Hungria: Jornalistas húngaros e figuras de oposição espiados ilegalmente. 300 nomes!

por LMn

Uma arma cibernética israelita (Pegazus – NSO Group) foi utilizada para piratear os telefones inteligentes de mais de 300 alvos húngaros, entre os quais jornalistas e vozes críticas do governo de Orbán. Uma investigação internacional realizada por 17 prestigiados jornais internacionais (Washington Post, Guardian, Le Monde, etc.) chegou a resultados muito inquietantes e preocupantes.

 

A NSO Group Technologies é uma empresa tecnológica israelita cujo spyware chamado Pegasus permite a vigilância remota de smartphones. O programa utiliza as próprias falhas do sistema, das quais nem mesmo os criadores e produtores estão cientes. Através destas pequenas falhas, ele entra no telefone e torna possível ouvir as conversas do utilizador, ler os seus e-mails, ou ver as suas imagens..

 

A Pegasus é uma arma cibernética tão séria que a empresa precisa da aprovação direta do Ministério da Defesa de Israel para a vender a outros países. Oficialmente, só pode ser utilizada contra pessoas acusadas de terrorismo ou de crime organizado. No entanto, os jornalistas de investigação da Forbidden Stories e da Amnistia Internacional adquiriram uma lista contendo mais de 50.000 números de telefone de 50 países.

 

Com base na investigação internacional, aqueles números de telefone são todos possíveis de estarem sujeitos a espionagem. Estar na lista não significa necessariamente que a Pegasus tenha sido ativada contra alguém. No entanto, em muitos casos, o exame minucioso dos dispositivos revelou uma efetiva violação da privacidade.

 

Na lista “húngara”, entre os alvos, há mais de 300 nomes, entre os quais, jornalistas, um fotógrafo que trabalhou com um jornalista americano, vários homens de negócios que criticaram o regime de Orbán, um estudante estrangeiro da universidade CEU que foi detido após uma manifestação realizada contra o governo em 2018, advogados e até mesmo a ex-mulher de um jornalista, tendo o número de telefone sido visado sob o nome do seu ex-marido.

 

“Na Hungria da era comunista, foram recrutados cidadãos para espionar os seus vizinhos e denunciar quaisquer potenciais ameaças à polícia secreta. Na Hungria do primeiro-ministro Viktor Orban, uma ferramenta de spyware foi implantada com efeito semelhante, monitorizando pessoas com tecnologia que pode transformar smartphones em fontes de informação”. – escreve o Washington Post.

 

Embora com base na informação adquirida pela equipa internacional de investigação, não se saiba quem utilizou o spyware, vários detalhes sugerem que as autoridades húngaras utilizaram o programa contra os alvos húngaros.

 

A declaração inequívoca da NSO reforça esta suspeita: apenas vendem os seus serviços a governos e organizações governamentais. Além disso, a informação sugere que o software apareceu na Hungria após algumas reuniões governamentais de alto nível entre a Hungria e Israel em 2017 e 2018. Um antigo oficial dos Serviços Secretos húngaros disse também à Direkt36 que as autoridades começaram a utilizar o programa para reforçar as relações húngaro-israelitas e a amizade entre os PMs Orbán e Netanyahu.

 

De acordo com a investigação, as autoridades tanto utilizam o programa como pretendido como abusam dele em muitos países. Zoltán Varga, um bilionário húngaro, proprietário do Centrál Médiacsoport (um dos mais proeminentes grupos de comunicação social húngaros), por exemplo, tem a certeza de que tem sido monitorizado durante anos. Ele lembra-se de telefonemas interrompidos, carros em frente da sua casa com dois homens sentados durante horas, ou pessoas estranhas sentadas à mesa ao seu lado num café enquanto tinha uma reunião de negócios. Além disso, em 2018, dois meses depois de Fidesz  voltado a ganhar as eleições gerais, organizou um jantar com seis amigos no seu jardim. Duas das sete pessoas presentes nessa noite foram comprovadamente atacadas por Pegasus.

 

Quando se trata de adquirir informações em segredo, as regras húngaras são bastante fáceis. As autoridades e especialmente os serviços de segurança nacional estão autorizados a controlar praticamente qualquer pessoa em larga escala e com pouca supervisão externa. Assim, mesmo com a Pegasus, que é tecnicamente uma arma cibernética.

 

O The Guardian perguntou ao governo húngaro sobre o assunto, ao que um porta-voz respondeu que “não têm conhecimento de qualquer alegada recolha de dados reivindicada pelo pedido”. O gabinete de comunicação do governo deu outra resposta: “Fez as mesmas perguntas aos governos dos Estados Unidos da América, do Reino Unido, da Alemanha ou da França? No caso de o ter feito, quanto tempo demoraram a responder e como responderam? Havia algum serviço de informações para o ajudar a formular as perguntas?”

 

Snowden, antigo consultor de inteligência informática que divulgou informações altamente confidenciais da Agência Nacional de Segurança Americana (NSA) em 2013, reagiu num post no Twitter à notícia que ele chama “a história do ano”. “A Hungria deu a resposta mais incriminatória que já vi a um pedido de comentários sobre o escândalo de vigilância Pegasus. Sempre que “não sei” se fiz algo ou não, exijo saber se os espiões estrangeiros o avisaram sobre o assunto“. – escreveu ele.

 

Entretanto, chegou ao conhecimento público que o Le Monde que colaborou na investigação sobre a Pegasus, fez uma entrevista com a Ministra da Justiça Húngara Judit Varga no início de Julho. Perguntaram-lhe se ela como ministra da tutela permitiria a espionagem de jornalistas e de opositores políticos. Varga ficou tão zangada e indignada com a pergunta, dizendo que a pergunta em si era uma provocação. No dia seguinte a um pedido do ministério foi enviado ao Le Monde para suprimir a pergunta e a resposta da entrevista.

 

Curiosamente, 24 horas depois da notícia ter sido publicada, quer no estrangeiri, quer na Hungria, a MTI – Agência Pública de Notícias, a televisão e rádio do estado ou qualquer dos muitos jornais ou portais controlados pelo governo, em nenhum dos casos, “esta notícia” tinha sido notícia.

 

Alguns governos, incluindo o de Viktor Orbán, estão alegadamente a empregar um dos mais poderosos instrumentos de vigilância alguma vez criado para silenciar a oposição política. O software Pegasus pode invadir milhares de milhões de telefones em todo o mundo, permitindo uma vigilância praticamente total dos alvos sem que estes cliquem sequer num link suspeito.

 

Repetindo. O que é Pegasus e porque é perigoso? Embora todos os utilizadores experientes da Internet saibam que as ligações e e-mails suspeitos precisam de ser evitados a todo o custo uma vez que podem conter malware, a Pegasus da NSO não requer tal isco. O software utiliza os chamados ataques de “clique zero” para se infiltrar em qualquer telefone que funcione nas plataformas iOS ou Android. Estes ataques de “clique zero” exploram falhas ou bugs nos sistemas operativos, chamados vulnerabilidades de “dia zero”, a fim de entrar num telefone sem qualquer interacção do seu proprietário.

 

Embora estas infiltrações possam ser feitas com a tradicional táctica de ligação suspeita, também podem ser conseguidas através da exploração de aplicações instaladas. Por exemplo, em 2019, a WhatsApp partilhou que mais de 1.400 utilizadores tinham sido pirateados após a Pegasus ter localizado uma das vulnerabilidades de “dia-zero” da aplicação. Se nem o phishing nem os ataques de clique zero funcionarem, Pegasus pode ser instalado sobre um transceptor sem fios próximo do alvo, e de acordo com uma brochura da NSO, pode mesmo ser instalado manualmente por um agente que rouba o telefone do seu alvo.

 

Uma vez que um telefone tenha sido pirateado, o seu proprietário pode dizer adeus à sua privacidade. Não só mensagens, e-mails, fotos e vídeos, dados de localização, contactos e histórico de pesquisas podem ser acedidos, mas o atacante pode ligar o microfone e a câmara do telefone, e as chamadas podem ser gravadas.

 

A NSO alega que apenas fornece o seu software a governos e organizações nacionais, com o objectivo de localizar terroristas e os mais perigosos criminosos. Alguns dos países clientes, reuniram milhares de números de telefone, casos do Azerbaijão (mais de 1.000), Bahrein (quase 3.000), os Emirados Árabes Unidos (mais de 10.000), Índia (mais de 2.000), México (mais de 15.000), Marrocos (mais de 10.000), e Arábia Saudita (mais de 800). Há uma nação da UE na lista, a Hungria com 300 telefones.

 

 

Fonte: Direkt36/Telex.hu/444.hu/Daily News Hungary/Hungary Today

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