Havia uma vez… um Departamento de Português – Memórias subjetivas de um luso-brasiliófilo

por Pál Ferenc

Nestas páginas soltas penso comemorar as figuras e momentos do conhecimento e propalação da cultura lusa e brasileira na Hungria. Dada a subjetividade das lembranças que penso historiar, não vou seguir uma cronologia, antes as deixarei surgirem livremente.

O primeiro lugar na história da divulgação da língua e literatura portuguesa, corresponde ao Professor Dr. Rózsa Zoltán, incentivador dos estudos portugueses a nível universitário, fundador e primeiro diretor do Departamento Português na Universidade Eötvös Loránd de Budapeste.

Falando sobre Rózsa Zoltán, muitas vezes hei-de falar também dos meus feitos, e isso não é uma falta de modéstia, mas vem do fato de que tínhamos de fazer muitas coisas juntos, num estreito contato durante quase duas décadas, a fim de os estudos portugueses se irradicarem na Hungria.

Tudo começou algures na segunda metade da década de 1970 quando o encontrei pela primeira vez. Estava acompanhando uma delegação a Lisboa, quando um componente desta comitiva, uma pessoa que trabalhava no campo educacional, pediu-me para acompanhá-lo a uma pensão, a visitar um professor que estava com bolsa na capital portuguesa.

Subimos ao segundo piso da pensão e  batemos à porta. Após um minuto a porta se abriu e, como de névoa espessa, surgiu a figura do professor que acabava de tomar banho e nos ares húmidos do inverno de Lisboa, isso foi acompanhado de vapores em excesso. Fomos jantar, experimentamos os bons vinhos portugueses e o professor sugeriu-me que o visitasse um dia na Faculdade.

Assim começou a nossa, posso dizer que, amizade que durou até a morte prematura dele. O professor Rózsa Zoltán pertencia à chamada “grande geração” que nos anos 1960, aproveitando a relativa liberdade concedida pelas autoridades, pôde tentar conhecer novos horizontes. Desta forma se organizou um pequeno grupo de docentes universitários e estudantes que começaram estudar o Brasil, língua, cultura e literatura em aulas livres da FL da ELTE. Talvez haja sido um motivo desse interesse que uma irmã do Rózsa Zoltán vivia no Brasil, e enviava livros para ele e que viviam na Hungria jovens intelectuais brasileiros com a participação de quem se organizavam aulas de português.

Infelizmente com o golpe militar no Brasil esta iniciativa abortou e só renasceu após a Revolução dos Cravos, que abria as portas de Portugal para Húngaros e vice-versa. Quando, após este primeiro encontro, visitei Rózsa Zoltán, então ainda docente do Departamento do Italiano,  e aceitei o convite de trabalhar com ele na organização dos estudos portugueses, encontrei-me num mundo agitado e entusiasmante. O professor Rózsa com muito bom tacto intuiu que os estudos portugueses rapidamente poderiam elevar-se a nível de departamento e a um centro da lusofonia, mas para isso era preciso ter contatos de todos os géneros e níveis. Assim, além das visitas ao ministério responsável pela cultura e educação para lançar os alicerces da futura “unidade de estudos”, ele viajava frequentemente a Portugal, visitando os antecedentes do Instituto Camões. Lembra-se-me uma nossa visita ao ICALP, na Praça do Príncipe Real, quando o professor foi recebido com grande carinho, já não apenas como diretor do estudos portugueses, mas como um renomado estudioso da obra de Camões, pois o professor já publicara alguns estudos sobre Os Lusíadas, entre eles aquele, no qual falava sobre a recepção da epopeia na Hungria, e tinha organizado uma conferência comemorando os 400 anos do grande poeta português.  Graças  a estes bons contatos amigos, o departamento em formação recebeu uma valiosa doação de livros do ICALP, que foi a base da futura biblioteca.

Além destas relações oficiais, havia outras, Portugal estava de moda no final da década de 1970 e início da de 1980, e quase todas as semanas houve algum evento que organizavam os estudantes portugueses que chegavam a Hungria, ou os lusófilos húngaros. E o professor Rózsa, já na casa de cinquenta, com uma energia e entusiasmo jovem participava nestas festas, nos comes e bebes e nas recepções que ofereciam os embaixadores portugueses e brasileiros.

Entretanto prestava atenção também a consolidação dos estudos luso-brasileiros, com conferências e publicações formava o perfil científico do Departamento de Português (a partir de 1983), cuidando ao mesmo tempo da divulgação da literatura portuguesa e brasileira. Assim nestes anos, graças a intervenção dele saiu a tradução moderna de Os Lusíadas (obra de Hárs Ernő), A Capital de Eça de Queirós (traduzido pelo autor de este artigo) e satisfazendo o interesse do público húngaro a versão húngara de A Escrava Isaura de Bernardo Guimarães, na tradução do qual ele também participou. E o professor Rózsa não parava, durante as suas permanências em Lisboa travava amizade com os melhores poetas portugueses, como Teresa Balté, Ivette K. Centeno, Egito Gonçalves, Pedro Tamen e outros e com a colaboração deles e delas compôs várias antologias de poesia húngara. Após ter organizado e consolidado o Departamento de Português de ELTE, encetou uma outra grande aventura, mostrando que era uma alma aberta para as novidades e aventuras intelectuais e espirituais, pois de estudioso da obra de Boccaccio, como docente do Departamento de Italiano, mudou rumo, e estudava Camões e literatura de Moçambique e depois dedicou-se a divulgar a língua e literatura húngara em Portugal e a partir de 1989, passava temporadas cada vez mais longas em Lisboa, trabalhando nas suas antologias da literatura húngara e ensinando a língua dos magiars aos estudantes da Universidade Clássica, até à morte infelizmente prematura, que aconteceu em 1995.

Nós, os de uma geração anterior de professores, lamentámos muito a sua perda, porque com ele desapareceram as tardes tranquilas acompanhadas com xadrez, nos gabinetes dos estudos portugueses, dos quais se lembra o nosso leitor de então, Ernesto Rodrigues no romance recém saído na Hungria, Um Passado Imprevisível, quando envolvidos no fumo espesso dos charutos Csongor, marca preferida do professor, falávamos sobre alunos e alunas, futebol e coisas da vida; desapareceram as ceias alegres, roçadas com Bikavér, a única marca de vinho aceitável na Hungria socialista, e os passeios noctívagos, até a madrugada, pelas ruas desertas de Budapeste: um momento dos quais até hoje vive na minha memória, sendo tão caraterística deste homem bom, que gostava tanto de viver: de repente encarou-me, jovem assistente sério, estudioso de Eça de Queirós e perguntou: porque não escreves a tua tese sobre os jantares dos Vencidos da Vida?

A sua memória guarda um azulejo, marcando a sala que leva seu nome, no Edifício C. da Faculdade de Letras de ELTE, onde tem sede o departamento fundado por ele.

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