Grabato Dias (Portugal/Moçambique)

por João Miguel Henriques

Amor. Te. Ti, tigo. A morte. Amo-te
sem R, sem risco ao meio da morte.
Quero-te assim, querente, quente e forte
ode que a circunstância obriga a mote.

Quatorze versos no papel e dou-te
exangue e medido ramo. O corte
já deixou de sangrar. Pinhos do norte!
Que ricas tábuas de caixão, pra bote!

No mundo em pedaços repartida
ficou-me a mim e ao luis vaz a vida,
galinha gorda rebolante ao espeto.

Me, mi, Mimi, migo… Ó amiga, as migas
ainda são um bom prato, e até com ligas
de duquesa se faz tanto soneto.

António Quadros (Viseu, 1933 – Santiago de Besteiros, 1994) estudou pintura na Escola Superior de Belas-Artes do Porto, e gravura e pintura a fresco em Paris. Em 1964 parte para Lourenço Marques. Foi pintor e professor, mas também artista gráfico, ilustrador, ceramista, escultor, fotógrafo, cenógrafo e pedagogo. Trabalhou em arquitetura, apicultura, comunicação, biologia e ecologia, privilegiando uma abordagem interdisciplinar. Escreveu e publicou poesia sob diferentes pseudónimos: João Pedro Grabato Dias, com 40 e Tal Sonetos de Amor e Circunstância e Uma Canção Desesperada (1970), O Morto (1971), A Arca (1971), 21 Laurentinas (1971), Pressaga (1974), Facto/Fado (1986), O Povo É Nós (1991) e Sagapress (1992); Frey Ioannes Garabatus, com o poema épico-paródico As Quybyrycas (1972, prefácio de Jorge de Sena); Mutimati Barnabé João, ficcionado guerrilheiro morto em combate, com os poemas Eu, o Povo (1975). Coordenou, com Rui Knopfli, os cadernos de poesia Caliban. Regressa a Portugal em 1984, e leciona na Universidade do Algarve e na Faculdade de Arquitetura do Porto, continuando a pintar e a escrever. Uma parte da sua obra plástica está antologiada no livro O Sinaleiro das Pombas (2001).

 

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