Fortepan

por João Miguel Henriques

À procura de uma boa imagem para a capa de um livro a editar brevemente, dou por mim a explorar o monumental acervo fotográfico do Fortepan, projecto que nos últimos anos tem reunido dezenas de milhares de fotografias das mais variadas épocas e proveniências, oferecendo assim um extraordinário panorama da história húngara do último século. Trata-se porém aqui de uma história quotidiana e privada, contada pelo olhar pessoal e subjetivo de fotógrafos muitas vezes anónimos, já que o projecto começou por reunir material acidentalmente encontrado nas ruas de Budapeste, nos célebres e frutuosos dias da tralha deixada no passeio. O arquivo foi depois crescendo com doações de famílias, fotógrafos amadores e profissionais e até mesmo colecções públicas. O acervo conta já com mais de 150.000 fotografias e encontra-se disponibilizado online, para alegria de entusiastas como eu, fascinados sobretudo pelas pequenas histórias que a história oficial tantas vezes oculta. A página acolhe também todos os comentários de utilizadores que ajudam a identificar nas fotografias ruas, estabelecimentos, rostos de pessoas…

Depois de uma boa hora a passar a pente mais ou menos fino os resultados de “híd” + “budapest” (centenas de imagens de todas as pontes da capital ao longo das décadas, incluindo as que entretanto a história já apagou da paisagem), sobrevem-me uma curiosidade um pouco voyeurista de digitar o nome da minha rua e ver o que aparece. Dezoito resultados. Algumas das imagens mostram-me a rua em épocas e ângulos que obrigam a algum esforço de reconhecimento. Vejo que na década de sessenta havia menos árvores e que a pequena praceta central não era ainda, como hoje, um parque infantil vedado. Constato também que o fotógrafo/doador K.P. gostava de tirar fotografias da sua varanda, mostrando-me a rua de um terceiro ou quarto andar, não longe da casa onde vivo. E depois há as pessoas, os rostos anónimos olhar-me de um passado quando eu nem sequer ainda existia. Estremeço um pouco, ao violento impacto do tempo, quando penso que aquelas pessoas, no momento único e irrepetível da fotografia, ignoravam por completo tudo aquilo que a vida ainda lhes haveria de trazer. E depois imagino-me um desses corpos, ou mesmo toda aquela gente ao mesmo tempo, porque na verdade as fotografias mostram-me poses e situações em que eu próprio poderia perfeitamente ter estado, se um dia tivesse ali habitado, com outro nome e noutra pele. Encostado ao carro, de meio sorriso na cara, com o salsicha pela trela. Sentado na varanda, o sol derramado sobre o corpo, na leitura absorta de um livro. De mão dada com o meu amor, ali mesmo na esquina, onde tantas vezes cruzámos a rua para passear o animal.

Sinto-me então o bairro todo, a cidade inteira, todas as pessoas de todos o tempos, passados e futuros, assim iluminados pela observação íntima das imagens. Como aquela fotografia final, tirada à janela fechada, no recolhimento da casa, a perscrutar o tempo chuvoso, os vizinhos da frente. A explicar-me que também ali eu próprio vivi um dia, de máquina em punho, na minha rua de Budapeste.

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