Hungria – a classe média no século XX A história contada de três famílias

por Joaquim Pimpão

Venho partilhar aqui no LMN o artigo “Hungria – a classe média no século XX. A história contada de três famílias”, escrito e enviado para Lisboa por fax (!) em 27 de janeiro de 1990. Como na ocasião não foi publicado, esteve na gaveta e serviu como contribuição singela no livro de homenagem ao Prof. Pál Ferenc, esse Grande Amigo de Portugal e dos portugueses, livro editado por ocasião do seu 60. aniversário

Da classe média húngara, tal como a generalidade das classes médias da Europa Central não reza a história. No entanto tem sido este grupo social, a maior vítima do desassossego e convulsões históricas durante este século que caminha para o seu fim.

Como pertencentes á classe média considerei o professor primário da aldeia, o agricultor proprietário de algumas terras, o advogado, o bancário, o dono da pastelaria, o pequeno industrial húngaro, etc, que passou pelas tragédias de duas guerras mundiais, as ditaduras e os totalitarismos de esquerda e de direita, sofreu as perseguições pelo seu credo político ou religioso e ás vezes, precisamente por não os ter, viu a sua privacidade familiar invadida pelas kgbs e gestapos, sofreu perdas económicas e patrimoniais, em muitos casos, irremediáveis e resistiu, agarrou-se à terra, à profissão, à cultura, à pátria e conseguiu sobreviver.

No processo de abertura política e de democratização recentemente iniciado, uma vez mais se espera que importante papel, simultaneamente, de suporte da nação e de liderança, esteja reservado à chamada classe média, ainda que na Hungria pouco se fala dela.

Para os leitores portugueses deste novo jornal diário, procurei um pouco por acaso, exemplos e histórias de três famílias húngaras, que me ajudassem nesta tarefa.

Preparei o gravador, o bloco de notas e fui ouvindo e de quando em quando, perguntando.

 1. A senhora Klára Kovács nasceu em 1915, numa aldeia da grande planície húngara, na província de Békés, já próximo da actual fronteira com a Roménia, em plena 1.Guerra Mundial, conflito que, entre outras consequencias, provocou o desmembramento do Império Austro-Húngaro, liderado pela dinastia Habsburg e a uma nova redefiniçao de fronteiras e paises nesta vasta região europeia.

Enérgica, apesar dos seus 75 anos, disse-me sem hesitar “tenho pouco tempo, mas venha daí, que agora felizmente falar já podemos, sem estarmos sempre a olhar para o lado.” E lá me deu boleia no seu Trabant até ao mercado do bairro, falando, falando sempre. Para o leitor que não conheça, o Trabant é um carro a dois tempos da RDA-Alemanha Oriental, talvez o exemplo mais acabado da evidente superioridade do paradísiaco socialismo sobre o malfadado regime capitalista.

Klára nasceu numa família de camponeses remediados, com mais sete irmãos, ainda todos vivos. “Tenho um irmão que, ora está na Hungria, ora está na Suécia. É que um dos filhos abandonou o país em 1970 e agora é cidadão sueco como a mulher que lá conheceu e os filhos que lá nasceram. Falam um húngaro muito razoável, diz com orgulho.” Estudou quatro anos na escola primária e outros tantos na secundária. Depois continuou em casa a ajudar a mãe nas lides caseiras e a criar os irmãos, “eram cinco rapazes, resguardada, que o meu pai era um homem tradicional e muito severo.”

Casou em 1935 com um professor primário, filho de uma das melhores famílias da aldeia, um casamento escolhido pelos pais de ambos. O marido, o senhor Ervin, já casado tirou, por correspondencia, o curso de direito, na universidade de Kolozsvár, curso concluído em 1941, ainda antes da Hungria entrar na II Guerra Mundial, ao lado da Alemanha de Hitler, após ter denunciado o Tratado de Amizade Eterna em vigor e declarado guerra à Jugoslávia.

De referir que Kolozsvár, importante cidade universitária na história da Hungria, se encontra em Erdély (Transilvânia), que foi, primeiro integrada na Roménia com o Tratado de Paz de Trianon depois da I Guerra Mundial, mais tarde, por decisão da Concessão de Viena, no decorrer dos anos 30, reintegrada na Hungria e depois da II Guerra Mundial como parte da Roménia. 

“Tinhamos grande respeito pelo Regente, o Almirante Horthy, muito medo do comunismo e dos russos, mas não nos ocupávamos com politica. Naquela altura, após o meu casamento, eramos proprietários de 12 hectares de terra, do melhor que havia, era eu que geria a herdade, que contratava e pagava as jornas.”

Apesar do racionamento de alguns bens como o sal e o açucar e da mobilização de alguns jovens da aldeia, até à entrada das tropas do exército vermelho na Hungria nos finais de 1944, não sentiram a guerra, não se aperceberam que após a batalha de Stálingrad no início de 1942, batalha que terminou com a vitória esmagadora dos soviéticos sobre os invasores alemães, que após o desastre do exército húngaro na região do Don, no qual morreram mais de 100 mil soldados húngaros, o curso da guerra tinha mudado definitivamente.

Ninguém os avisou que a guerra se aproximava rapidamente das terras húngaras, que Stalingrád tinha sido o momento da grande viragem, o princípio do fim do pesadelo nazi e, ao mesmo tempo, o início da longa noite comunista, para vários povos e paises da Europa Central, entre os quais, os húngaros e a Hungria.

Os governtes de então não se preocuparam em preparar a população para o que vinha.

“Foi uma época de inferno, a região onde viviamos estava na linha da frente dos combates entre os exércitos alemão e húngaro e os russos.” Iam sendo evacuados de aldeia em aldeia, “vinha o soldado com o tambor e lia em voz alta, o governo legítimo da Hungria para defesa dos bens e das vidas dos seus cidadões, ordena a evacuação imediata da aldeia.” E assim viveram durante longos meses, regressavam se o exército vermelho retrocedia à contra-ofensiva alemã, fugiam de novo se era o contrário, “passámos a viver com a tralha às costas, com as carroças sem parar, mal comidos e mal dormidos, sempre com medo do pior. Mesmo asssim a nossa família não se pode queixar.” Para evitar ser violada pela soldadesca soviética, empapou o cabelo e o rosto de cinzas e de lama, vestiu as roupas mais velhas e mais escuras que tinha, mas “mesmo assim tenho na família quem não conseguiu escapar.”

Entre tantas pequenas histórias por contar, por se saber do que na verdade então se passou, recorda aquela que aconteceu em Endröd, a sua aldeia,  em 1945. “Na aldeia havia uma mulher da vida, por acaso muito bonita, morena e aciganada que se fez amante do oficial russo ali estacionado. Um dia matou-o à facada e fugiu.” Como represália o exército soviético anunciou que mataria metade dos adultos da aldeia, se não entregassem a assassina no prazo de 48 horas. “Findo o prazo não cumpriram a ameaça, mataram apenas 13 homens.” A dita já estaria certamente nos braços de outro oficial, talvez russo, talvez romeno.

Klára ficou em silêncio durante algum tempo e depois disse “sabe ainda hoje no nosso cemitério há uma grande estátua em memória do oficial russo assassinado e uma rua com o seu nome, herói e mártir da luta solidária para com o povo irmão húngaro, caído na luta pela libertação contra o fascismo, mas as famílias daqueles 13 infelizes nunca mais tiveram paz, perseguidas e vigiadas, nunca os puderam enterrar, cuidar das suas campas, como faz um qualquer cristão. Até agora! Que regime foi este que tratou assim o seu próprio povo?”

O fim da guerra permitiu o regresso a Endröd e algum sossego até 1947, “mas apesar da paz, o melhor bem do mundo, das promessas dos políticos, sentíamos que tinhamos a corda no pescoço, só não sabíamos quando a iriam apertar.” Em 1949 com a sovietização do país e a colectivização forçada das terras, a família Kovács foi colocada na lista dos kuláks, camponeses ricos que teriam de ser despojados das suas terras e proibidos de votar nas farsas eleitorais da época. “Sabe eram tais as perseguições, o número de porcos, de ovos e galinhas, as quantidades de trigo e de milho que eramos obrigados a entregar ao estado a troco de maus tratos e mais perseguições, que foi um alívio quando finalmente nos roubaram as terras, as terras herdadas dos nossos pais.”

Foram então viver para a pequena cidade onde Ervin pôde exercer a profissão de notário e de advogado, já que como professor não dava garantias ideológicas. Foi ali que assistiram e se encontraram, surpreendidos, com a Revolução de 1956. Apesar de ser considerado pelo partido comunista um inimigo politico, Ervin pela sua posição era uma das pessoas mais conhecidas, juntamente com o secretário do partido e os presidentes da câmara e da cooperativa estatal, “conhecido e com prestígio, não odiado como os outros”. Durante os dias da insurreição de Outubro, com o Ervin na cama doente, o ambiente tornava-se cada vez mais tenso, crescia a sede de vingança, a população queria fazer justiça por suas mãos. Vieram então pedir ajuda ao doutor Ervin, com a esperança de que a sua presença  poderia acalmar a multidão concentrada no largo principal. Este dirigiu-se aos manifestantes, afirmando que a legalidade tinha de ser respeitada, que os dirigentes comunistas locais estavam fechados na sala de reuniões da câmara, mas só o tribunal os poderia julgar e quando a calma fosse restabelecida. “E eu que supliquei tanto para que ficasse deitado na cama, que não fosse, mas foi em vão. Como nunca tivemos filhos a lei foi sempre a sua menina.”

Após o esmagamento da revolução, na Primavera de 1957, já depois da manifestação do 1 de Maio, na qual os novos senhores nomeados pelo Kremlin, conseguiram reunir em Budapeste uma multidão de quase 1 milhão de húngaros, Ervin foi preso, tendo ficado em prisão preventiva durante mais de 1 ano. Em 1958 foi julgado e absolvido por falta de provas. “Nunca mais pôde exercer a sua profissão, os únicos empregos que conseguiu foi de carregador-arrumador de armazém ou ajudante de camionista. E mesmo assim, sempre que chegava aos ouvidos do secretário da célula do partido quem era ele, era logo corrido. Fui eu que nos mantive. Quando Ervin ainda estava na prisao, vendi o pouco que tinhámos e mudei-me para Budapeste. Arranjei emprego num restaurante de prestígio, o chefe engraçou comigo.”  Klára trabalhou na cadeia estatal de restaurantes até à idade da reforma, tendo nos últimos 10 anos dirigido um dos restaurantes da empresa.

Sozinha comprou o terreno onde construiram a casa na qual ainda hoje mora, próximo do Városliget (jardim da cidade), um dos bons locais da capital. Trabalhou por dia 11-12 horas e não nega que foi assim o seu ganha-pão, recuperando parte da posição que tinha perdido. “Quando fechava o restaurante e com a escassez de taxis que existia, tinha sempre, entre os fregueses, quem me pedisse para os levar a casa com o meu Trabant. Era proibido mas eu não tinha medo e assim em vez de um, tinha dois salários. Nunca pedi nada aos clientes, cada um pagava o que bem entendia”

Em 1968, ano na Hungria, do ínicio das tímidas reformas do sistema económico centralizado, do insucesso da Primavera de Praga e da tentativa do socialismo de rosto humano, abortada com a intervenção militar dos exércitos da URSS e do Pacto de Varsóvia, os Kovács compraram uma parcela junto ao rio Tisza, onde eles mesmo construiram, com a ajuda de amigos e familiares, uma pequena casa de férias. Em 1970 já lá passarm o verão.

“Ervin nunca aceitou a injustiça que lhe fizeram, nunca reencontrou a sua paz interior.”

E a senhora como viveu, como se conseguiu integrar na Hungria kadarista? Como recorda esses tempos? “Não se pode viver nem de recordações, nem de ilusões. O passado nunca volta, nunca se recebe o que se perdeu, o que nos roubaram. Apenas nos resta continuar, fazer outras coisas, enfim viver. Que culpa temos nós de termos nascido aqui, naquela época, naquele tempo?” Klára foi várias vezes agraciada com a condecoração do trabalhador socialista exemplar, foi anos a fio delegada sindical da empresa e sempre que pôde gozou as férias pagas nas casas de repouso dos sindicatos.

“Sabe, a verdade é que na Hungria, quem quis trabalhar, trabalhou e pode amealhar algum e ir melhorando a sua vida, seguir em frente, mas também lhe digo que parece mentira, parece um sonho, ver a Revolução de 1956 reabilitada, poder de novo desatar o nó da garganta. só é pena que o Ervin não esteja vivo para assistir, saber que o seu sacríficio não foi em vão.”

 

2. Anna Szegő, nasceu em 1950 é secretária na embaixada de um país ocidental, de origem judia, assumida. O filho mais velho de onze anos é um ferveroso adepto do MTK, o clube de futebol dos judeus húngaros. Mas Anna falou sobretudo do pai já falecido e da mãe.

O senhor Gábor Szegő nasceu em 1913 na cidade de Miskolc, actualmente a segunda maior cidade deste país. Com 18 anos partiu à aventura, foi para a Nantes, Franca, de onde voltou dois anos depois, menos aventureiro, mais magro e sabendo falar francês. Voltou à oficina do pai, judeu ortodoxo, que naquela altura já dava trabalho a 7 mecânicos. Em 1939 foi mobilizado, mas no exército do Almirante Horthy não havia lugar para os húngaros de origem judia, estes estavam proibidos de terem acesso às armas nacionais húngaras. Foi por isso enviado para um campo de trabalhos forçados de onde podia sair, aos fins-de-semana, 2-3 vezes por mês. Numa dessas visitas a Miskolc, casou-se com a moça com quem namorou 8 anos, e que pouco tempo depois engravidou.

Gábor entre 1939 e 1947 nunca mais teve uma casa a sério. A 19 de Março de 1944 a Hungria foi ocupada pelas tropas alemães, Horthy já não era de confiança e o exército húngaro, mal armado e mal abastecido, já tinha sido dizimado pelo exército soviético nas terras, outrora férteis, da Ucrânia. “O meu pai, com muitos outros jovens judeus húngaros, foi enviado para as zonas de combate, para irem à frente do exército alemão, eram eles os primeiros a pisarem as minas dissimuladas, os primeiros a serem atingidos pelo fogo das armas russas.”

Gábor Szegő conseguiu fugir com mais 3 companheiros e foram parar a uma região controlada pelo exército vermelho. Depois de várias peripécias e aventuras, conseguiram comprovar a sua identidade e por isso não foram executados como invasores e fascistas húngaros, foram enviados para a Sibéria onde passaram longos meses. Foram depois recambiados para a Ucrania, onde ficaram internados, uma vez mais, num campo de trabalhos forçados para  prisioneiros de guerra.

“Em 1947 o meu pai foi finalmente libertado e autorizado a voltar a casa para o reencontro tão ansiado com a sua jovem mulher e a filha que ainda não conhecia, que nunca iria conhecer, pois ambas morreram em Auschwitz. De toda a família do meu pai, só sobreviveu uma irmã, a minha tia, que tinha sido acolhida e escondida em Budapeste, mesmo apesar dos perigos, por uma familia húngara cristã. Nenhum dos irmãos voltou a Miskolc.”

O campo de concentração de Auschwitz-Birkenau é justamente considerado por muitos, como o maior cemitério húngaro. Mesmo sendo dificil de saber o número exacto das vitimas, ali foram exterminados entre 360-390 mil judeus húngaros. A máquina de deportar tantos inocentes para a morte certa, era tão perfeita e oleada que após a ocupação alemã da Hungria em Março de 1944, em 2 meses foram deportados quase 440 mil judeus húngaros.

Em 1948 Gábor voltou a casar com Marta, mãe da Anna e de dois rapazes mais novos. Conheceram-se num baile de beneficiência da comunidade judaica de Budapeste, para a recolha de fundos para a reconstrução da Sinagoga.

Marta e Gábor inscreveram-se ambos no Partido Comunista. Porque é que os seus pais se increveram no PC? “Entraram no partido, como fizeram muitos sobreviventes judeus do Holocausto. Acreditavam no comunismo, na promessa de um futuro radioso, que com os comunistas havia a garantia de que os horrores das câmaras de gás nunca mais se repetiriam. Eram militantes de base e aos fins-de-semana participavam activamente nas campanhas de agitação pela colectivização das terras ou para denunciar o clericalismo da Igreja Católica, mas nenhum deles se tornou agente da polícia politica comunista, como infelizmente aconteceu, com muitos membros da comunidade judaica que sobreviveram.”

Ainda em 1949 Gábor começou a estudar na universidade de engenharia de Budapeste e a partir do 2. ano, já trabalhava numa cooperativa industrial. Marta estava empregada numa fábrica de peles e cortumes, era a responsável pelas vendas para o mercado interno.

“A minha mãe, quando falamos dessa época, ainda hoje fala em voz baixa, diz que se punha sempre a rezar cada vez que o meu pai se atrasava 15 minutos, com medo que tinha sido preso pela AVH, a variante húngara da kgb soviética.”

A Revolução de 1956 apanhou de surpresa a família Szegő. Nos dias intensos de Outubro, explica Anna, da fábrica telefonaram à mãe, ter telefone era um privilégio de muitos poucos, avisando “não venhas à fábrica, nem hoje nem nos próximos dias. O ambiente é de linchamento, queram caçar todos os comunistas da empresa, há uma lista afixada à  entrada e o teu nome está lá.” Durante 3 semanas Marta ficou em casa, findas as quais voltou ao trabalho onde ficou até se reformar. Gábor todos os dias foi trabalhar mesmo quando os transportes públicos deixaram de funcionar.

Nenhum dos dois se voltou a inscrever no POSH, o partido do camarada János Kádár.

“Viram tantos oportunistas e carreiristas, a maior parte dos funcionários e agentes da antiga policia politica estalinista que acharam que aquele partido já não era o deles.”

Fizeram aquilo que a grande maioria dos cidadões deste país fizeram, adaptaram-se, acomodaram-se, colaboraram com os novos senhores no poder até onde lhes foi possível, contentes por viverem melhor que antes, por poderem planear o seu futuro, por terem um nível de vida bem melhor que nos outros paises do COMECOM. Os filhos puderam estudar, acabar a universidade, a Anna tirou o curso de professora e os irmãos são ambos engenheiros.

Em 1967, com a guerra dos Seis Dias e o corte das relações diplomáticas da Hungria com Israel, aconteceu a ruptura espiritual e humana entre a família Szegő e o regime. “Nós olhávamos a política através dos olhos de húngaros judeus e ao tomar partido pelos árabes contra o estado de Israel, o governo deixava uma mensagem clara e o que era mau para Israel, era mau para nós. Penso que a esmagadora maioria da comunidade judaica húngara, pensava e pensa assim. O meu pai odiava particularmente Brejnev.”

Desde dessa data, todos os dias ás sete da manhã, Gábor Szegő escutava atentamente a rádio Jerusalém, até à sua morte em 1987.

E você Anna como cresceu, que pensa dos anos dourados do kadarismo, do socialismo do gulásh, ainda hoje, com tanto prestígio no mundo ocidental? “O facto de não ser filha de um operário mas sim de um engenheiro, marcou-me desde o jardim escola até à universidade.” Nas cadernetas das escolas primárias e dos liceus, os filhos dos trabalhadores físicos a seguir ao seu nome tinham um F a vermelho e por isso, independentemente dos resultados obtidos, tinham sempre primazia nas excursões e viagens de estudo ou nos acampamentos de verão e só depois os outros eram escolhidos. “Sabe para mim era muito difícil aceitar, se eu era pioneira, se era membro do KISZ-Juventude Comunista, como todos os outros, se era das melhores alunas, porque razão não era escolhida, não podia ir a festa de Natal no Parlamento, onde todos os anos distribuiam doces e prendas bonitas.”

No último ano do liceu um incidente impediu Anna de exercer a sua profissão de professora. Como queria ser directora de teatro, com uma colega decidiu encenar uma peça  sobre o movimento hippy e que acabaria com o hino norte-americano. Como não o tinham, decidiram ir à embaixada pedir. É escusado entrar em pormenores. Quando Anna e a colega chegaram ao liceu, já tinham a directora, o secretário do partido e um desconhecido à espera. Foram acusadas de tudo, traidoras, agentes da CIA, chamaram os pais à escola, levantaram um processo disciplinar e só não as expulsaram porque estavam no último ano.

Quando acabou a escola superior, curso de inglês-húngaro, na ficha-caderneta que lhe entregaram e que ela tinha de mostrar, no departamento de pessoal, onde fosse procurar  trabalho, estava escrito a encarnado “não se recomenda que ensine aos nossos miúdos, têm posições politicas que podem ser perigosas e perturbar a sua formação.”

Ainda hoje guarda esse documento. Estávamos nos meados da década de 70, da Conferência de Helsínquia, da distensão e do diálogo entre os 2 blocos, dos  direitos humanos e da luta  da ideologia e da propaganda, da ingenuidade de sempre dos intelectuais do mundo ocidental.

“Nunca pude dar aulas, razão porque me tornei secretária. Nunca fiz parte da oposição, na verdade só soube da sua existencia nos últimos anos, com a revolta em Gdansk na Polónia, com Walesa e o Solidariedade. O mais curioso é que materialmente, para mim, assim foi muito melhor, o meu salário actual é 4 vezes mais alto daquele que teria se fosse professora de liceu e devido ao meu trabalho, ainda aprendi francês.”

E hoje, politicamente como encara a actual situação? “Olhe apoio totalmente os liberais do  SZDZS-Democratas Livres, apoio o desmantelamento completo do regime anterior, acredito na democracia parlamentar, sem adjectivos e não se esqueça de escrever que me considero de esquerda, que a esquerda europeia não tem nada a ver com o comunismo.”

 3. Estou sentado á mesa da Cukrászda (café-pastelaria), com o senhor István Mészáros, acompanhado pela filha, minha conhecida. Reservado e de poucas falas, tento meter conversa e explicar o motivo do encontro. Biólogo, nasceu em 1931, é pai de 2 filhas, uma já médica e outra estudante de agronomia, como o avô.

O pai do senhor Mészáros, István como ele, foi o primeiro intelectual da família. Os seus avós eram padeiros e viviam na cidade de Keszthely, junto ao lago Balaton, na parte ocidental da Hungria. Após ter terminado o curso de agronomia, István pai, já casado e com o István filho a caminho empregou-se como especialista agrícola na câmara municipal da cidade.

Em 1939 mudou-se para Budapeste para trabalhar no Ministério da Agricultura.

Na Hungria o sector agrícola teve sempre um grande importancia politica, económica  e social. Desde os tempo dos Habsburg, que a Hungria era conhecido como o celeiro do Império. Em 1941, devido ao estímulo salarial, foi destacado para Kassa, cidade de novo entregue à Hungria após as decisões da Concessão de Viena. Depois do fim da II Guerra Mundial, aquela cidade e a região, foram de novo integradas na Checoslováquia, apesar da maioria dos seus habitantes serem de nacionalidade húngara.

István pai foi mobilizado já na fase final da guerra e como falava correctamente alemão, foi enviado para a cidade austríaca de Linz, para se especializar em comunicações-rádio. Pouco tempo depois a cidade foi ocupada pelas forças aliadas e aquele foi feito prisioneiro pelo exército americano, que depois o entregou aos soviéticos.

“O meu pai teve muita sorte, pois ao fim de 6 meses foi libertado, regressou a Budapeste e foi recolocado no Ministério da Agricultura, onde ficou até à reforma já nos anos setenta.”

Como um saca-rolhas ia sacando frase a frase algumas recordações e ideias a István. “Quando a guerra mundial começou eu tinha 8 anos e só em 1944 me dei conta da gravidade. Era escuteiro e estudei numa escola dirigida por frades beneditinos. No ano em que terminei os comunistas fecharam-na. Era um dos melhores estabelecimentos de ensino da Hungria.”

O seu pai foi membro do FKGP-Partido dos Pequenos Proprietários, centrista e populista, defensor das tradições húngaras, de uma profunda reforma agrária e apologista da 3. via entre o capitalismo e o comunismo. O FKGP, antes da implantação do regime totalitário, era o partido mais forte, tendo obtido 57% dos votos nas primeiras eleições livres em 1945, mas o PC iniciou de imediato a estratégia de o aniquilar, chegando ao ponto de,  no início de 1947 em pleno dia, numa rua de Budapeste, Béla Kovács, Secretário-Geral do partido, ter sido raptado por agentes da KGB e deportado para o Gulag na Sibéria.

“O meu pai era um idealista da esquerda moderada. Eu estive sempre mais à direita, anti-comunista estrutural, apesar de nunca os ter enfrentado de forma activa. As minhas formas de protesto foram, de não assinar o diário orgão central do partido, mas sim o Magyar Nemzet, mais liberal e mais nacional, apesar da feroz censura ou o de ter sido capaz de resistir, dizer que não e não deixar que me inscrevessem no Partido Comunista.”

Não deve ter sido fácil, pois o PSOH de Kádár, para uma população de pouco mais de 10 milhões de habitantes, em 1988, tinha inscritos quase 900 mil membros.

Após a bolchevização da Hungria, István pai virou-se ainda mais para dentro, para a família, ocupou-se com as suas flores, as árvores de fruto do seu jardim, na elitista Rózsadomb (colina das rosas), com os seus livros, os seus novos diplomas e línguas estrangeiras.

De 1956, István filho referiu-se ao momento da festa no qual os revolucionários derrubaram a enorme estátua de Stálin que tinha sido edificada no mesmo local onde o regime comunista removeu as ruínas em que se encontrava o templo católico Regnum Marianum.

A nível familiar destacou, “o casamento da minha irmã estava aprazado para aqueles dias. Os meus pais cederam dois quartos da casa onde viviam ao jovem casal. Remodelaram, pintaram, mobilaram e os tanques soviéticos escavacaram tudo com os seus balázios.”

István por ser de origem intelectual não pôde cursar medicina como queria e só através de conhecidos, teve acesso ao curso de biologia. Decidiu, aprender línguas estrangeiras, fala inglês, alemão e espanhol. Tornou-se um investigador de laboratório e devido às suas qualidades profissionais e domínio de idiomas estrangeiros, esteve por duas vezes no estrangeiro, 8 anos no total, a última vez em África, cinco anos como expatriado da FAO. Tem um mercedes e a mulher um vokswagen e vivem, também eles, na Rózsadomb.

István adaptou-se ao país que era o seu e ao regime que lhes foi imposto por um exército estrangeiro, regime que no tempo da consolidação kadarista, substituiu a táctica do salame e o o conceito de que a luta de classes se agudiza com o avanço na via para a sociedade comunista, pela máxima de Kádár,”quem não está contra nós, está por nós”.

Segundo o István Mészáros, nas últimas décadas, a sociedade húngara viveu um intenso dualismo – a cultura em casa, na família e a cultura e ideologia oficial do PC nas escolas, nos locais de trabalho, na comunicação social. “ Este dualismo, resultado da resistência da maioria silenciosa, foi muito importante para a sobrevivência, mas foi também muito prejudicial e nefasto, devido sobretudo ao cinismo acumulado, com consequencias ainda por conhecer, para a nossa mentalidade, a moral que nos é tão necessária, na reconstrução dum país melhor e mais livre, para a classe média e o seu papel decisivo de integrador da sociedade húngara”.

 Budapeste, 27 de Janeiro de 1990

Tradução em húngaro por Lantos Vera

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