Joaquim Pimpão. O nosso homem em Budapeste

por LMn

Joaquim Pimpão chegou em 1979 à Hungria com uma bolsa para estudar Economia. Apaixonou-se pelo país, assistiu ao fim do comunismo, criou uma família luso-húngara e passou a trabalhar para o AICEP. Agora é um dos rostos do LusoMagyar News, projeto que quer ir além das ideias feitas e mostrar o muito que une dois dos países mais antigos da Europa.

O Dia Nacional da Hungria, que celebra Santo Estêvão, o rei que fundou a nação através da conversão ao cristianismo no ano 1000, foi celebrado na quinta-feira de uma forma especial pela comunidade portuguesa na Hungria e por todos, lá e e cá, envolvidos na relação entre dois dos países mais antigos da Europa, a criação do LusoMagyar News.

E um dos nomes a reter é esse filho de Amiais de Baixo que um dia, militante da UEC, ganhou uma bolsa de estudo na Universidade de Economia Karl Marx de Budapeste, depois apaixonou-se pela húngara Eszter, teve três filhas e um filho dos quais se orgulha serem bilingues e de torcerem pela seleção de Cristiano Ronaldo (e pela de polo aquático húngara), assistiu de perto à desintegração do Bloco Soviético e à democratização da Hungria e, desde 1988, representa o AICEP no país da Europa Central: Joaquim Pimpão.

“Fui, como muitos outros jovens que cresceram com a liberdade resultante da Revolução de Abril, um militante revolucionário, no meu caso, membro da UEC – União dos Estudantes Comunistas e do PCP, razão porque depois recebi uma bolsa de estudo para a Hungria. Cheguei em 18 de setembro de 1979. Ser estudante numa cidade maravilhosa como Budapeste – não se esqueça de que vinha de uma calorosa mas pequena cidade, Santarém, onde estudei no liceu – foi a sorte da minha vida, e que a mudou totalmente. Viver num país classificado como “socialista” permitiu-me sentir, ver, falar, ler… aprender muita coisa, saber o que não queria, definitivamente…”, conta .

O meu primeiro contacto com o delegado da agência externa portuguesa de investimentos terá sido um e-mail a alertar-me de uma cerimónia de homenagem em Budapeste a Jenö Hubay, um grande compositor húngaro da primeira metade do século XX, cuja família foi perseguida pelo regime comunista e se exilou em Portugal. Pimpão tinha lido um artigo meu no DN sobre László Hubay-Cebrián, que é neto do músico e vive em Portugal desde os 5 anos. Depois disso, através do Facebook, descobri até que ponto o representante do AICEP é mesmo o nosso homem em Budapeste, promovendo entre o seu círculo de amizades tudo o que é português, seja o bom vinho ou a grande literatura. Um dos seus amigos é, aliás, Ferenc Pál, académico que tem traduzido Fernando Pessoa para magyarul, a língua húngara, e que escreveu agora para o LusoMagyar News um artigo sobre as relações luso-húngaras que até fala de uma origem húngara dos reis portugueses, ponto que Luís Vaz de Camões refere n’Os Lusíadas. E tanto Jorge Roza de Oliveira, embaixador português em Budapeste, como Miklós Halmai, embaixador húngaro em Lisboa, saudaram o site.

Também Pimpão, o homem das economias, tem uma faceta literária, ou melhor, um pseudónimo, que usa como poeta. E foi assim que, um dia, recebi por correio um livro de Pedro Assis Coimbra. “Escrevi muito entre 1974 e 1987. Desse tempo fiz uma seleção, o restante serviu de acendalha no meu fogão de sala, claro que estou arrependido… E publiquei um livro em 2008, quando fiz meio século, As Palavras Que Ficaram. Dez anos depois, voltei a publicar As Palavras Continuam, e se cá estiver em 2028, publicarei Com as Palavras até ao Fim.

E por falar em pseudónimos, para este artigo Pimpão revelou um outro, que, eu, de repente, percebi ter lido muitas vezes: “Estávamos em 1990 e entretanto surgiu o diário Público, e o meu amigo do Expresso Carlos Santos Pereira, editor de internacional do novo jornal, desafiou-me para ser correspondente. Não consegui dizer não e durante dois anos, como András Gellei, escrevi bastante. Escolhi um nome húngaro, porque como Joaquim Pimpão já tinha estatuto de diplomata, e pareceu-me ser essa a forma mais correta de lidar com a situação”, relembra. Houve uma outra experiência jornalística, também com nome alternativo, acrescenta: “Em 1984, contratado pela Federação Húngara de Futebol, fui o tradutor da seleção de juvenis que veio jogar a fase de qualificação que decorreu na Hungria, era o treinador o duplo campeão europeu pelo Benfica e magriço José Augusto, e o adjunto o professor Carlos Queiroz. Foi muito bonito, apesar de que não fomos apurados. O enviado da A Bola era um jovem, que se punha logo a escrever numa mesinha junto ao relvado… Rui Santos, que não só me fez uma entrevista como me convidou para A Bola. Durante dez anos, como Fernando Lopes, fui o correspondente em Budapeste.”

Pimpão conta que gostaria de ter sido jornalista de política internacional, “sobretudo queria ser um especialista na América Latina e no Médio Oriente, um sonho desde criança, pois além do desporto, do futebol de A Bola, lia o DN – como passava parte das férias na minha aldeia, Amiais de Baixo, e o meu tio Zé tinha o café-taberna Cova Funda, era eu que ia à farmácia levantar o DN e A Bola. Recordo a surpresa do meu professor de Português no liceu quando perguntou no primeiro dia de aulas, em outubro de 1973, qual tinha sido a notícia mais importante de que nos lembrávamos. Respondi das mais recentes, o golpe que derrubou e matou Salvador Allende, presidente do Chile.”

Para quem assume uma paixão pela política, viver na Hungria na década de 1980 foi uma experiência inesquecível. “A MKKE, a universidade, era naquela época um dos polos principais quer da reforma do regime por dentro quer da sua implosão. Recordo quando Géza Jeszenszky, professor de História da Diplomacia e mais tarde ministro dos Negócios Estrangeiros do primeiro governo democrático, em 1990, com um gravador de bolso, passou o último discurso do primeiro-ministro mártir Imre Nagy, em outubro de 1956, apelando à ONU para ajudar a Hungria. Momento de emoção, difícil de explicar em palavras. Colegas meus não contiveram as lágrimas. Estamos a falar de 1982-1983, era preciso coragem”.

Pimpão foi ficando na Hungria, como bolseiro da Academia de Ciências, com o tema de investigação “Comparação da integração na economia mundial da Hungria e Portugal”. E a tese está por acabar porque surgiu o convite pelo então embaixador, Zózimo Justo da Silva, para abrir em Budapeste o escritório do antepassado da AICEP, o ICEP, subdelegação de ICEP – Viena.

“A Hungria é muito mais do que a imagem que passa em Portugal. Há uma unanimidade de aproximação à Hungria de hoje que não reflete a diversidade, as outras opiniões, a riqueza cultural, as vicissitudes históricas, a tradição europeia vs. país-tampão, de passagem e interesses das grandes potências entre o Ocidente e Oriente, etc. E outra nota importante: há uma grande empatia na Hungria por Portugal”, diz Joaquim Pimpão, justificando a pertinência do LusoMagyar News, pois há muito para perceber sobre o país além das polémicas entre a UE e o primeiro-ministro Viktor Orbán.

 

Por Diário de Notícias

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