Finalmente o bacalhau…senão ainda fica tudo em “águas de bacalhau” (Parte VIII)

por Joaquim Pimpão

O bacalhau, ”o fiel amigo”, que como se pode ouvir pela sonoridade, rima com vinho. Uma rima perfeita, atrevo-me a dizer…

É dificil dizer quantas receitas de bacalhau existem em Portugal, mas certamente que o seu número não fica a perder com o número das histórias do livro “As mil e uma noites”. Em Portugal, costuma-se dizer que uma verdadeira dona de casa conhece 365 receitas de pratos de bacalhau, uma receita de bacalhau para cada dia do ano.

O “fiel amigo”, que há muito adoptamos e transformamos num dos símbolos da nossa gastronomia, é seguramente objecto dos maiores desafios culinários. Curiosamente, embora seja um dos principais ingredientes da cozinha portuguesa, o bacalhau é importado das águas frias do Atlântico Norte: Canadá e Noruega…

Não é possível falar de bacalhau sem falar de prazeres diversos, modo de vida, gentes portuguesas, trabalho árduo, literatura, etc. Vejamos o exemplo de Eça de Queiroz que em 1884, numa carta endereçada ao seu amigo Oliveira Martins, escreveu: “Os meus romances no fundo são franceses, como eu sou em quase tudo um francês – excepto num certo fundo sincero de tristeza lírica, que é uma característica portuguesa, num gosto depravado pelo “fadinho” e no justo amor do bacalhau de cebolada”.

A saudade, o sentimento tido como específico dos portugueses, e o fado, a canção urbana, já então considerada como nacional, surgem aqui acompanhadas pelo bacalhau. Ainda voltarei por um momento a este “ménage à deux” – bacalhau (com vinho) e fado…

Ao longo de séculos, o bacalhau transformou-se de simples género alimentar em símbolo da identidade portuguesa, de comida socialmente conotada com situações de abstinência e própria de gente pobre, assim como em alimento caro e prestigiado no campo das melhores especialidades gastronómicas.

 

 

 

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