Ferreira Gullar (Brasil)

por João Miguel Henriques

Poema sujo (trecho)

turvo turvo
a turva
mão do sopro
contra o muro
escuro
menos menos
menos que escuro
menos que mole e duro
menos que fosso e muro:
menos que furo
escuro
mais que escuro:
claro
como água? como pluma?
claro mais que claro claro:
coisa alguma
e tudo
(ou quase)
um bicho
que o universo fabrica
e vem sonhando
desde as entranhas
azul
era o gato
azul
era o galo
azul
o cavalo
azul
teu cu
tua gengiva
igual a tua bocetinha
que parecia sorrir entre
as folhas de banana
entre os cheiros de flor
e bosta de porco aberta como
uma boca do corpo
(não como a tua boca de palavras)
como uma
entrada para
eu não sabia tu
não sabias
fazer girar a vida
com seu montão
de estrelas e oceano
entrando-nos em ti
bela bela
mais que bela
mas como era o nome dela?
Não era Helena nem Vera
nem Nara nem Gabriela
nem Tereza nem Maria
Seu nome seu nome era…
Perdeu-se na carne fria
perdeu na confusão
de tanta noite e tanto dia

 

Ferreira Gullar, pseudónimo de José Ribamar Ferreira (1930-2016), foi um poeta, ensaísta e crítico literário brasileiro. Recebeu o Prémio Camões em 2010.

Ferreira Gullar nasceu em São Luís, Maranhão, no dia 10 de setembro de 1930. Com 19 anos publicou seu primeiro livro de poesias “Um Pouco Acima do Chão”. Mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como jornalista. Escreve “A Luta Corporal” (1954), abrindo caminho para a Poesia Concreta no Brasil. Nesse mesmo ano participou da Primeira Exposição de Poesia Concreta em São Paulo.

Pouco antes do golpe militar de 1964, o poeta rompeu com a poesia concreta e passou a abordar temas de interesse social. São desse período as obras “João Boa Morte, Cabra Marcado Para Morrer” (1962) e “Quem Matou Aparecida” (1962).

Com o golpe militar de 1964, passou a empreender uma poesia de resistência. Escreveu o ensaio “Cultura Posta em Questão” (1964), e as peças “Se Correr o Bicho Pega, Se Ficar o Bicho Come” (1966) e “A Saída, Onde Fica a Saída” (1967). Em 1965 Ferreira Gullar foi preso e depois exilado em Paris e em seguida em Buenos Aires, onde escreveu “Poema Sujo” (1976). Em 1977 estava de volta ao Brasil.

Ferreira Gullar recebeu o Prêmio Jabuti de Melhor Livro de Ficção de 2007, com “Resmungos”, o Prémio Camões, em 2010, o título de Doutor Honoris Causa da UFRJ e o Prémio Jabuti de Livro do Ano de 2011, com a obra “Em Alguma Parte Alguma” (2010), o primeiro livro de poemas em mais de dez anos.

Faleceu no Rio de Janeiro, no dia 4 de dezembro de 2016.

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