Futebol. Hungria-Portugal: Um comentário muito pessoal

por Joaquim Pimpão

Eu cheguei a Budapeste em 18 de setembro de 1979. Quando em agosto soube que a Hungria seria o meu destino, ao jantar lá em casa em que dei a novidade, o meu pai disse-me: Hungria é famosa pelo seu futebol, com grandes futebolistas e grandes treinadores e alguns deles, felizmente, estiveram aqui em Portugal. Benfica, Porto e Sporting sabem bem do que falava o meu pai…

Nos primeiros tempos de Budapeste, aos fins-de-semana, fui muitas vezes ao futebol, com o João Coelho, o Arnaldo Rivotti, mas também com o Ernesto Rodrigues e o Prof. Rózsa Zoltán (com ele era o Fradi na Üllöi út), íamos sobretudo para ver os Kettős rangadók, os derbis duplos entre a 4 equipas da capital – Ferencváros (FTC), Újpest, Bp. Honvéd e Vasas. Bons jogos que acabavam sempre a bebermos cerveja e a comer, salsichas, carne panada ou lá perto.

Mais tarde, depois de ter sido, na primavera de 1985, o intérprete-acompanhante da nossa seleção sub-16 no europeu da categoria, em que o grupo onde estava a nossa equipa, ficou em Zalaegerszeg e jogou em Zalaegerszeg e Keszthely. Uma equipa de jovens portugueses em que jogavam, entre outros, Bizarro e Cadete. O treinador era o Magriço José Augusto e o treinador adjunto Carlos Queiroz. Teria, teríamos histórias interessantes para contar… mas não pedi autorização…

Fui então convidado por Rui Santos que era o enviado-especial de A Bola ao europeu, para correspondente de A Bola em Budapeste. Aceitei de imediato com enorme orgulho e prazer. No verão seguinte fui a Lisboa à Travessa da Queimada e fui recebido, visitei as instalações e conversei demoradamente com Vitor Santos e Joaquim Rita, que seria o meu chefe pois era o responsável da rede de correspondentes.

Fui o Fernando Lopes, correspondente de A Bola durante 10 anos. Uma década especial e única na minha vida, uma década maravilhosa, quando lhes disse que já não conseguia conciliar e continuar (e também o mundo estava a mudar muito rapidamente e os correspondentes perdiam o seu lugar a olhos vistos), já tinha 3 meninas húngaro-portuguesas, que no futebol, até hoje, são por Portugal. Ainda não tinha chegado o nosso extra-time luso-húngaro…

Com Rui Santos aconteceu uma “coisa” que não posso não contar, entrevistou-me. Confesso que não acreditei que a entrevista com o simples intérprete Pimpão que até falou da política com alguma ousadia, fosse publicada na Bola, mas foi.

Muito tempo depois – naquela altura o mundo não era uma aldeia global, não havia internet, telefones móveis, redes sociais, a notícia nos segundos seguintes – é que eu vim a saber como o meu pai tropeçou com a entrevista.

Foi um sábado, estava ele na “Farmácia” a beber um branquinho (um de cada vez como costumava dizer) quando um dos seus melhores amigos que lia A Bola da taberna começou a gritar “Ó Pimpão olha aqui o teu filho a falar no jornal”…

Escrevi, entre crónicas de jogos, artigos mais extensos sobre as equipas húngaras, mais de 100 artigos. Fiz também algumas entrevistas, das quais gostaria de destacar duas, a com Puskás então selecionador da Hungria, que quis que a entrevista fosse em espanhol, apesar de ter ficado muito sensibilizado que um português falasse húngaro e a Péter Lipcsei, após o anúncio da sua transferência para o FC Porto, no tempo do treinador Robson.

Como correspondente, em jogos das competições europeias, recebi cá várias equipas portuguesas, o Chaves de Raul Águas, contra o Honvéd, o Guimarães de René Simões contra o Tatabánya, o Porto de Robson contra o Ferencváros, o Benfica de Ivic, contra o Vác. Tive pena mas nunca recebi cá o meu Sporting como Fernando Lopes…

Depois desta longa introdução incompleta, algumas palavras curtas sobre os jogos entre as nossas duas seleções principais a que assisti.

Desde 6 de setembro de 1998 até hoje, 19 de junho de 2021, a Hungria e Portugal defrontaram-se 8 vezes, com 7 vitórias de Portugal e 1 empate, o célebre 3-3 de Lyon em 22 de junho de 2016, está quase a fazer 5 anos…

Desde então estive presente em todos os jogos. Aqui em Budapeste, por motivos óbvios, vivo aqui, era apenas um saltinho. Para as 3 partidas em Portugal, foi sempre mais complicado, mas arranjei sempre maneira de estar em Lisboa, oficialmente, em trabalho, ou pedindo mais 1 dia de permanência à custa das férias…

Assisti a todos os jogos, incluindo o de Lyon onde estive com o meu filho Daniel (Pimpao) e outro Daniel (Felizardo), filho do meu amigo António (estava com convidados VIP, mas nós os 3 estivemos muito bem). Voltamos a repetir o este triunvirato esta terça-feira no Puskás Aréna… Não há como estar entre o povo para podermos gritar, berrar e extravasar tudo…

Com excepção de Lyon, ganhamos sempre e com maior ou menor dificuldade, de forma justa e inequívoca. Foi assim:

Em Budapeste (6 de setembro de 1998) por 3-1, com golos de Sá Pinto (2) e João Pinto.

Em Lisboa (9 de outubro de 1999) por 3-0, com golos de Rui Costa, João Pinto e Abel Xavier. Em ambos os jogos era Humberto Coelho o selecionador.

Em Budapeste (9 de setembro de 2009) por 1-0. Golo de Pepe.

Em Lisboa (10 de outubro de 2009) por 3-0, com golos de Simão Sabrosa (2) e Liedson. Nos dois jogos era Carlos Queiroz o selecionador.

Depois a tal exceção que confirma a regra: Lyon (22 de junho de 2016), empate 3-3, com golos de Cristiano Ronaldo (2) e Nani e voltando a normalidade,

Em Lisboa (26 de março de 2017) por 3-0, com golos de Cristiano Ronaldo (2) e André Silva

Em Budapeste (3 de setembro de 2017)por 1-0. Golo de André Silva

E finalmente em 15 de junho de 2021 em Budapeste por 3-0, com golos de Cristiano Ronaldo (2) e Raphael Guerreiro. Selecionador o “nosso Engenheiro” Fernando Santos.

Esta foi a primeira vez que após o jogo não falei com o meu velhote. Ele ficava tão excitado com os jogos entre os dois países, que sabia que a primeira pessoa a quem tinha que ligar era ele. Às vezes antecipava-se. Desta vez nem eu lhe liguei nem ele me ligou… Liguei-lhe em pensamento…

Não quero ser chato com os meus muitos amigos húngaros, mas se olharmos com cuidado e juntarmos o resultado do jogo da fase final do Mundial de 1966 em Manchester, 3-1 com golos de José Augusto e José Torres… marcar 3 golos a Hungria é a nossa especialidade. Esse jogo, tal como todos os outros, vi com o meu pai na Taberna do Ti Gil na Portela das Padeiras, Santarém, onde então morávamos…

Para terminar, voltando aos dias de hoje, que a Hungria faça a vida negra a França esta tarde e que a nossa Equipa esteja ao seu nível contra a Alemanha em Munique…

PS: Um dia destes ainda volto a contar mais histórias da minha época de correspondente de A Bola

 

Foto surpresa de Daniel Pimpão, Puskás Aréna, 15.06.2021

Budapeste 19 de junho de 2021

Print Friendly, PDF & Email

Também poderá gostar de

O nosso website utiliza cookies para melhorar a sua experiência de navegação. Aceitar Ler Mais

Privacidade