João Rui de Sousa (Portugal)

por João Miguel Henriques

Eu ia devagar.
Caminhava por dentro dos rochedos e seguia
o acre fio das algas particulares
que eu – ao mesmo tempo comovido e cansado-
lambia como se sustento fossem
de um viagem longa, atribulada.

No som vertiginoso que se ouvia
e ecoava desde muito longe
até às grandes e clamorosas aberturas
descidas de repente sobre o mar,
sentia-me a pairar no coração das turfas
que se vestem de alegria.

Ou seja,
que brandamente seguem a luz íntima
que vai da consciência à temperança.

Em vão eu tentaria ali lembrar (recuperar)
as outras tristes músicas:
o deve e o haver doutros tumultos
e mesmo as renúncias que são dores
que roem todo o corpo e o desgastam.

Eu ia devagar.
Passava por caminhos que, de facto,
poisos eram, clamorosas aberturas.

E dissolvia-me no mar.

João Rui de Sousa (1928-2022), poeta e ensaísta, nasceu em Lisboa. Depois de frequentar a Escola Prática de Agricultura D. Dinis (Paiã, Odivelas), onde concluiu o respetivo curso, licenciou-se em Ciências Históricas e Filosóficas, pela Faculdade de Letras de Lisboa. Fez parte da direcção da revista Cassiopeia (1955), onde, com dois poemas e um ensaio, fez a sua estreia literária.

No que respeita à actividade ensaística, pode destacar-se o exercício da crítica de poesia em diversos jornais e revistas (sobretudo em A Capital, JL, Colóquio-Letras), bem como a publicação de alguns estudos (nomeadamente sobre Fernando Pessoa, Mário Saa, Casais Monteiro e António Ramos Rosa). Desempenhou durante alguns anos funções de investigador na Biblioteca Nacional. No domínio da criação poética, tem colaboração em avultado número de jornais e revistas, assim como de antologias e volumes colectivos.

A partir de 1960, em que fez sair e A Hipérbole na Cidade, publicou cerca de duas dezenas de volumes de poesia. A sua Obra Poética (2002), prefaciada por Fernando J. B. Martinho, reuniu toda a poesia editada entre 1960 e 2000, tendo-lhe sido atribuídos prémios da Associação Portuguesa dos Críticos Literários e do PEN Clube Português. Posteriormente, vieram a público Lavra e Pousio (2005) e Quarteto para as Próximas Chuvas (2008), sendo este último título distinguido com os prémios “Teixeira de Pascoaes” e “António Ramos Rosa”.

Em 2012, a Associação Portuguesa de Escritores conferiu-lhe o prémio “Vida Literária” e, em 2014, foi publicada, em Itália, em edição bilingue, uma antologia poética do autor, Respirare attraverso l’acqua<(i> (organização e traduções de António Fournier e Alessandro Granata Seixas).

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