia política, sua política era apenas sobre ele mesmo, julgando tudo e todos através de suas relações pessoais. Ele basicamente não tinha conhecimento da ameaça estratégica representada pela Rússia e pela China, mas o seu maior erro foi não querer ver o quão perigosa era para o país a nova epidemia de coronavírus – visão de John Bolton da sala onde as grandes coisas aconteceram, na Casa Branca quando ele era conselheiro de segurança nacional de Trump.

O diplomata disse ainda: “temos sérias preocupações com a Hungria” devido à crescente influência russa.

John Bolton por ordem, foi o 27º Conselheiro de Segurança Nacional dos EUA na Casa Branca até 2019, quando foi demitido pelo Presidente Trump. Não foi o primeiro nem o último com quem Trump não encontrou a linguagem comum apesar de Bolton ter a reputação de um verdadeiro republicano – nos meandros da política norte-americana. Bolton foi o Embaixador da ONU na presidência  de George W. Bush, e já tinha estado em diversos cargos de destaque na era de Reagan. Desde que Trump não admite a sua derrota, Bolton tem feito sua voz ser ouvida cada vez com mais força.

A minha primeira tem a ver com as suas afirmações de que é chegado o momento em que o Partido Republicano terá que finalmente mostrar sua verdadeira face, seu verdadeiro caráter. O que você quer dizer com isso?

Houve uma luta muito dura na eleição entre os dois candidatos, mas acho que o resultado já está claro, Joe Biden foi eleito presidente. No entanto, não contesto que o Presidente tenha o direito, dentro dos limites previstos na lei, de aproveitar todas as oportunidades para questionar o resultado. Isso também significa que você precisa provar se afirma que a eleição foi fraudulenta. Deve haver algo por trás de sua afirmação, você não pode simplesmente falar como se o mundo fosse cego. E deve apresentar pelo menos algumas evidências que o tribunal aceitará. Mas pelo que acabei de dizer, os republicanos deveriam convencer o presidente disso. Até porque ele e seu colaboradores mais próximos não foram capazes de apresentar, até agora, nenhuma evidência tangível. O que estamos atualmente a assistir, não é do interesse nem do país nem do Partido Republicano. As alegações de Trump são totalmente infundadas. Chegou o momento em que os republicanos deveriam finalmente ser informados de que é realmente uma coisa desagradável perder, mas é o caso. Aliás, seus resultados não foram muito maus, nem na Câmara dos Comuns, nem no Senado. É por isso que devemos convencer o presidente a admitir a sua derrota.

O governo Trump queria impedir a publicação de seu livro recentemente publicado (The Room Where It Happened). Conte-nos como foi, como você conseguiu superar os obstáculos tão bem?

O presidente sabia muito bem que meu livro o criticava porque eu entreguei-lhes uma cópia para uma rápida revisão pouco antes de ser lançado, embora muitos me disseram para ter cuidado e não o fazer. Eu não seria obrigado a tal mas eu queria ter certeza de que as informações ultrassecretas e não confidenciais não fossem divulgadas. Porque de propósito, eu não tinha a intenção de divulgar essas informações por acidente. Foram 4 meses de trabalho, fiz várias mudanças que me pediram porque queria ser correto e que ficassem contentes. Nada me obrigava a fazer isso. E depois de tudo isso, ele ainda entrou com uma ação contra mim para impedir que o livro fosse lançado, mas o tribunal indeferiu sua ação. O processo judicial continua até hoje, mas reservei-me o direito de publicá-lo, já aconteceu e já foram vendidos mais de um milhão de exemplares do livro.

Eu só posso lhe posso dar os parabéns por isso. Qual foi o momento em que você percebeu que este não era o homem que imaginava como presidente?

Levei muito tempo para em mim mesmo, concluir  que tipo de pessoa ele é. Comecei a trabalhar com ele em abril de 2018 e confiei que com o tempo iria crescer e cumprir as suas tarefas. Que ele acabaria por entender o que significa responsabilidade presidencial, como aconteceu com todos os outros presidentes na história americana. Fiquei terrivelmente desapontado quando percebi sua incapacidade de entender a seriedade do trabalho e nunca se tornaria um bom Presidente. Infelizmente, a luz de advertência não acendeu para ele, aconteceu o contrário do que esperava.

Qual foi o maior erro que Trump cometeu durante sua presidência?

Acho que ele basicamente não soube da ameaça estratégica representada pela Rússia e pela China. Ele também não entendeu a presença de armas de destruição em massa na posse do Irão e Coreia do Norte – sejam nucleares, biológicas ou químicas. Mas seu problema mais sério e seu maior erro foi não querer perceber a ameaça que a nova epidemia de coronavírus representava para o país. Ele não queria perceber que era, de qualquer maneira, prejudicial para a economia, mesmo que enfiasse a cabeça na areia. Não fez nada para aliviar a epidemia e suas consequências.

Escreve no livro que ele não sabia onde colocar a Finlândia

Sim, perguntou se a Finlândia ainda pertence à Rússia. Ele achava que a Venezuela era parte dos Estados Unidos. Ele também não sabia que Grã-Bretanha tinha armas nucleares.

Como?

Perguntou diretamente a Theresa May enquanto eles se sentavam à mesa de negociações em Chequers, a residência de campo dos primeiros-ministros.

Trump realmente pediu ajuda a Hsi Qin-ping para sua reeleição?

Foi outro diálogo incrível. Trump queria fazer algo terrivelmente grande e por isso pediu ao presidente chinês em dezembro de 2018 para comprar produtos agrícolas americanos em grandes quantidades. Eles concordaram com isso em janeiro, mas os chineses “naturalmente” não cumpriram a promessa. Para mim, o problema foi pedir a um dos líderes mais autoritários do mundo que o ajudasse a ser reeleito em 2020.

O Presidente Trump e Viktor Orbán também são bons amigos. O que você sabe sobre essa estreita relação?

O presidente geralmente julga o seu relacionamento oficial com um estado estrangeiro pelo prisma de seus relacionamentos pessoais. Na verdade, posso apenas confirmar que a relação entre Orbán e Trump é boa, mas, ao mesmo tempo, temos sérias preocupações em relação à Hungria. País que é aliado da OTAN e outrora dependente da esfera de influência da União Soviética, agora  “influenciado pelos russos”, o que também significa que a influência russa e as ameaças militares se espalharam pela Europa Central e Oriental. No entanto, como estamos juntos e aliados na OTAN, a influência russa deve ser evitada. Não esquecer que os russos estão a usar sua influência para enfraquecer a NATO, para criar conflitos entre os seus estados membros, para provocar hostilidade, e este é o país que, como sabemos “influenciou as eleições presidenciais dos EUA”.

Ouvimos várias vezes que Trump e Orbán são conhecidos como líderes autocráticos. Você concorda?

Eu não diria que Trump é um líder autoritário, embora ele realmente pudesse ser, mas não acho que ele esteja lá ainda. Quanto à Hungria, só posso esperar que prevaleça uma governança livre e representativa. Cada país está organizado em um sistema diferente, o que é bom. Há 25 anos, conhecemos Viktor Orbán como um dos democratas liberais, pelo menos é assim que me lembro. Espero que ele não tenha esquecido completamente o que significa ser um democrata liberal.

Avaliando o que ele disse como uma piada, eu pergunto, a queda de Trump também leva a queda do populismo no mundo?

Não acho certo chamar Trump de populista. Sei que às vezes é classificado como tal na Europa, até mesmo nos Estados Unidos. Principalmente porque um populista tem sua própria opinião e filosofia do mundo, e Trump não tem filosofia populista. Trump não tem estratégia política, além do mais, não tem ideias políticas. Sua política é tudo sobre ele, sua própria personalidade. O populismo é um fenómeno nos Estados Unidos há uns bons cem anos. Mas o que posso escrever  é que Trump conquistou os trabalhadores manuais para o Partido Republicano. Esta é uma grande conquista. Reagan teve sucesso semelhante ao se dirigir à classe trabalhadora nos anos 80, e eles eram então chamados de Reagan democratas. O Partido Republicano foi tradicionalmente classificado como Partido dos Ricos, mas agora estamos lá para fazer do Partido Democrata o Partido dos Ricos. Pessoalmente, estou muito feliz em conhecer os operários no nosso partido, há cada vez mais deles, mas seria muito importante recuperar os eleitores que Trump fez perder ao Partido Republicano.

 

Entrevista na íntegra em húngaro

https://www.klubradio.hu/adasok/trump-volt-tanacsadoja-az-elnok-nem-akarta-felfogni-a-koronavirus-veszelyeit-114716?fbclid=IwAR3w6BleG-cTOTMJo4YClVlm8HoXkcSRBGr5dT1t23DGMseVNGws2_ZVvTI

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