Invenção de uma cidade

por João Miguel Henriques

Enquanto parente afastado e não particularmente querido do Professor Eurico Sequeira Lopes, doutor em leis e tio-avô de minha esposa, coube-me em herança, de um vastíssimo património à sua morte repartido, não mais que uma dúzia de casuais volumes de uma larga biblioteca, os quais até mim chegaram pelas mãos generosas daquela a quem, diga-se em abono da verdade, tudo ou quase tudo devo. Entre esses livros pude descobrir, não de imediato mas passados sim alguns meses, um extrordinário “Guia Completo das Capitais Europeias”, redigido na nossa língua, em estilo imaculado e distinguindo-se por irrepreensível rigor histórico e assinalável abrangência de conteúdos. Uma autêntica relíquia bibliográfica, vim mais tarde a saber, com não mais de uma dezena de exemplares conhecidos, de um total de cem supostamente impressos. Na sua humilde encadernação de cor amarelada, serviu-me este guia, misteriosamente assinado com as iniciais J.M.H., de fonte para uma série de crónicas de viagem que tive a ousadia de começar a publicar há coisa de um ano, sob o meu próprio nome e ao ritmo de uma por mês, precisamente sobre as grande cidades do moribundo continente, todas essas grandiosas urbes, ora vibrantes ora decadentes, que a ferocidade dos dias e o desamor às deslocações jamais me permitiram visitar.

Fraude ou tão simplesmente plágio seriam aqui termos mais do que justos para descrever esta minha pérfida actividade de autor pseudo-viajado, quase talentoso eu, não mais escritor, autor ou cronista do que caso escritor significasse tão somente (e talvez assim o seja deveras) alguém que escreve alguma coisa num papel. Fiado portanto no desconhecimento do público geral, leitor do periódico meu empregador, acerca desse notável guia de viagem, dei-me à ousadia de replicar um por um, ao sabor das exigências do jornal, os textos dedicados às cidades capitais europeias, transformados em crónicas de viajante, por mim assinadas a troco de simpático honorário. Foi mais por um misto de vaidade e preguiça, confesso, do que por necessidade financeira. E talvez por isso mesmo tenha a sorte um dia abandonado tamanha fraudulenta empresa, secando-me inadvertidamente a fonte.

Pede-me o jornal crónica sobre certa capital, dividida por incerto rio. E eu vejo-me incerto e inseguro perante certa e segura desgraça. Sou supostamente indivíduo culto e viajado, mas nunca visitei essa cidade. Nunca lá estive, nunca estive noutra parte além do meu bairro, da minha rua, deste meu quarto. Até aqui nada de novo, tudo normal, nunca escrevi uma linha que fosse sobre aldeia, vila ou cidade. Só que abro o guia, na página que o longo índice assinala corresponder à desejada cidade, e vejo que lhe faltam as páginas. Todas as páginas. Por erro de impressão ou talvez arrancadas. O índice apresenta-me a cidade, mas a cidade não está lá para que eu a copie, e eu passo os minutos seguintes numa vertigem, que não é tanto tontura ou desequilíbrio, mas mais arranque de corpo para uma qualquer parte que afinal não existe e é lugar escuro ou falta de lugar. E como não sei o que escrever ou sequer acreditar, junto palavras que creio talvez um dia ter ouvido sobre essa cidade que não posso jamais conhecer: uma única ponte muito antiga ou então várias pontes muito juntas sobre um rio alvoroçado. Fixo impressões inspiradas em dados de enciclopédia: eram em tempos duas cidades, mas agora estão melhor assim, juntas no nome e no destino. Torno também familiares imagens que suspeito inverosímeis: nas largas avenidas arborizadas é possível escutar ainda ao longe todos os gritos das revoluções abortadas e os gemidos de quem amou cedo de mais, ou demasiado tarde. Invento por fim não mais que ficções quase absurdas, e a cidade vai estranhamente ganhando em mim uma forma a que já me posso agarrar: nesta indecifrável língua a palavra “castelo” significa literalmente penedo derretido pelo fogo de deus. E junto a isto aquela célebre tasca, não longe da enorme igreja, onde o taberneiro átila, certamente, serve a melhor aguardente do país. Ou as vendedoras de flores à conversa junto à ópera. O imperdível mercado de domingo. A praça com nome de mulher.

Subitamente tenho uma cidade qualquer, quase que a vejo diante dos olhos, e ponho-me a pensar no grande guia e no seu desconhecido autor. Que sei eu? Talvez também ele tenha assim escrito sobre tantas cidades, acumulando palavras às cegas, sem jamais sair do seu quarto. Talvez só assim seja possível escrever sobre uma praça, um parque ou uma ruína. Envio a crónica ao jornal, consciente agora de uma fraude muito maior, a de sequer ambicionar partilhar o invisível disfarçado de concreto. Arrumo para sempre o inútil guia na estante e anexo à crónica a minha carta de demissão.

 

(texto escrito e lido publicamente no passado dia 22 de Setembro, no âmbito do festival literário PestText)

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