Insubstituíveis

por Frederico Raposo

“Ninguém é insubstituível”. Desde que trabalho que ouço esta expressão e eu próprio já a disse algumas vezes, mas sempre, no momento que a segue, fica-me um mau estar, algo que até agora não sabia bem explicar ou que não tinha ainda me dado ao trabalho de pensar.

Uma pista que me parece curiosa, como refiro acima, é que esta expressão é quase exclusivamente utilizada em ambiente de trabalho. Nunca a ouvi, por exemplo, em termos familiares:

– Perdi o meu Pai (amigo, irmão, primo etc).

-Os meus sentimentos. Mas… ninguém é insubstituível…

Soa estranho não soa? Se ouvissemos algo assim, haveria de certo um mal estar em nós. Falta humanidade, falta sentimento e compaixão, então porque o dizemos noutros contextos?

Outro detalhe é que, quase sempre que ouvi esta expressão, foi sobre pessoas que eram excelentes trabalhadores e colegas. Então parece-me que estamos a desvalorizar tudo o que elas eram e são. Todas as suas qualidades, mais valias e todas as suas valências humanas.

Sei o tipo e dimensão do sítio onde trabalho e como em quase todos estes sítios, de facto as pessoas vão e vêm e o “mundo continua”. Acredito também que isto se aplica a quase todos os grandes negócios e organizações.

Entendo que empresas e organizações não podem estar dependentes de pessoas específicas, aliás, isso seria extremamente perigoso, pois estas têm mesmo que continuar, independentemente das pessoas que a compõem, mas eu continuo a acreditar, talvez na utopia, que somos mais do que apenas números, que somos mais que o nosso trabalho e posição e que dizer que “Ninguém é insubstituível” não é, para mim, como me quero referir ou lembrar outro ser humano. Prometi a mim mesmo que não a voltaria a usar, por princípio e por esperança. Por vezes somos máquinas, mas se quisermos podemos ser muito mais que isso.

Lembrei-me, enquanto escrevia este texto, do “tradutor de correspondência comercial” Fernando Pessoa, e do Dr. Adolfo Correia da Rocha, que para o mundo perduram, não pelas profissões que tiveram mas pela obra que deixaram, e também deste excerto da Toada de Portalegre de José Régio, ressalvando talvez que esta parte humana das nossas vidas seja vivida toda ela sem pudor.

“…Quem desespera dos homens,

Se a alma lhe não secou,

A tudo transfere a esperança

Que a humanidade frustrou:

E é capaz de amar as plantas,

De esperar nos animais,

De humanizar coisas brutas,

E ter criancices tais,

Tais e tantas!,

Que será bom ter pudor

De as contar seja a quem for! “

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