Glauco Mattoso (Brasil)

por João Miguel Henriques

MÍNIMO MÚLTIPLO INCOMMUM [3192]

Que, mesmo os perdedores, com um cego,
são dignos de vencer, isso eu não nego.

Cegueira é impedimento para tudo:
viagens, espectaculos, cinema,
além do acceso a rede, ao “contehudo”.

A graça da viagem é o que vemos.
Um show é só barulho sem a scena.
A tela, só com som, fica pequena.
Sem mouse, o transatlancio anda a remos.

Mas, como não é surdo nem é mudo,
o cego, que viaja no poema,
inventa o palco, a tela, o assumpto, o estudo.

Si quanto mais me isolo, mais me aggrego,
provei que, em verso, é imenso um reles ego.

 

Glauco Mattoso é um pseudónimo de Pedro José Ferreira da Silva. O seu nome artístico é um trocadilho com glaucomatoso, termo usado para os que sofrem de glaucoma, doença que o fez perder progressivamente a visão, até a cegueira total em 1995. É também uma alusão a Gregório de Matos, de quem se considera herdeiro na sátira política e na crítica de costumes.

Glauco Mattoso estudou Letras na Universidade de São Paulo, mas não chegou a completar o curso. Entre 1976 e 1994 colaborou em vários periódicos do Rio de Janeiro, como Pasquim e 34 Letras, e também de São Paulo, como Chiclete com Banana e Jornal da Tarde. Em 1977 organizou, com Nilto Maciel, Queda de Braço: Uma Antologia do Conto Marginal. Participante do grupo de poetas “marginais” que, nos anos de 1970, publicava em periódicos alternativos, Mattoso reuniu, em 1981, parte de sua produção poética no livro Jornal Dobrabil, 1977/1981. Ainda em 1981 escreveu, para a coleção Primeiros Passos, da Brasiliense, O Que É Poesia Marginal. Nas décadas de 1980 e 1990 participou ativamente em palestras e debates sobre poesia e arte. Considerado uma das vozes mais fesceninas da poesia brasileira comtemporânea, o poeta, herdeiro de Gregório de Mattos e Bocage, é sempre lembrado pelo uso de linguagem obscena, satírica, por vezes chula. A sua trajetória poética estende-se dos poemas concretos, visuais, da primeira fase, aos sonetos camonianos de Centopéia: Sonetos Nojentos & Quejandos (1991) e haicais de Haicais Paulistanos (1992).

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