João Cabral de Melo Neto (Brasil)

por João Miguel Henriques

A educação pela pedra

Uma educação pela pedra: por lições;
para aprender da pedra, frequentá-la;
captar sua voz inenfática, impessoal
(pela de dicção ela começa as aulas).
A lição de moral, sua resistência fria
ao que flui e a fluir, a ser maleada;
a de poética, sua carnadura concreta;
a de economia, seu adensar-se compacta:
lições da pedra (de fora para dentro,
cartilha muda), para quem soletrá-la.

Outra educação pela pedra: no Sertão
(de dentro para fora, e pré-didática).
No Sertão a pedra não sabe lecionar,
e se lecionasse, não ensinaria nada;
lá não se aprende a pedra: lá a pedra,
uma pedra de nascença, entranha a alma.

Poeta brasileiro, João Cabral de Melo Neto nasceu em 1920, no Recife, e faleceu a 9 de outubro de 1999. Diplomata, exerceu funções consulares em Assunção, Barcelona e Dakar. Pertenceu à Academia Brasileira de Letras. É de 1942 o seu primeiro livro de versos, Pedra de Sono, em que se deteta a influência de Carlos Drummond de Andrade. Depois, integrou-se na “Geração de 45”, seguindo, no entanto, o seu próprio caminho. Eliminando das suas imagens resíduos sentimentais ou pitorescos, instaura um novo critério estético – o rigor semântico, fulcro da sua radical modernidade, assim afirmando uma nova dimensão do discurso lírico através de uma poesia que parte do concreto para atingir a pureza da abstração, querendo utilizar a linguagem conscientemente em vez de ser usado por ela. O geometrismo de alguns dos seus poemas corporiza esse movimento de “regresso ao real” empreendido por este poeta da sensação aguda dos objetos que delimitam o homem e a mulher modernos. Entre outros prémios, foi-lhe atribuído o Prémio Camões em 1990.

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