Filmes Perdidos Portugueses: A SEREIA DE PEDRA (1922, Roger Lion) com filmagens exteriores em Tomar, Barquinha e Lisboa

por LMn
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“A Sereia nefasta terá de ser, eternamente, o símbolo de uma alma de mulher?”

Adaptado do conto Obra do Demónio, assinado por Virgínia de Castro e Almeida, escritora e fundadora da Fortuna Filmes, A SEREIA DE PEDRA constituiu a primeira incursão do realizador francês Roger Lion pelo Cinema Português.

Recém-chegado ao nosso país, após anos de intensa atividade cinematográfica em França, Lion ficaria para a posteridade — ao lado de nomes como Georges Pallu, Maurice Mariaud e Rino Lupo — como um dos dinamizadores fundamentais do desenvolvimento cinematográfico em Portugal, num feito concretizado com apenas três filmes realizados em terras lusitanas: logo a seguir a este A SEREIA DE PEDRA, assinaria, em mil novecentos e vinte e quatro, AVENTURAS DE AGAPITO (uma “farsa cómica em duas partes à maneira de Mack Sennett”, cujo paradeiro também se encontra desaparecido) e OS OLHOS DA ALMA, drama de rivalidades familiares rodado em grande parte na Nazaré.

Para falarmos sobre A SEREIA DE PEDRA, é imperativo salientar o interesse da escritora Virgínia de Castro e Almeida pela Sétima Arte. Tanto assim o foi que, em mil novecentos e vinte e dois, ainda residindo em terras gaulesas, instituiu um prémio pecuniário de cinco mil francos destinado ao melhor filme francês. Pouco tempos depois, constituiria a Fortuna Filmes, sediada em Paris e com escritórios em Lisboa, numa iniciativa empresarial motivada por propósitos muito específicos e ambiciosos: “Os filmes portugueses até agora produzidos não são perfeitos. Por vezes a ação é arrastada; o entrecho banal, para as grandes plateias acostumadas a ter sob os olhos beleza e arte, ouvindo uma música feita expressamente para o que estão vendo”.

Traçados estes pressupostos, Virgínia de Castro e Almeida convidou o realizador Roger Lion, assim como atores e dois experientes operadores de câmara franceses, para a produção de A SEREIA DE PEDRA, com filmagens exteriores em Tomar, Barquinha e Lisboa, e interiores rodados no estúdio da Portugália Film.

Uma vez que não sobreviveu, até aos nossos dias, qualquer elemento do filme (nem cópias para projeção, nem esboços do seu argumento), a sinopse de A SEREIA DE PEDRA é, amiúde, decalcada do próprio conto Obra do Demónio. Segundo várias fontes, a narrativa começaria com a morte de António (Manuel Grilo), um moço de forcados que, diminuído por embriaguez, é fatalmente colhido por um touro ao efetuar uma pega na arena. A mulher, Leonor (Gil Clary), fica sem recursos, apelando ao melhor amigo de António, Pedro (Max Maxudian), guarda do Convento de Cristo, que decide tomar conta do seu filho Cláudio. Ao mesmo tempo, uma mulher abandona outra criança no claustro a qual, dezassete anos depois, cresce para tornar-se numa linda rapariga a que seria dado o nome de Maria (Maria Emília Castelo Branco).

A jovem, dona de um carácter incerto e caprichoso, de feitio ora intratável ora amável, compraz-se em ver sofrer pessoas que dela se acercam. É amada por Cláudio (Nestor Lopes), o filho alcoólico, aleijado e pobre de espírito de António, assim como por Miguel (Arthur Duarte), um arquiteto ali encarregado de fazer investigações arqueológicas no mosteiro, e que compara a jovem protagonista à figura de uma Sereia de Pedra que se conserva num recanto do claustro. Esta trama de paixões, num espetáculo de dor que levará à morte e à desgraça os seus pretendentes, parece purificar o espírito de Maria. Torna-se na mais doce das criaturas e destrói pelas suas próprias mãos o busto da Sereia de Pedra. Todavia, no final, a escultura reconstitui-se. A Sereia nefasta terá de ser, eternamente, o símbolo de uma alma de mulher?

Embora não sejam conhecidos os paradeiros de qualquer elemento fílmico desta obra, existem registos de que A SEREIA DE PEDRA foi exibido no Cinema Artistique de Paris (sob os títulos La Sirène de Pierre e Le Fantôme d’Amour) em Abril de mil novecentos e vinte e três, numa estreia comercial que mereceu crítica favorável por parte da revista Cinemagazine:

«A novidade e a originalidade empolgantes e aliciantes do assunto e das imagens, a perfeição de toda a realização suscitaram, com efeito, vivo interesse e proporcionaram aos autores e aos seus intérpretes o mais franco dos sucessos.»

Por Portugal, estreou comercialmente a dois de abril de mil novecentos e vinte e quatro e, no A Capital do dia seguinte, é possível encontrarmos ecos da sua exibição no Olympia, em Lisboa:

«A Sereia de Pedra» pode ter defeitos ou deficiências; o valor dinâmico e o interesse da intriga podem ser inferiores a qualquer “super-produção” alemã ou americana (e não é assim); o que não há dúvida é que é uma película digna de qualquer programa, de qualquer “écran” de qualquer público do Universo. Não nos envergonha.

A técnica e a preocupação artística, tanto no sentido fotográfico como no conjunto dos efeitos, recorda-nos a produção escandinava moderna, esses filmes que em qualquer dos seus valores prendem os olhos e escravizam a alma numa atenção estática e sonhadora. Adivinha-se facilmente que sr. Roger Lion estudou a arte muda através do sistema da Svenska.

(…)
«Mise-en-scène» brilhante e moderna; os interiores que, se não nos enganamos são do ilustre artista Ruy Teixeira Bastos, que dirigiu a secção artística do Pathé de Paris, são muito interessantes.

Resumo: um filme admirável, rico de inspiração, de «scenarie» e de realização. Augura-o um sucesso dentro e fora de fronteiras. Roger de Lion e D. Virgínia de Castro e Almeida podem sentir-se orgulhosos. E nós também…»

Notas:

1 e 4 in Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português 1896-1949, de Félix Ribeiro (1983, Cinemateca Portuguesa).
2 Sobre a vida e carreira de Maria Emília Castelo Branco, recomenda-se a leitura do texto, assinado por Paulo Cunha, no site À Pala de Walsh (consultado a 04 de Outubro de 2019).
3 Elementos do argumento trabalhados a partir das investigações de Jorge Leitão Ramos (Dicionário do Cinema Português 1895-1961, 2011, Editorial Caminho) e M. Félix Ribeiro (Filmes, Figuras e Factos da História do Cinema Português 1896-1949, 1983, Cinemateca Portuguesa).
5 in A Capital, N.º 4343 de 3 de Abril de 1923, p. 3.

Imagens:

1 Fotograma de A SEREIA DE PEDRA, Cinemateca Portuguesa.
2 Virgínia de Castro e Almeida, in Ilustração Portugueza.
3 Fotograma de A SEREIA DE PEDRA, Cinemateca Portuguesa.
4 Maria Emília Castelo Branco, na capa da revista A Scena Muda, N.º 237 de 5 de Outubro de 1925.
5 Promoção à exibição, em Paris, de A SEREIA DE PEDRA, in Cinéa, N.º 79 de 17 de Novembro de 1922, p. 22.

Fonte: sindromadovinagre.blogspot.com

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