Figuras da Lusofonia – Benyhe János (1926-2010)

por Pál Ferenc

Nestas páginas soltas  pensamos comemorar as figuras e momentos do conhecimento e propalação da cultura lusa e brasileira na Hungria. Antes já comemorámos o saudoso professor Rózsa Zoltán e Pál Ferenc, iniciadores dos estudos lusos,  fundadores e organizadores do Departamento Português na Universidade ELTE. Nas próximas semanas dedicaremos breves esboços de perfil às figuras da segunda geração, Székely Ervin, Lukács Laura, Urbán Bálint, Felkai Piroska e outros filólogos a tradutores de literatura.

 A terceira figura ilustre da tríade que tinha um papel importante na introdução e divulgação das letras e cultura dos países de língua portuguesa foi Benyhe János (1926-2010), tradutor e redator exímio da Editora Európa que na segunda metade do século XX foi o maior centro do espalhamento da literatura mundial.

É um momento curioso e anedótico da sua vida que, tendo nascido numa pequena cidade do interior da Hungria, onde havia poucas possibilidades de entretenimento para um adolescente, nas horas vagas da juventude, como me contou uma vez, compilava um dicionário português-húngaro. Esta atração pelas línguas depois o acompanhava durante toda a vida. A pesar de ter uma paixão e talento pela música – durante muito tempo pensava ser cantor de ópera – optou pelas línguas e pela filologia, e cursou os estudos ingleses e franceses na Universidade Pázmány Péter (depois Eötvös Loránd Tudományegyetem) entre 1945 e 1950. Ao lado da aprendizagem de línguas e da literatura, realizou também estudos da música nestes anos (os seus colegas do Colégio Eötvös József, lar estudantil dos alunos seletos, futuros líderes intelectuais da Hungria, contavam-me que todas as noites “apoderava-se” da telefonia para ouvir música, pegando o ouvido ao alto-falante do aparelho e deliciando-se com óperas italianas.

Ao par do inglês e francês, aprendeu espanhol e português, e depois dos estudos universitários encetou a carreira de tradutor literário, vertendo para húngaro, entre as primeiras obras traduzidas por ele,  Jubiabá de Jorge Amado, em 1952. Trabalhava, aliás,  como docente livre na Universidade ELTE, formando nos seus seminários de tradução muito populares gerações de tradutores literários que com a ajuda benevolente dele podiam conhecer e depois praticar esta nobre atividade. Os tradutores “noviços” até hoje lembram o seu gabinete na Editora Europa, alojada num edifício majestoso, em frente do Parlamento, que foi um verdadeiro paraíso dos literatos e amantes da literatura, pois naquela altura, nos anos 1950 a 1970, os maiores escritores, poetas e eminentes intelectuais encontravam um asilo seguro nos escritórios das editoras. Estes cómodos escritórios editoriais ofereciam possibilidade a um trabalho concentrado, a longas conversas sobre artes, literatura e cousas da vida, e também oportunidade de conhecer e ter contato diário com os famosos homens da literatura, que era uma grande aventura, pois naqueles tempos os escritores e poetas eram verdadeiros “celebs” na Hungria.

Ao par deste trabalho nos seminários da Faculdade de Letras e sendo redator de livros, Benyhe János traduzia uma série de obras, entre elas Gente de Bem de António Assis Esperança, Os Caminhantes de José Cardoso Pires, São Bernardo de Graciliano Ramos, organizou a antologia da poesia hispano-portuguesa Hesperidák kertje (Jardim das Hespérides, 1971) recolhendo, no segundo volume da mesma, poemas portugueses e brasileiros dos inícios até o presente e a coletânea de peças teatrais,  Az aranykezű csavargó (O Vagabundo das Mãos de Ouro, 1980), ajudou a publicação de A Capital de Eca de Queirós (A főváros, 1989) e várias antologias contedo contos brasileiros. Em reconhecimento do seu valioso trabalho como tradutor literário e douto divulgador das literaturas portuguesa e brasileira, foi galardoado várias vezes, entre outras recebeu a Ordem Dom Henrique, em 1989, e entre 1990 e 1995 representou a Hungria como embaixador no Brasil, afamado não apenas pela sua cultura e conhecimento das letras brasileiras, mas também por cativar a simpatia dos brasileiros com a sua bela voz, oferecendo saraus onde cantava canções clássicas.

Foi um homem ativo até os últimos anos da sua vida, além de continuar o seu trabalho de tradutor, assumia as tarefas do secretário geral do Pen Clube Húngaro, prestando especial atenção às relações com os autores portugueses e brasileiros.

Pál Ferenc

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