Hungria segue caminho diferente da UE e aposta na vacina russa Sputnik

por LMn

A Hungria também se diferencia dos demais parceiros da União Europeia (UE) no que diz respeito às vacinas anticovid-19 ao apostar publicamente na russa Sputnik V, apesar das críticas locais e de Bruxelas.

Um voo da companhia aérea russa Aeroflot pousou há alguns dias em Budapeste com doses da Sputnik V. “Somos o primeiro país da UE a receber estas doses”, celebrou o ministro húngaro das Relações Exteriores, Peter Szijjarto.

A Hungria seguiu-se assim a Bielorrússia, Índia e Emirados Árabes Unidos na lista de países que testam esta vacina, que segundo Moscovo tem uma eficácia de 95%, embora o país da Europa Central também se declare aberto às vacinas europeias ou americanas.

Após as primeiras doses, caso as autoridades aprovem, o país receberá maiores quantidades da vacina russa e está em aberto a possiblidade de um fabricante húngaro poder começar a produzi-las no próximo ano.

É com esse objetivo que especialistas de Budapeste vão viajar até à Rússia, explicou na sexta-feira Szijjarto, que recebeu o ministro russo da Saúde, Mihai Murasko.

A UE tem contratos com empresas ocidentais – Moderna, AstraZeneca, Johnson & Johnson, Sanofi-GSK, Pfizer-BioNTech e CureVac -, enquanto que a Hungria, que também enfrenta Bruxelas sobre o orçamento comunitário, prossegue um caminho solitário.

“Seria irresponsável da parte do povo húngaro renunciar a uma das suas opções”, afirmou o Peter Szijjarto.

Fontes do governo rebatem as críticas, que seriam alimentadas, segundo Budapeste, pelas multinacionais farmacêuticas e “o lobby de Bruxelas”. O país afirma que também entrou em contato com fabricantes chineses e israelitas. Mas a Comissão Europeia já advertiu que “uma vacina só poderá obter uma autorização de comercialização depois de uma análise profunda” da Agência Europeia de Medicamentos (EMA).

Também prometeu adotar medidas contra membros da UE que utilizem um produto não aprovado. De facto, em caso de problemas, isto afetaria gravemente a confiança da população nas campanhas de vacinação.

Na Hungria também há críticas ao uso da Sputnik V. “Talvez seja segura e eficaz, mas sobretudo é uma maneira para o governo fazer propaganda”, diz Gabriella Lantos, médica e integrante do partido de oposição New World.

“Se tivermos problemas, os russos são nossos amigos e são eles que virão para nos salvar: esta é a mensagem enviada”, afirma.

O primeiro-ministro nacionalista Viktor Orbán, de 57 anos, afirma que a sua abordagem é “pragmática” na política externa, mas o pragmatismo chega a tal ponto que é acusado de ser o “cavalo de Tróia” de Vladimir Putin dentro da UE e da NATO.

De qualquer maneira, ainda será necessário convencer os húngaros, que estão entre os mais relutantes na Europa em aceitar a vacinação. E oferecer um produto cuja idoneidade não foi certificada pode “alimentar o ceticismo e gerar riscos elevados de saúde pública”, afirma o analista Peter Kreko, diretor do centro de estudos Political Capital.

No fim, acredita, a Hungria vai optar sem dúvida por milhões de doses de vacinas encomendadas pela UE.

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